Volta do Talibã é responsabilidade direta de Biden; EUA recriam cobra venenosa; Afeganistão vira base para operações de terror interno e externo

O governo do presidente norte-americano Joe Biden começou há pouco tempo, em  janeiro deste ano, mas já está marcado pelo fim da missão norte-americana no Afeganistão –que permitiu que o Talibã, grupo visto como extremista, voltasse ao comando do país depois de 20 anos.

David E. Sanger, jornalista sênior do The New York Times, escreveu uma análise no qual afirma que “Biden entrará para a história, de forma justa ou injusta, como o presidente que presidiu a longa e humilhante ação final do experimento norte-americano no Afeganistão”.

Desde o governo de Barack Obama (2009-2017), os EUA buscavam uma forma ordenada de sair do Afeganistão, garantindo que o Talibã não retomasse o poder. O ex-presidente Donald Trump (2017-2021) chegou a anunciar que retiraria as tropas do país da Ásia Central, mas terminou o mandato sem conseguir fazê-lo.

Biden não só decidiu seguir com o plano de retirar as tropas como adiantou a saída. Em abril, o democrata afirmou que o fim da missão seria em setembro. Depois, antecipou a saída das tropas para o fim de agosto, esperando que o governo afegão conseguisse se manter no poder pelo menos por alguns anos.

Aos poucos, os militares norte-americanos foram deixando o país e o Talibã retomou o controle sobre diversas regiões afegãs até chegar, no domingo (15.ago), a Cabul, capital do país. O grupo tomou o palácio presidencial e planeja instituir o Emirado Islâmico do Afeganistão, nome usado quando comandou o país pela 1ª vez, de 1996 a 2001.

Ashraf Ghani, até então presidente do Afeganistão, deixou o país para, segundo ele, “evitar um banho de sangue”.

Com o avanço do Talibã, Biden foi criticado por encerrar a missão de forma abrupta. Em 10 de agosto, quando o grupo afegão já avançava de forma rápida pelo território, disse que não lamentava sua decisão. Segundo Biden, os líderes locais deveriam lutar “por si mesmos”.

Gastamos mais de um bilhão de dólares em 20 anos. Treinamos e equipamos com equipamentos modernos mais de 300 mil forças afegãs. Perdemos milhares de soldados norte-americanos por morte e ferimentos. Eles têm que lutar por si mesmos, lutar por sua nação. Eles têm que querer lutar”, declarou o democrata em entrevista a jornalistas na Casa Branca.

Em coluna no Washington Post, o historiador a analista de política internacional Max Boot, diz que a “calamidade no Afeganistão” é um “desastre produzido por 4 governos”: 2 republicanos (George W. Bush e Trump) e 2 democratas (Obama e Biden).

Segundo Boot, Bush não focou na construção de um governo e força militar afegãos. Obama “se atrapalhou” ao aumentar as formas norte-americanas, passando a mensagem de que os talibãs só precisam esperar para retomar o poder. Trump pecou ao iniciar os planos de retirada e possibilitar a libertação de 5.000 militantes do grupo extremista.

Mas, analisa o historiador, recai sobre Biden a “a tomada do Afeganistão pelo Talibã há menos de um mês antes do 20º aniversário dos ataques terroristas de 11 de setembro de 2001”.

Boot usa a expressão dita pelo democrata quando se referiu à pandemia da covid-19 para definir a ação de Biden: “tragédia amplamente evitável que vai piorar antes de melhorar”. Ele diz que a ação “vai deixar uma mancha indelével em sua presidência”.

Ex-oficiais e diplomatas norte-americanos afirmam que a retirada das tropas foi um erro crasso e que as consequências podem ter repercussões duradouras.

Acho que é uma condenação para ele ter criado essa situação em sua primeira ação significativa como comandante”, disse ao jornal Wall Street Journal Ryan Crocker, que serviu como embaixador dos EUA no Afeganistão durante o governo Obama.

Biden não pode alegar ignorância do que estava por vir. Ele foi amplamente advertido pela comunidade de inteligência dos EUA”, escreve Max Boot.

Na 2ª feira passada [9.ago], os militares dos EUA estavam avisando que levaria de 30 a 90 dias para queda de Cabul. Agora, 6 dias depois, caiu e Biden vai passar o resto de sua presidência às voltas com as trágicas consequências desse desastre evitável.