Só a bobagem salva

Por Ricardo Ebling – 

 Com Luiz Lanzetta — O escritor e jornalista Carlos Moraes, falecido há mais de um ano, foi um dos inspiradores da iniciativa em criar um espaço para a sátira política. 

O nome seria LavôTaNovo, trazendo o filósofo da Sanga Funda (RS), o Z. Nietchê, com qualificado elenco colaboradores e temáticas debochadas.

Mas, depois um ano e meio de pandemia, o Ricardo Ebling enlouqueceu de vez e invadiu a minha cabeça, pegando o blog para ele.   

Voltamos ao Moraes. Em seu livro, Como ser Feliz sem dar Certo (e outras histórias da salvação pela bobagem), Ed. Record, Moraes construiu uma teoria, quase teologia, onde define com precisão o que é bobagem.

“Não confunda com o humor, o nonsense e a ironia. O humor pode ser amargo, a bobagem jamais. O nonsense pode ser intencional, e a ironia amarga.

A bobagem é doce, inesperada e burra. Ouvi-a, irmãos, ouvi-a sempre, porque neste mundo muito rezaremos, muito batalhamos, muito nos sacrificamos, mas só com a mão boba da alma alcançaremos a salvação.”

O caminho será longo, pois, segundo Carlos Moraes, “a humanidade ainda não está madura para a salvação pela bobagem”.

Em meio a cerrada polvadeira, o beato Moraes pergunta em seu livro de contra-ajuda, o que é um fanático senão um idealista sem bobagem?

A seriedade não apenas matou Cristo, como raramente é séria.

“O próprio riso de Deus é uma bobagem.”

Bem recentemente, Moraes ironizava um texto meu, em recado ao Lourenço Cazarré:  “(…) em todo o causo, bueno barbaridade. O texto é meio convulsivo, vai aos trancos e relâmpagos, mas parece que corvejava em torno de mais um livro sobre Pelotas, Mais perfeito que o Paraíso. Vocês tão com a corda toda, numa florescência danada. O que é bom demás num Brasil do jeito que tá. Abraços Frei Carlinhos das Lavras”

Eu andava tentando atraí-lo para a nova insanidade. Com indiretas. Cheguei tarde. Faz muita falta o grande Carlos Moraes.

Dois tipos alemães também tiveram influência no tresloucado empreendimento: Klaus Kraus e Friederich Nietszche, referências na construção de aforismos, que o filósofo da Sanga Funda subdividiu em desaforismos e botaforismos.

“O aforismo jamais coincide com a verdade, ou é uma meia verdade ou uma verdade e meia”, dizia Kraus.

Por isso, para Nietzsche, uma verdadeira, “arte da interpretação se faz necessária”.

“E a reciclagem da humanidade é a ferramenta fundamental”, completa o NieTchê gaúcho.

Outro Moraes é referência e inspiração também. O Chiquinho Moraes, parceiro de boêmias juvenis que, em sua única incursão jornalística, criou uma coluna de aforismos chamada Textículos, no Diário da Manhã, de Pelotas.

A cidade, afinal, não é isto?

Chiquinho só sai à noite, disfarçado de Chiquinho.

Eu estava planejando assim: No LavôTáNovo, uma empresa de reciclagens de fracassos e sucessos políticos e eleitorais, ressurgirão os Texticulos, by Chiquinho, e O Fresquim (também conhecido como O Pasquim pelotense).

Mimeografado, O Fresquim circulava, no começo dos anos 1970, entre estudantes da Universidade Católica de Pelotas. Satirizava a ditadura militar, o bispo/reitor e a imprensa.

Será reciclado agora para combater bobagens gerais, principalmente as do povo gaúcho, aquele que, inutilmente, se leva a sério.

Aos 71 aninhos, não me restava outra saída, a não ser ao estilo Kraus:

“Ao recobrar a consciência depois de 10 anos, criei um jornal polêmico”.

O lançamento/inauguração do LavôTáNovo,  estava previsto para o início de 2020.

Saiu agora, em 2021, afanado pelo Ricardo Ebling e o Czar Orlando. Esse, um misterioso personagem, sobrinho-neto bastardo de Anita Garibaldi, criado às margens do rio Tubarão. Hoje vive recluso nos campos de Lages, na companhia de meia dúzia de vacas leiteiras. O Czar não lê, não escreve, não fala e ouve muito pouco, mas navega nas madrugadas da internet, surfando na insânia, surrupiando e “adaptando” o material que ilustra os posts.