Veja: Bolsonaro admite que PSL foi montado à base de ir “pegando qualquer um”, sugere reforma política para reduzir deputados a 400 e põe “ponto-final” no caso do 01; “Quem tem de responder é Queiroz”

Em entrevista exclusiva à revista Veja, o presidente Jair Bolsonaro começou contando uma piada. O presidente havia improvisado uma ida a pé ao Congresso, para participar de homenagem ao humorista Carlos Alberto de Nóbrega, e revelou que o general Augusto Heleno, ministro do Gabinete Institucional, teve dificuldade de locomoção. “Ele está meio empenado, mas me garantiu que o problema é apenas da cintura para cima”, disse Bolsonaro, mostrando que formalidade não é a sua principal virtude.

Durante a entrevista, ao comentar o atentado que sofreu durante a campanha eleitoral, Bolsonaro chorou. “Você vê passar um filme na sua cabeça, vem uma imagem na minha cabeça…  a minha filha Laura, de 7 anos… . Vi o rasgo e pensei que era uma porrada, um soco inglês”, comentou sobre o que sentiu ao levar a facada que quase o matou.

Na entrevista ping-pong, a primeira pergunta foi sobre se ele já se acostumou ao fato de ser presidente da República. “Respondendo à sua pergunta, já passei noites sem dormir, já chorei pra caramba também”, disse Bolsonaro. Ele afirmou que já conseguiu fazer “aquilo que prometi durante a campanha, coisa que eu desconheço que qualquer outro presidente tenha feito: indicar um gabinete técnico, respeitar o Parlamento e cumprir o dispositivo constitucional da independência dos Poderes”.

As noites de insônia e o choro foram justificadas por Bolsonaro. “Angústia, né? Tá faltando o mínimo de patriotismo para algumas pessoas que decidem o futuro do Brasil. O pessoal não está entendendo para onde o Brasil está indo. Não preciso dizer quem são essas pessoas”.

Sobre sua missão mais difícil, disse ser a de apresentar propostas e como elas podem ser interpretadas pelo Parlamento. Ele deu o exemplo sobre sua ação para espantar o “fantasma” de uma greve de caminhoneiros. “O que a gente tem de fazer para antecipar problemas? Por que não aumentar o limite na carteira para 40, 50 pontos?”, sugeriu sobre as regras em torno da CNH. “Eu fiz isso. Chamei o Tarcísio (de Freitas, ministro da Infraestrutura) e disse: ‘não quer mais saber de novos pardais’. Isso às vezes é mal interpretado. Por outro lado, você vai ganhando a simpatia da população e ela acaba entendendo que você quer fazer a coisa certa. No macro, é a reforma da Previdência, que é a mãe das reformas, e depois a tributária, que está para ser discutida”.

Bolsonaro disse que, quando deputado federal, era contra a reforma por ter informações “de orelhada”, mas que “a realidade” o fez mudar de posição. “O Brasil será ingovernável daqui um, dois ou três anos. Se a reforma da Previdência não passar, o dólar pode disparar, a inflação vai bater à nossa porta novamente e, do caos, vão florescer a demagogia, o populismo, que sabe o PT, como está acontecendo na Argentina, com a volta de Cristina Kirchner. O Brasil não aguentaria outro ciclo assim”. Para ele, a sequência do governo passa em “partir para a reforma tributária e para as privatizações”.

Questionado sobre o que pretende fazer para combater o desemprego, afirmou: “O general Mourão acaba de chegar da China. Lá também tem desemprego. Mas há uma diferença. Quando os chineses quiseram fazer a usina de Três Gargantas, só avisaram: ‘Olha, daqui a dois anos a água vai subir, se vira’. No Brasil você não faz isso. Aqui, Belo Monte está sendo construída há quase dez anos”. Segundo ele, “a situação (o desemprego) não está nada bacana. Essa é a realidade”.

A respeito da indicação do ex-ministro Ricardo Vélez para o ministério da Educação, admitiu que foi uma indicação de Olavo de Carvalho. “Errei”, disse o presidente, contando que ligou para Olavo para ter a justificativa da indicação que deu errado. ‘Olavo, você conhece o Vélez de onde?’. ‘Ah, de publicações’. ‘Pô, Olavo, você namorou pela internet?’, disse a ele. Bolsonaro disse que o nível de influência do filósofo em seu governo é “nenhum”, mas assumiu que Olavo teve influência em sua campanha.

A respeito de Lula, Bolsonaro foi duro. “Ele saiu de uma situação de líder para a de um cara preso, condenado por corrupção. Apesar disso, não tenho nenhuma compaixão em relação a ele. Ele estava trabalhando também para roubar a nossa liberdade”.

Para defender o regime militar de 1964, o presidente perguntou: “Qual ditadura faz uma campanha ‘Brasil, ame-o ou deixe-o’? Você imagina a Coreia do Norte e Cuba fazendo isso daí? Não fica ninguém lá, pô!”

A respeito do PSL, disse: “É um partido que foi criado, na verdade, em março do ano passado e buscava pessoas, num trabalho hercúleo no Brasil. Então nós fomos pegando qualquer um: ‘Quebra o galho, vem você, cara, vamos embora’ (…). Teve muita gente que falou para mim: ‘Nossa, eu não esperava me eleger’”. A respeito da possibilidade de mudar de partido, retrucou: “Quando a gente se casa, a gente jura a amor eterno. Está respondido?”

A respeito da importância do Twitter em sua estratégia de comunicação: “Acho que sou a pessoa que consegue atingir mais gente no mundo, tem mais interação, mais engajamento. Foi meu filho Carlos que começou a fazer isso daí – e foi muito importante no sucesso de nossa campanha”.

Ele admitiu estar preocupado com a quebra dos sigilos de seu filho Flavio. “Lógico. Se alguém mexe com filho teu, não interessa se ele está certo ou está errado, você se preocupa”. Bolsonaro citou a Caixa. “Flavio pagou um título bancário de 1 milhão de reais à Caixa Econômica. Ele quitou um financiamento com o banco depois de ter transferido débitos que tinha com a construtora para a Caixa. Os documentos estão registrados em cartório. Pô, o cara é deputado, a esposa dele é dentista, tem uma renda, e a Caixa queria comprar a dívida dele. (…) Assim foi feito. Ponto-final.

Para Bolsonaro, Flavio fez depósitos fracionado de 2 000 reais no total de 96 000 reais porque o primeiro valor “é o máximo para depósitos em envelope no terminal de autoatendimento da Assembleia Legislativa do Rio. (…) O que tem de errado nisso?”

Sobre Fabrício Queiroz: “Estou chateado porque houve depósitos na conta dele (de funcionários), ninguém sabia disso, e ele tem de explicar isso daí”.

O presidente disse que “com uma boa reforma política” não concorrerá à reeleição. Um ponto da reforma, para ele, seria o de reduzir o número de parlamentares de 500 para 400. Sobre a facada que sofreu: “Não quero me vitimizar nem inventar um culpado para o episódio, mas isso não saiu da cabeça dele”.