Vazamento de Palocci dá tiro de festim nos bancos, mas tenta desviar atenção de escândalo de Moro na Lava-Jato

BR: O alvo era um, mas o destino foi outro. Prometida desde o ano passado, quando foi aceita pela Polícia Federal após rejeição pelo Ministério Público por falta de provas, a delação premiada do ex-ministro Antonio Palocci disparou, finalmente, o tiro que era chamado de mortal, pelo calibre, contra os maiores bancos brasileiros. Veio, porém, de festim e mal arranhou seus objetivos. O barulho, por outro lado, ajuda a tirar o ministro da Justiça, Sergio Moro, do foco do noticiário de escândalos conhecidos por vazamentos.

A Polícia Federal deu curso à estratégia de passar em conta-gotas à mídia trechos da delação de Palocci. Agora, com Moro na berlinda, somar numa mesma denúncia Itaú Unibanco, Bradesco, Banco do Brasil, Safra e BTG Pactual viria a calhar para criar um novo ponto de interesse. A esperada delação contra os bancos aparece na edição de hoje de O Globo, o que é um fato curioso. No Jornal Nacional, o grupo Globo evita abordar os vazamentos contra Moro por considera-los ilegais e não comprovados, mas quando recebe documentos sigilosos, obviamente entregues pela PF, corre à primeira página de seu prestativo jornal para mostrar que também está na vanguarda denuncista.

Do dedo de Palocci, o caso concreto apontado sobre o BTG Pactual, do banqueiro André Esteves, parece ser o único que se pode comprovar. Relata a entrega por fora dos livros eleitorais de R$ 4 milhões em troca do alívio, que de fato ocorreu, de uma decisão do Conselho de Recursos do Sistema Financeiro Nacional contra Esteves e a Pactual Corretora de Valores. Uma pena de inabilitação de Esteves por três anos, o que o deixaria absolutamente de fora das decisões de seu banco, foi transformada em advertência com multa suspensa. Um verdadeiro presente. Com seus cuidados em vigiar os próprios passos com aparelhos eletrônicos, Palocci pode ter registro dos R$ 4 milhões que alega ter recebido do BTG Pactual. Até agora, porém, essa prova não apareceu.

Nos demais casos apontados, quem torce contra os bancos esperava bem mais. De cara, todas as doações citadas por Palocci foram feitas dentro da legislação do período. Ainda hoje, políticos como o presidente da Câmara, Rodrigo Maia, defendem o sistema de financiamento eleitoral privado. O conteúdo da delação cita fatos rumorosos, como a intrincada fusão entre o Itaú e o Unibanco, pela qual a possibilidade de uma multa bilionária, no Conselho Administrativo de Recursos Fiscais (Carf), pairou sobre a instituição das famílias Setubal, Moreira Salles e Villela. A suspeita era a de sonegação bilionária, estimada em mais de R$ 20 bilhões, na concretização do negócio. Na eleição de 2010, o Itaú doou R$ 4 milhões à campanha da petista Dilma Roussef, mas pela via legal. A associação entre os fatos feita por Palocci é plausível, mas outra vez sem provas.

A denúncia contra o Safra joga luzes para a propalada caixa-preta no BNDES. Interessado em uma injeção de R$ 2,7 bilhões de capital do banco de fomento na Aracruz Celulose, onde tinha participação, o Safra destinou R$ 3,7 milhões ao PT e à campanha de Dilma, em 2010 e 2014. Mas, de novo, legalmente, o que faz do ataque de Palocci soar apenas como plausível.

As citações a Bradesco e o Banco do Brasil são ainda mais frágeis. Informações privilegiadas junto ao BC, sem deixar claro quais, e bom relacionamento dentro da Vale seriam do interesse do Bradesco, enquanto o Banco do Brasil criou uma situação irregular, não especificada, para fazer um empréstimo comercial à Parmalat.

Em uníssono, os bancos classificaram a versão completa de Palocci como “inverossímil”. O mercado vai dizer, ao logo do dia, o tamanho da repercussão, a ser visto no desempenho das ações das maiores instituições financeiras do país. Para a mídia, deve ser um ponto de atenção relativo, uma vez que outros fatos, bem mais comprovados, correm em paralelo. Talvez nem o ataque de Palocci contra os bancos seja suficiente para tirar o ministro Sergio Moro e seus conteúdos comprometedores nas conversas com os procuradores de Curitiba do centro da cena.