“Presidente fraco não aprova nova Previdência”, diz Gaudêncio Torquato ao BR:

BR: O que já não estava fácil ficou mais complexo. “Não existe Congresso no mundo que acompanhe um presidente fraco em um projeto impopular”, resume o cientista político Gaudêncio Torquato, um dos mais experientes e respeitados analistas do País. “Ainda mais no Brasil”.

Em entrevista ao Br2Pontos, Torquato ressaltou a importância da reforma da Previdência para o ajuste nas contas públicas, mas ressalvou: “Quanto mais fraco Bolsonaro estiver na opinião pública, mais difícil será sua missão de aprovar a reforma. O Congresso trabalha sob pressão. À medida em que as pesquisas mostram o povo cético, por que os deputados se comprometeriam com uma reforma dura vinda de um presidente com problemas na opinião pública? Ainda se ele desse algo em troca…”, reflete. “Esse movimento de querer, de uma hora para outra, acabar com o modelo de presidencialismo de coalizão, nos exatos termos que ele quer, está sem mostrando impossível”.

O veterano marqueteiro aconselha o presidente a mudar radicalmente de postura. “O discurso de beligerância deu certo na campanha, mas está dando errado no exercício do poder”, afirma Torquato. “A pesquisa do Ibope é uma prova do erro de rumo”. É no discurso em torno da chamada Nova Previdência que o presidente menos está acertando.

“O projeto é absolutamente necessário para o ajuste das finanças públicas, mas simplesmente não foi explicado para a população. Como pode não haver uma campanha pesada de comunicação, pela televisão e pelo rádio, especialmente, e querer que a população se convença?”, questiona. “Esse negócio de ignorar a mídia tradicional e apostar apenas em redes sociais não está funcionando”, constata o veterano analista. “Vejo três linhas de comunicação do governo. A do Carluxo, pelas redes, a do porta-voz Rêgo Barros, oficial, e a da Secom, liderada pela general Santos Cruz. Elas não apenas não se conversam como, em muitas situações, uma vai de encontro à outra. Assim só se vai para trás”.

O Congresso estará, na projeção de Torquato, ainda mais arredio à PEC da Previdência a partir do resultado negativo do Ibope na popularidade do governo. O índice ‘ótimo/bom’ caiu 15 pontos, enquanto o ‘ruim/péssimo’ subiu 13 pontos. “A falta de comunicação na sociedade corresponde ao grande desencontro da articulação no Congresso. O Rodrigo Maia tem avisado que as coisas não estão fáceis, mas ele, ao menos até agora, não está sendo ouvido”, observa.

Quem seria o melhor articulador da reforma, questionou BR:

“Paulo Guedes, sem dúvida. O projeto é dele, ele sabe onde se pode mexer sem estragar o resultado final pretendido”, responde Torquato. “Mas ele tem de ir para o Congresso todos os dias de sessões, se reunir com as bancadas partidárias, e não com as bancadas temáticas. Tem de reunir com bancada de 15 de deputados, de 30, de 50, de todos os tamanhos. Isso não está acontecendo”.

E Bolsonaro?

“O presidente tem de descer do palanque, passar a ter bom senso, modéstia, não arrotar arrogância e dialogar”, receita o bom conselheiro. “Bolsonaro manteve como presidente o discurso beligerante da campanha”, assinala. “Esse é seu maior erro”.

Para Torquato, a queda é muito precoce. “O período de encantamento inicial da população com o governante costuma durar 120 dias, mas no caso de Bolsonaro foi de menos de 90 dias. O fator principal para esse fim antecipado de lua-de-mel, marcado pela queda acentuada na taxa de aprovação do seu governo, está no fato de ele ter como única ação concreta aqui a reforma da Previdência e não ter se dado ao trabalho de explicar corretamente ao povo que reforma é essa, para que serve, porque é importante, no que ela vai mudar a vida desse mesmo povo. Isso não está dito. Não há organicidade na comunicação de governo para este fim”, sublinha.

Mas Bolsonaro considera a comunicação o seu forte?”Ele ainda está inebriado pelo resultado da campanha eleitoral”, responde Torquato. “Ele ganhou com os votos de uma terça parte do eleitorado, mas precisa governar para todos os brasileiros. Não está fazendo isso. E ainda está perdendo o que tinha por essa questão mal explicada da Previdência. O presidente está desafiado a aprender com seus erros e se corrigir enquanto é tempo. Se não aprovar a Previdência até agosto, depois só vejo desgosto”, encerra o cientista político.