PT e Marta nunca estiveram tão próximos; Lula quer, ex-prefeita estuda; portas abertas no PCdoB e no Solidariedade; ela pode costurar uma união imprevisível na eleição em SP?

BR: No entorno da ex-prefeita Marta Suplicy, as justificativas de fácil assimilação popular surgem, divertidas, uma após outra. Ela pode ser a filha pródiga que a volta à casa, o retrato colocado de novo na parede ou a peça que faltava para completar o quebra-cabeças. As linhas de defesa para sustentar o possível retorno de Marta ao PT estão sendo montadas, basicamente, por dois motivos. Dentro do partido, um movimento consistente liderado por sindicalistas da CUT e abençoado por Lula atua para quebrar resistências e convencer os companheiros de que, sem poder contar com Fernando Haddad, ela representaria a única chance competitiva frente ao crescimento do atual prefeito Bruno Covas na crise do coronavírus.

A segunda circunstância é de ordem legal. Hoje sem ficha assinada em partido político, a ex-prefeita tem até o dia 4 de abril para escolher um destino partidário. Será a diferença entre ser participante ou observadora da eleição – e Marta não quer ficar no camarote, mas jogar. Para tanto, tem na manga mais duas opões que considera com seriedade. O PCdoB esteve com ela, duas semanas atrás, na pessoa da presidente nacional Luciana Santos. A química entre ambas foi perfeita. Há conversas mais avançadas, porém, com o Solidariedade, presidido pelo deputado Paulinho da Força. Marta ouviu de Luciana e do parlamentar, em conversas distintas, uma coincidência que a agradou. As duas legendas vivem processos internos de renovação. Os comunistas, para não carregarem o peso da marca, ensaiam até mesmo mudar de nome, em processo liderado internamente pelo Movimento 65. O Solidariedade vai empreender um esforço para posicionar-se mais no campo da centro-esquerda. Os dois partidos têm o desafio de superar cláusulas de barreira e, na caça aos votos, a ex-prefeita entraria com um cacife inédito, pelo potencial eleitoral, para as duas partes.

A opção pelo Solidariedade agrada Marta. Ela vê a legenda com a agilidade necessária para tomar decisões rápidas, afeitas ao seu estilo de mulher executiva. Também gosta da ideia de a legenda ter a liderança de Paulinho, sem depender de muitos grupos e comitês para o estabelecimento de linhas políticas. A ex-prefeita vê no partido uma plataforma capaz de possibilitar a ela uma candidatura em 2022, para o governo do Estado ou, até mesmo, à Presidência da República, caso o voo imediato para tentar a Prefeitura de São Paulo não decole. Mal se sabe, afinal, se as eleições deste ano não terão de ser adiadas por conta da epidemia do coronavírus.

Nenhum dos dois partidos, no entanto, tem o carisma de Lula, que nos últimos seis meses tem distribuído publicamente elogios a Marta. Com o apoio explícito dele, ela acompanha em detalhes a atuação interna dos sindicalistas Sergio Nobre, presidente da CUT, e Vagner Freitas, atual vice e membro do grupo de trabalho eleitoral do PT, também a seu favor. Marta detém um mapeamento atualizado sobre reações contra e a favor de sua volta. Está informada que, agora que os petistas  finalmente reconheceram que Haddad não quer se arriscar na disputa, Lula passaria a trabalhar duro para convencer ou anular os recalcitrantes à sua reentrada. A presidente nacional Gleisi Hoffmann tem sido mais que sua aliada; uma interlocutora frequente.

As prévias do PT, atrapalhadas pela pandemia, não revelaram nenhum nome competitivo. Ao contrário, abateram dois. O ex-secretário Jilmar Tato foi alvejado indiretamente pelos tiros que mataram dois assessores do vereador Sineval Moura, de seu grupo político. O deputado Carlos Zaratini, por seu lado, conseguiu ficar mal com praticamente todas as alas do partido ao fazer discursos, em sua campanha, recheados de ataques às gestões do próprio partido, que governou a cidade com Luiza Erundina, Marta e Haddad. O parlamentar chegou a dizer que o público não guarda na memória realizações de ninguém dessas turmas. Em paralelo, pesquisas de opinião apontaram que qualquer um dos participantes das prévias largaria abaixo da faixa dos 3% de intenções. O PT, Lula sabe, precisa de Marta para voltar a ser competitivo.

A ex-prefeita é pragmática. Ela gosta da ideia de concorrer em parceria com o ex-ministro da Saúde Alexandre Padilha. Também candidato nas prévias do PT, ele não quebrou louças e recolheu sua campanha assim que a epidemia do coronavírus começou. Para Marta, ele seria o componente de bom gestor de saúde, neste momento agudo, a completar o perfil acentuadamente social da candidatura. Há, porém, da parte dela, velhas mágoas em relação a não poucos petistas, mas a recíproca também verdadeira. A saída seria zerar a conta e olhar para a frente. A reentrada de Marta no PT, neste sentido, depende mais do clima que se formar na cúpula da legenda para recebê-la do que, propriamente, da vontade pessoal da ex-prefeita. Ela confia que as bases do partido a acolherão calorosamente. Haddad, com quem também tem conversado, ajudaria a mostrar unidade em torno dela.

Marta perde o bom humor quando se refere ao que chama de abandono dos bairros paulistanos pela gestão tucana de Bruno Covas. E seu tom fica ainda mais grave quando se refere ao presidente Jair Bolsonaro, a quem quer ver como o grande derrotado este ano – a serem confirmadas as eleições de outubro -, de modo a chegar claudicante a 2022. Neste momento, ela prefere não falar sobre seu destino. Mas para fazer parte do jogo em que os tucanos e os bolsonaristas seriam os principais adversários, sonha em unir PT, PCdoB e Solidariedade numa mesma frente. Trazendo do passado apenas as boas memórias. Olhando para a frente sonhando com uma vitória que redimiria a todos.