Vale jogava técnicos “contra a parede” para liberar barragens; Fabio Schvartsman será investigado e corre risco de prisão

Para o Ministério Público de Minas Gerais, a tragédia de Brumadinho, que deixou 166 mortos e 144 desaparecidos, em razão do rompimento da barragem Córrego do Feijão, da mineradora Vale, não foi acidente, mas “crime doloso” (com intenção). Agora, a Justiça quer investigar a participação no caso dos dirigentes da companhia, com o presidente Fabio Schvrtsman à frente.

“Neste momento, é necessária a tutela da investigação, para que se apurem todos os responsáveis pelo ato, se aqueles que ocupam os cargos mais relevantes da Vale S.A. tinham conhecimento da situação”, escreveu o juiz Rodrigo Heleno Chaves, de Brumadinho, na sentença que autorizou, ontem, oito prisões temporárias, por 30 dias, de funcionários do setor de segurança da companhia. “É sim, possível, que os oito funcionários, mesmo não querendo diretamente que o resultado ocorresse (a tragédia), tenham assumido o risco de produzi-lo, pois já o haviam previsto e aceitado suas consequências.”

Na manifestação que deu base à decisão judicial, a Promotoria observa a possibilidade de que tenha ocorrido manipulação do laudo que atestou a estabilidade da barragem de Brumadinho.

Em e-mail de Makoto Namba a Arsênio Negro Júnior (Tüv Süd), de 13 de maio de 2018, ele escreve que: “O Marlísio (outro funcionário) está terminando os estudos de liquefação da Barragem I do Córrego do Feijão, mas tudo indica que não passará, ou seja, fator de segurança para a seção de maior altura será inferir ao mínimo”. Dessa maneira, “a rigor não podemos assinar a Declaração de Condição da Estabilidade da Barragem, que tem como consequência a paralisação imediata de todas as atividades da mina”. Na sequência, cita-se Felipe, funcionário da Vale, que alega que as intervenções pedidas pelos técnicos poderiam demandar até três anos – e que em outros momentos a promessa de obras para outras empresas já garantiu o atestado. “Mas como sempre a Vale irá nos jogar contra a parede e perguntar: e se não passar, irão assinar, ou não?”