Oposição acusa deputado do PSL de estar armado na CCJ, interrompe sessão e dificulta leitura de relatório pró-reforma da Previdência

A reunião da Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) da Câmara dos Deputados marcada para ler a proposta da Reforma da Previdência do governo Jair Bolsonaro foi suspensa por volta das 19 horas desta terça-feira 9 por suspeita de que um deputado do PSL estivesse armado. A acusação contra o deputado Delegado Waldir (PSL-GO) foi feita inicialmente pelo deputado Bismarki (PDT).

Parlamentares da oposição criticaram duramente o episódio e a confusão foi instalada no plenário. O parlamentar do PSL negou que estivesse armado e mostrou que estava apenas com um suporte para armas na cintura. O regimento interno da Casa impede que deputados estejam armados.

Antes, após mais de quatro horas de reunião, o relator da proposta de reforma da Previdência na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) da Câmara, deputado Delegado Marcelo Freitas (PSL-MG), começou a leitura do parecer que irá recomendar a admissibilidade ou não do texto enviado ao Congresso Nacional pelo governo Jair Bolsonaro.

Antes do início da leitura, a sessão chegou a ser interrompida por 15 minutos após um tumulto entre os parlamentares governistas e da oposição (leia abaixo mais detalhes sobre a confusão).

A expectativa é de que o relatório de Marcelo Freitas, integrante do partido de Bolsonaro, recomende a constitucionalidade do texto, isto é, defenda a tramitação da proposta no parlamento. Na CCJ, os deputados vão analisar apenas se a PEC fere algum princípio constitucional.

A votação do relatório de Marcelo Freitas deve ocorrer somente na semana que vem em razão de um pedido de vista (mais tempo para analisar o relatório) que será apresentado pela oposição.

Considerada prioritária pela equipe econômica para sanar as contas públicas, a PEC mexe nas regras de aposentadoria de servidores e trabalhadores da iniciativa privada.

Se o relatório de Marcelo Freitas for aprovado pelos integrantes da CCJ, o texto seguirá para uma comissão especial que será criada para discutir o conteúdo da proposta.

Tumulto

O tumulto que interrompeu a sessão por 15 minutos ocorreu quando Freitas se preparava para fazer a leitura do parecer. Nesse momento, deputados contrários à matéria foram até a mesa do presidente da comissão, deputado Felipe Francischini (PSL-PR), questionando o fato de não poderem apresentar mais uma questão de ordem para atrasar o início da leitura.

Deputados governistas cercaram a mesa e começou o tumulto. No meio da confusão, o deputado Eduardo Bismarck (PDT-CE) começou a gritar que havia um parlamentar armado entre eles, em referência ao líder do PSL, Delegado Waldir (PSL-GO).

O Regimento Interno da Câmara proíbe expressamente “porte de arma de qualquer espécie nos edifícios da Câmara e suas áreas adjacentes, constituindo infração disciplinar, além de contravenção, o desrespeito a esta proibição”.

Pelo artigo 271 do Regimento Interno, só é permitido o porte de arma para integrantes da segurança.

Após o tumulto, deputados governistas disseram à imprensa que Waldir portava apenas um coldre (artefato utilizado para guardar a arma na cintura). O G1 tentava contato com o líder do PSL até a última atualização desta reportagem.

Diante da confusão, a reunião acabou suspensa antes da leitura do parecer – a expectativa é de que seja retomada ainda nesta terça.

Discussões

A sessão desta terça foi marcada por diversas discussões entre deputados governistas e de oposição, que, em vários momentos, bateram boca na CCJ.

Logo no início da reunião, o clima ficou tenso. Deputados de PT, PSB e PDT contrários à reforma da Previdência apresentaram uma sequência de questões de ordem sobre os procedimentos da reunião como parte da estratégia regimental para atrasar a leitura do parecer.

Os questionamentos da oposição já tinham tomado mais de meia hora da reunião, quando a deputada Erika Kokay (PT-DF) tentou apresentar um novo questionamento.

O bate-boca começou porque o presidente da comissão, deputado Felipe Francischini (PSL-PR), não queria permitir que ela o fizesse, argumentando que a deputada pretendia questionar um ponto já decidido.

Parlamentares de oposição protestaram, e deputados governistas, incluindo Eduardo Bolsonaro (PSL-SP), filho do presidente Jair Bolsonaro, revidaram, pedindo que Francischini continuasse com os trabalhos da comissão.

Houve gritaria dos dois lados. Os ânimos só se acalmaram após Francischini autorizar a deputada petista a apresentar a questão de ordem, que foi rejeitada posteriormente.

O clima voltou a ficar tenso na comissão quando a deputada Maria do Rosário (PT-RS) apresentava nova questão de ordem, e a líder do governo no Congresso, deputada Joice Hasselmann (PSL-SP), começou a filmá-la com o celular.

Exaltada, Maria do Rosário reclamou, dizendo-se constrangida com a atitude da colega parlamentar, que a filmava para a expor em “suas páginas de fake news”.

“Nós estamos no século 21, não se ganha nada pelo grito. Não adianta gritar”, pediu o presidente da comissão a Rosário.

Sentada ao lado dele, a deputada Joice se manteve calada, com um sorriso no rosto. O presidente da comissão, que é do mesmo partido de Joice, disse que autorizava que qualquer deputado usasse o celular, sendo aplaudido por deputados governistas.

Maria do Rosário cobrou decoro parlamentar e informou que pretende recorrer ao Conselho de Ética da Câmara.

No decorrer dos debates, a deputada tucana Shéridan (PSDB-RR) saiu em defesa da petista e criticou o “deboche” e a “ironia” para tratar de um tema como a reforma da Previdência.

“Essa questão deve ser tratada da forma que merece e não em cima de plataforma política. […] É um tema que tem que ser tratado com seriedade, não com brincadeira, não com politicagem”, disse Shéridan.

Ao discursar, Joice Hasselman se referiu ao episódio como uma “cena lamentável” em que “senhoras maduras” se comportavam-se “como crianças mimadas que perderam a chupeta”. e(e.S,”Math”