Periferia de São Paulo tem três vezes mais mortes e menos vacinação contra Covid do que bairros nobres

Os bairros periféricos de São Paulo tiveram até três vezes mais mortes por Covid-19 a cada 10 mil habitantes do que os distritos do Centro expandido, segundo um mapeamento feito por pesquisadores da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo (FAU) da Universidade de São Paulo (USP) e divulgado nesta quarta-feira (26).

O estudo mostra ainda que, apesar de terem mais mortes, esses bairros têm uma menor taxa de vacinação contra o coronavírus: o número de pessoas vacinadas com as duas doses foi maior em regiões mais ricas do município, que têm uma população majoritariamente branca e com maior média etária.

O estudo considera que a concentração da vacinação em regiões mais centrais da cidade tem relação com a maior expectativa de vida nessas áreas, já que os idosos mais velhos foram os primeiros a receber a vacina contra Covid (veja a distribuição da imunização e da mortalidade nos mapas abaixo).

Periferia de SP tem mais mortes por Covid-19 e menos pessoas vacinadas contra a doença, indica estudo da USP — Foto: Guilherme Luiz Pinheiro/Arte G1

Periferia de SP tem mais mortes por Covid-19 e menos pessoas vacinadas contra a doença, indica estudo da USP — Foto: Guilherme Luiz Pinheiro/Arte G1https://tpc.googlesyndication.com/safeframe/1-0-38/html/container.html

Bairros como Jardim Paulista, Saúde e Moema têm mais de 12% da população vacinada com duas doses, segundo o estudo. No entanto, esses distritos tiveram taxas de mortalidade inferiores a 20 óbitos a cada 10 mil habitantes, ao longo da pandemia.

Já bairros periféricos como Brasilândia, Perus e Cidade Tiradentes tiveram uma taxa acima de 50 mortes a cada 10 mil moradores. Nesses distritos, a imunização com duas doses ainda atinge apenas de 5% a 7,5% da população.

Segundo o Mapa da Desigualdade, da Rede São Paulo, um morador do bairro Jardim Paulista vive cerca de 23 anos a mais do que um morador do Jardim Ângela, na Zona Sul de São Paulo, por exemplo.

“A opção de vacinar os mais velhos primeiro resultou num percentual desproporcionalmente maior de vacinados no chamado eixo sudoeste da cidade, onde se concentra uma população branca com maior média etária e mais renda”, afirma a pesquisa.

Os pesquisadores criticam o fato de que, mesmo após a vacinação dos idosos, “a maior parte das categorias de trabalhadores que atuam nos serviços essenciais ou que voltaram a funcionar a partir das medidas de flexibilização” segue sem poder receber o imunizante.

“Os resultados mostram que as prioridades definidas na vacinação até agora não atingem os residentes dos territórios com mais mortes”, afirma a professora Raquel Rolnik, uma das coordenadoras do estudo.

Os pesquisadores destacam que a maior mortalidade nas regiões periféricas é uma tendência da pandemia que já havia sido constatada por estudos anteriores, mas que não foi levada em consideração pelos gestores na hora de criar estratégias de vacinação e prevenção.

“Apesar de o governo reconhecer que a doença não atinge as diferentes partes da cidade de forma igual, essa leitura não repercutiu em uma estratégia territorializada para conter a disseminação”, completa Rolnik.