Brasília - O juiz da 13ª Vara Federal do TRF da 4ª Região, Sérgio Moro, participa de audiência pública na Comissão Especial do Novo Código de Processo Penal (PL 8.045/10), na Câmara dos Deputados (Marcelo Camargo/Agência Brasil)

Previdência: vazamento de interferência de Moro sobre Lava-Jato tumultua tramitação

Surpreendidos por mais uma crise atingindo Brasília, parlamentares admitem que o caso da suposta colaboração entre o então juiz Sergio Moro – hoje ministro da Justiça – e os procuradores da operação Lava Jato pode tumultuar o Congresso em meio à tramitação da reforma da Previdência, mas garantem que o projeto é importante e será blindado.

O presidente da comissão especial que analisa a reforma, Marcelo Ramos (PL-AM), disse à Reuters nesta segunda-feira que certamente o caso envolvendo Moro “gera tumulto”, mas defendeu, mesmo assim, que é preciso manter o calendário.

“Na terça-feira estarei com a bancada da oposição e sentirei até onde contaminará (o calendário da Previdência)”, disse ele, que está em viagem ao Maranhão.

Mais cedo, em postagem no Twitter, Ramos havia ressaltado a necessidade de não se misturar as duas questões.

“Os fatos envolvendo o ministro Moro, se confirmados, atentam contra o Estado Democrático de Direito, mas temos a responsabilidade de não deixar que contamine o andamento da reforma da Previdência, que seguirá o calendário definido pela comissão”, escreveu no Twitter.

O site Intercept Brasil publicou no domingo uma série de reportagens com base no que diz serem arquivos recebidos de uma fonte anônima mostrando suposta colaboração entre Moro, juiz responsável pela Lava Jato em Curitiba à época das mensagens, e o coordenador da força-tarefa da operação Lava Jato no Ministério Público Federal, Deltan Dallagnol.

Os procuradores disseram que tiveram seus celulares invadidos e admitiram que não conhecem a extensão do ataque cibernético, mas negaram quaisquer irregularidades.

Uma liderança partidária ouvida pela Reuters classificou as informações publicadas pelo Intercept como “preocupantes e gravíssimas”, mas também afirmou não acreditar que isso influencie a tramitação da reforma, mesmo que a oposição consiga, como ameaça, aprovar uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI).

“Não acho que vá atrasar. A reforma é prioridade. A oposição já votaria contra mesmo”, disse.

No Planalto, o tom é de cautela e uma fonte de alto escalão ouvida pela Reuters avaliou que ainda é cedo para dizer qual impacto a nova crise poderá ter na tramitação das reformas.

“Ainda não sei avaliar. Vai depender do que vier por aí”, disse. “A estratégia é o silêncio. Silenciar e avaliar”, completou a fonte.

Em Manaus, onde teve uma agenda oficial nesta segunda, Moro minimizou a alegada troca de mensagens e procurou destacar que os procuradores foram alvos de um ataque cibernético. Disse ainda não ser capaz de afirmar se os diálogos são autênticos, já que teriam acontecido há anos.

“Eu não vi nada demais nas mensagens, ali foi uma invasão criminosa de celulares de procuradores, para mim é um fato bastante grave ter havido essa invasão e essa divulgação. Quanto ao conteúdo, no que diz respeito à minha pessoa, não vi nada demais”, disse o ministro a jornalistas na capital amazonense.