Trabuco, do Bradesco: “Os bancos são os gestores dos riscos da sociedade na busca do crescimento”

BR: Na linha de frente entre os banqueiros mais experientes do Brasil, o presidente do Conselho de Administração do Bradesco, Luiz Carlos Trabuco, guarda a vantagem de ser um estudioso permanente. Enquanto cumpria sua carreira no banco, desde o primeiro degrau, a partir do posto de escriturário, ele nunca deixou em seus 50 anos como profissional de fazer cursos de formação, diplomando-se em Filosofia e, também, na famosa Escola de Sociologia e Política de São Paulo. Ao combinar prática e reflexão, Trabuco talvez seja o líder do setor financeiro com a visão mais abrangente sobre dificuldades, potencialidades e soluções para o desenvolvimento da economia brasileira.

No sensível tema dos juros, num país que já viveu nas últimas décadas choques de taxas tanto para cima quanto para baixo, Trabuco apresenta nesta segunda-feira 23, em entrevista à colunista Sônia Racy, do Estadão, um diagnóstico que parte da ponta da cobrança para a raiz do problema. Ele lembra que o altíssimo endividamento do Estado torna o setor público o maior tomador de dinheiro da sociedade, com reflexo direto nas taxas cobradas de todos. “Quando o Estado está equilibrado fiscalmente, existe um maior volume de recursos à disposição da sociedade, o que faz com que os juros caiam”, explica. “Há muitas décadas, porém, temos um Estado desequilibrado, que nas despesas correntes gasta mais do que arrecada, não sobrando nada para investimento”.

Quanto aos bancos, sustenta que eles cumprem um papel social estratégico. “Os bancos contribuem com uma alíquota importante do seu lucro econômico com impostos e contribuições sociais, algo na faixa de 45%”, contabiliza. “Os bancos são gestores dos riscos que a sociedade, voltada para o crescimento, acaba tendo.”

O presidente do Conselho do Bradesco reconhece que o atual governo está liderando um novo ciclo econômico no País, com a liberação de uma série de amarras à produção. “Pela política econômica, monetária e fiscal, estamos vendo que há mudança”, diz. Assinala, porém, que transições em grande escala nunca são fáceis, especialmente em um momento histórico em que até mesmo a globalização está em xeque.

“Há uma crise da globalização, não no sentido de o mundo ficar mais globalizado, mas pelos resultados sociais que ela não entregou em nível satisfatório”, aponta. “Com isso emergiu o nacionalismo e com ele o protecionismo. Mas temos que estar atentos porque um mundo protecionista e nacionalista pode resultar em um mundo de menores oportunidades.”

Sistema de pesos e contra-pesos fortalece democracia brasileira

O desempenho da democracia brasileira está na base das boas chances, na visão de Trabuco, que o Brasil tem para crescer economicamente em 2020. “Nossa democracia é jovem, mas está consolidada”, define. “Também está revitalizada por embates mais acesos, com novos questionamentos da sociedade e respostas das instituições. Isso tem dado vida à democracia brasileira, gera um movimento que é muito saudável ao ressaltar o valor do próprio sistema de pesos e contra-pesos como receptor e amortecedor de disputas”. Essa revitalização da democracia brasileira chama a atenção do mundo. “O fortalecimento da democracia brasileira tem reconhecimento internacional e é um dos elementos da queda acentuada do risco-país, que regrediu para menos de 100 pontos, vislumbrando a recuperação do grau de investimento”, aponta Trabuco.

Atento ao caráter disruptivo do atual momento da economia, ele posiciona o Bradesco como uma plataforma sólida de aglutinação de valores antigos, como ética e controle, e atuais, como inovação e tecnologia. “Queremos ser um banco tradicionalmente digital, que oferece a sua marca, credibilidade e conceito, e mais a modernização, para facilitar a vida do cliente.”

Em tópicos, confira a seguir a entrevista de Luiz Carlos Trabuco:

Estado deficitário é responsável por juros altos

“Um Estado deficitário acaba demandando grande parte dos recursos da sociedade. É por isso que os juros sobem e ficam às vezes muito elevados. Quando o Estado está equilibrado fiscalmente, existe um maior volume de recursos à disposição da sociedade, o que faz com que os juros caiam. Há muitas décadas temos um Estado desequilibrado, um Estado que não é um Estado. O que isso significa? Um Estado que nas despesas correntes gasta mais do que arrecada, não sobrando nada para investimento. Temos de inverter esse ciclo. E pela política econômica, monetária e fiscal, estamos vendo que há mudança.

Bancos como gestores de risco da sociedade

“O grande desafio do empresário brasileiro foi ser um sobrevivente de ciclos extremamente desafiadores, já que a inflação dilapidava sempre o ativo, não só das pessoas, como das empresas, e no final do dia a empresa tinha um compromisso de sobreviver. E os bancos também. Os bancos já contribuem com uma alíquota importante do seu lucro econômico com impostos e contribuições sociais, algo na faixa de 45%. Os bancos são gestores dos riscos que a sociedade acaba tendo, voltada para o crescimento. O papel social do banco é fundamental. Eu costumo dizer que a melhor forma de perceber a importância dos bancos é imaginar se eles não existissem. Onde depositar a moeda? Voltaríamos à época do escambo? Tem razão. Se não houvesse mecanismo da intermediação financeira, o sistema seria muito binário. Agora, neste cenário, na disputa da poupança, ou melhor, da alocação da poupança na sociedade, você sempre tem o Estado.

