Rodrigo Maia assume o papel de primeiro-ministro; parlamentarismo na prática para aprovar reforma

BR: Foi um encontro fora da agenda, discreto o suficiente para que a mídia brasiliense só o descobrisse depois de realizado – e quando o convidado principal já havia saído, sem deixar vestígio. Essas circunstâncias, no entanto, ressaltam, em lugar de subtrair, a importância da conversa travada no final da manhã deste sábado 9 entre o presidente Jair Bolsonaro e o presidente da Câmara, Rodrigo Maia. Marque-se essa data. É o dia em que, na prática, Maia virou primeiro-ministro do governo Bolsonaro.

O sistema parlamentarista não está na Constituição da República Federativa do Brasil, mas até a sopa de letras e números dos endereços da capital indicam que o chamado presidencialismo de coalizão é um sistema no qual é o Legislativo, e não o Executivo, quem toma as grandes decisões.

Na conversa com Maia, Bolsonaro pediu a ele que opere a composição da Comissão de Constituição e Justiça, primeira etapa de tramitação da reforma da Previdência. Até o ministro-chefe da Casa Civil, Onyx Lorenzoni, admitiu que será quem dará as cartas nas escolha de deputados alinhados à proposta da equipe econômica.

No decorrer dos trabalhos legislativos, quando mais duas etapas terão de ser superadas até a chegada ao plenário, outra vez a mão determinante será a de Maia – e não a de Bolsonaro e muito menos a de Onyx. O presidente da Câmara enfeixou, assim, o poder absoluto sobre a reforma. A nova situação, que pode indicar um esvaziamento dos poderes de Bolsonaro – ele que se recusou a tratar Maia com a deferência merecida desde logo depois de sua eleição consagradora -, na verdade tem tudo para ser a a salvação de seu governo.

Como se viu nesses primeiros dois meses de gestão, o que mais Bolsonaro fez, desculpe-se a rima, foi confusão. Com Maia no controle da velocidade e do conteúdo da reforma, ele que conhece todos os caminhos do regimento e certamente é o político verdadeiramente de princípios econômicos mais liberais entre todos os demais parlamentares, a boa notícia é que a nova Previdência está em boas mãos. Bolsonaro, que virou refém da habilidade do deputado carioca nascido no Chile, só tem de ser grato – e de bom grado assistir ao  ‘primeiro ministro’ operar o principal ponto de seu programa de governo.