PT erra feio e grave ao não impor novos advogados e fixar-se burramente na campanha Lula Livre

Conduzida pelo PT, a campanha ‘Lula Livre’ é justa? Sim, para a esquerda, sem dúvida, é. Mas atingiu o objetivo? Os fatos, alheios a paixões e torcidas, mostram cruelmente que não. E pior: quanto mais prossegue como eixo central da política do partido do ex-presidente, mais imobiliza, isola e afasta a legenda da realidade.

Outra pergunta: a campanha ‘Lula livre’ pode ser abandonada? Não, afinal não se espera da agremiação que Lula fundou e liderou abandoná-lo, com toda a sua magnitude presente e histórica, dentro do cárcere.

Não há, portanto, o que ser feito?

Bem ao contrário. Com uma decisão política simples, mas que se impõe como iminente, o PT poderia manter as aparências e, ao mesmo tempo, passar a trabalhar de verdade melhor para, se não livrar imediatamente Lula da cadeia, o que juridicamente se configura impossível, ao menos – e isso pode ser fundamental no médio prazo – dar-lhe alguma perspectiva de liberdade.

Do jeito que está, todas as contas apontam para um final de vida fora do convívio social para o líder político que mais usufruiu o direito de cortar o Brasil de ponta a ponta, desfrutando do carinho do povo, em toda a história.

Com a condenação, goste-se ou não, de 12 anos e 11 meses imposta pela juíza Gabriela Hardt na semana passada, Lula já carrega exatos 25 anos de pena, uma vez que, logo na abertura do ano eleitoral de 2018, o TRF-4 pregou, em segunda instância, 12 anos e um mês em sua cruz.

Será do TRF-4, outra vez, a primazia de julgar a sentença dada pela sucessora de Sergio Moro. E são favoritos os que apostarem em manutenção ou revisão para cima da canetada primária.

Nesse circuito viciado, sobre o qual observadores internacionais deixaram o País tantalizados com a superficialidade combinada com severidade, em relação a Lula, dos desembargadores Paulsen, Gebran e Laus, qual já se anuncia a estratégia da defesa do antigo sindicalista? Sustentar que a juíza Gabriela é parcial etc. O mesmo partido advocatício adotado em relação a Moro, e que deu no que deu.Alguma chance para Lula, que ainda tem a enfrentar seis processos, só existirá nas últimas instâncias – o STJ e o STF. Da mobilização do povo, como quer o PT, até aqui nada de real ocorreu e, mesmo na hipótese existente em um sonho de verão – a de assistirmos a mobilização das massas  num estalar de dedos -, arrancar Lula da PF nessa base só se fosse no bojo de uma revolução. O Bardo, que pena!, não está mais entre nós para versejar esse desfecho.

Contra Gabriela, e para as vistas dos desembargadores de Porto Alegre, o que a dupla de causídicos de Lula – Cristiano Zanin e sua mulher Valeska Teixeira – vai arguir é o mesmo que já não deu certo. O próprio Lula comprou a tese inútil de parcialidade flagrante da juíza, registrando, a partir da cela da PF, que o novo golpe lhe foi desferido dois dias antes de a juíza ser substituída. O ex-presidente vê em Moro o mesmo tipo de desvio.

Na condição de prego alvejado pelos martelos pesados de Moro, Gabriela e do TRF-4, Lula tem todo o direito de reclamar, é o conhecido ‘jus esperniandis’. Mas que seus advogados insistam nessa tecla única para virar o jogo é, na boa, burrice. Não vai funcionar, como já não funcionou. Não de hoje, por diferentes fontes de informação, Zanin e Valeska são retratados como ciumentos em relação a outros advogados e, em paralelo, muito aquém da competência de nomes renomados que já se dispuseram a ajudar o ex-presidente. Dá mesmo para comparar com o ex-ministro do Supremo Sepúlveda Pertence?

Com não mais que três frases, José Roberto Batochio, numa questão de ordem, fez a então presidente Cármen Lúcia engasgar, engolir o argumento lançado e, diante da lição legal que lhe fora dada, conceder, a contragosto, mais tempo de liberdade a Lula. Ele seria, sem Batochio e com Zanin-Valeska, preso ainda antes de janeiro de 2018. O grande advogado, diante da Corte Suprema, fez o que foi possível na ocasião e atingiu seu ponto.

Ao ser lembrada a breve e diferenciada performance de Batochio no palco nacional do STF, eis um ótimo nome para o PT, se houver coragem e clareza entre seus dirigentes, indicar a Lula como alternativa de troca em relação aos que até aqui conduziram sua defesa. Se Lula não entender, é preciso insistir à exaustão, para só então dar a missão como abandonada. Numa dessas, Lula pode vir, finalmente, a perceber que, em que pese o cerco  político, o fator principal de suas derrotas acachapantes na Justiça até aqui vem da burra linha jurídica adotada por seus advogados. Quem mais perde é ele próprio, nota-se.

Mudar os responsáveis e o veio argumentativo da defesa é muito mais benéfico à vida do ex-presidente do que jogar todas as fichas na politização dos fatos à sombra da campanha Lula Livre.

Acorda, PT!

Por Marco Damiani, editor de Br2pontos