Juros baixos estimulam atividade produtiva

“Após a crise de 2008, para que os governos pudessem tirar seus países da crise, houve afrouxamento monetário. Isso gerou impacto na poupança financeira mundial e hoje ela tem juros negativos. Isso abre grande oportunidade para o Brasil. O dinheiro precisa se reproduzir, o que só acontece investindo. Se a taxa de juros financeira é baixa, os agentes econômicos vão procurar atividades produtivas para compensar queda de rentabilidade. Aqui, chegamos à menor taxa de juro da história.”

Dificuldades para competição do Brasil no mundo

“O Brasil consegue produzir, mas muitas vezes ele não é tão competitivo pelas dificuldades de logística, da carga tributária ou do chamado custo Brasil. No mesmo período em que houve uma dificuldade do crescimento do PIB industrial, isso foi suprido pelo crescimento do agronegócio. Vamos produzir este ano mais de 200 milhões de toneladas de soja, nos tornando o maior produtor do mundo. Os EUA produzem muito também mas têm problemas da água, impedindo expansão de fronteiras. O Brasil tem água. Lá há também o problema da sucessão. As propriedades médias ou pequenas, tocadas pelos proprietários, sofrem com o envelhecimento pois os filhos migram para cidade.

Banco Central mostra comando

“Não podemos subestimar a força da política monetária adotada pelo Banco Central na reativação do crescimento do País, e principalmente na redução do ônus da dívida interna.”

Globalização não entregou resultados sociais satisfatórios

“Estamos vivendo uma fase da história da civilização muito parecida com movimentos cardíacos, de sístole e diástole. Há na economia, às vezes, movimentos contracionistas e, às vezes, movimentos liberais. Como os ciclos não foram revogados, nem na economia, nem na política e nem no corpo humano, esses ciclos vão se sucedendo pela própria biologia humana. Há uma crise da globalização, não no sentido de o mundo ficar mais globalizado, mas pelos resultados sociais que ele não entregou em nível satisfatório. Com isso emergiu o nacionalismo e com ele o protecionismo. Mas temos que estar atentos porque um mundo protecionista e nacionalista pode resultar em um mundo de menores oportunidades.”

Livre comércio torna o mundo menos desigual

“A postura protecionista equivale a imaginar um país trancado num quarto escuro. Quando de repente aparece um leão, um tigre, você está fadado ao fracasso. A vantagem de um mundo de respeito maior, de maior densidade do livre comércio, do liberalismo econômico é que ele se transforma em mundo de oportunidades para redução da pobreza e do desenvolvimento. Acho que o livre comércio é fundamental para tornar o mundo menos desigual.”

China é exemplo de inserção internacional

“Se nós analisarmos a China, ela reduziu a pobreza e aumentou o seu nível de desenvolvimento, por meio da sua inserção internacional. O aumento da densidade de produção e os acordos comerciais abriram espaço para reduzir os índices de subdesenvolvimento do mundo. Países são diferentes e muitas vezes complementares nos seus ciclos de distribuição. Hoje temos uma guerra comercial entre China e Estados Unidos. Acredito que vão chegar a um bom termo até por necessidade dos produtores do agronegócio americano, que precisam aumentar as suas cotas de vendas da soja e do milho para o maior consumidor do mundo, que é a China. Então serão os interesses empresariais que vão definir o fim desta guerra comercial, uma guerra de preservação dos mercados.

Bradesco é tradicionalmente digital

“Queremos ser um banco tradicionalmente digital, que oferece a sua marca, credibilidade e conceito. Afinal, temos o mesmo nome, a mesma cor e mesma filosofia de trabalho há sete décadas, somado a modernização para facilitar a vida do cliente. A digitalização vai criar outro tipo de emprego, né? Um banco do futuro terá de conciliar duas plataformas. Ser high tech, sem deixar de ser um banco de contato, o chamado high touch.”

Universidade corporativa forma gerentes

“Temos uma universidade corporativa com várias escolas, e uma delas trata da formação de gerentes. Pelo fato de nós privilegiarmos a carreira aqui dentro, existe a possibilidade de formar esses gerentes. Eles precisam ter postura e comportamento alinhados aos princípios éticos, aos princípios do compliance. O gerente tem que ser acima de tudo um agente do compliance, que ele respeite, e traduza o que a clientela quer. A fidelização do cliente no mundo contemporâneo se faz pela especialização. Tratar clientes que têm objetivos diferentes. A pedra de toque é segmentar clientes, segmentar produtos. Somos mais que um banco, somos o maior grupo segurador da América Latina, empresa de cartão de crédito, empresa de leasing, de consórcio. Pacote completo.

Agir local e pensar global

“O Bradesco tem de atuar e agir nacionalmente, mas temos de pensar internacionalmente visto a globalização financeira. Então, acho que ‘agir local e pensar global’ é o grande desafio, não só do banco, mas das empresas brasileiras. Conciliar essa dualidade, de agir aqui mas pensar no mundo.

Lições de Lázaro de Mello Brandão

“Ele foi um ícone do sistema financeiro, porque ao trabalhar ao lado de Amador Aguiar – que foi um lendário – ele foi um gênio ao ver a possibilidade de ter um banco para pequenos e médios depositantes dos anos 1940. Seu Brandão acompanhou todas as etapas mais de 7 décadas na construção do banco e do País. Viveu os grandes dramas da economia, quando o sistema bancário se reconfigurou, se adensou. Diferentemente de outros países, onde a hiperinflação praticamente selou de morte das instituições financeiras, no Brasil bancos como o Bradesco e outros foram capazes de se adaptar.”

Santo Agostinho inspirou Cidade de Deus

“Quando foi inaugurado em 1953, o Amador Aguiar achou que era importante ter um centro administrativo. Comprou uma propriedade rural e começou a construir uma cidade. Ele acabou batizando-a de Cidade de Deus, se inspirando em Santo Agostinho com seu famoso livro Cidade de Deus.”