País tem 33.660 mortos por Covid-19 de 1º de julho até hoje; número maior do que o de julho de 2020, pior mês da pandemia; cedo demais para abrir circulação

O Brasil registrou, do dia 1º de julho até esta terça-feira (27), 33.660 mortes pela Covid-19, segundo dados apurados pelo consórcio de veículos de imprensa junto às secretarias de Saúde do país.

Mesmo com queda em relação aos últimos meses, o número já é maior do que o de julho de 2020 – pior mês da pandemia no ano passado –, que teve 32.912 mortes (veja gráfico abaixo).

Na média móvel, as mortes no país vinham em tendência de queda até o dia 22. Desde o dia 23, entretanto, vêm mostrando estabilidade.

  • O número de mortes visto neste mês é, até agora – considerando apenas os dados parciais –, 39% menor do que o de mortes em junho.
  • Considerando a comparação com abril, a queda nas mortes é, até agora – de novo com levantamento parcial – de 59%. Abril foi o pior mês da pandemia no Brasil.

Especialistas fazem alerta

Para a epidemiologista Lucia Pellanda, da Universidade Federal de Ciências da Saúde de Porto Alegre (UFCSPA), a queda nas mortes é um efeito positivo da vacinação – como outros especialistas já haviam apontado no início do mês – mas a reabertura e a retomada de atividades ainda estão sendo feitas antes da hora.

“Essa parece uma lição muito explícita que o vírus quer nos ensinar e a gente se recusa a aprender – a gente sempre flexibiliza antes da hora. Tanto no Brasil quanto globalmente. O grande risco é que, quando começa a melhorar, a gente começa a liberar tudo antes da hora. Todas as vezes aconteceu isso: cada descenso de pico a gente liberou antes da hora e acabou ficando num patamar alto”, alerta.

Ela lembra que, nos países ricos – onde não há falta de vacinas, como no Brasil, e a cobertura vacinal é maior – para a pesquisadora, o que há agora é uma “epidemia dos não vacinados”. Nos Estados Unidos, por exemplo, o Centro de Controle de Doenças (CDC) voltou a recomendar o uso de máscaras.

“A gente precisa de vacinação mais os cuidados – que é distanciamento, máscara, ventilação. Como isso foi muito flexibilizado, a gente está com uma transmissão muito descontrolada. Qual o risco? Surgimento de novas variantes“, alerta Pellanda. “Vacina é uma coisa maravilhosa, mas a gente precisa de vacina e comportamento, cuidados, e cuidados coletivos”.

A opinião de Pellanda é compartilhada pela também epidemiologista Ethel Maciel, da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes).

“A gente na verdade tá cometendo o mesmo erro: lembra que, nesse período do ano passado, os governos estaduais acharam que a pandemia estava controlada – que inclusive a gente já tinha imunidade de rebanho? Que o pior já tinha passado?”, recorda Maciel.

A epidemiologista explica que, em relação a 2020, o único fator novo que o Brasil tem no combate à pandemia é a vacina. Outras estratégias, entretanto – como testar e fazer a vigilância genômica do vírus, para monitorar o surgimento de novas variantes – não têm sido adotadas.

“A única coisa diferente que foi acrescentada nessa estratégia foi a vacinação. Só que a gente tem, efetivamente, menos de 20% de pessoas vacinadas com o esquema completo. E a gente já sabe que essa variante delta tem um impacto nas pessoas que tomaram uma dose só. Então, vamos colocar nossa realidade: a gente tem mais de 80% das pessoas sem vacina ou com uma vacinação muito parcial”, lembra.

Ela critica o fato de taxas de ocupação de leitos de UTI estarem sendo usados para medir a situação da pandemia – como os índices estão baixos, há a crença de que há “mais espaço para as pessoas adoecerem”.

Com a reabertura neste momento, entretanto, há o risco de surgimento de novas variantes, aponta Maciel – e de mais casos, internações e óbitos.

“Nós achamos que isso não vai acontecer – é um tipo de pensamento mágico, porque a gente acha que não vai acontecer aqui: primeiro a pandemia não ia chegar, depois a segunda onda não ia ter, e aconteceu a mesma coisa aqui. Agora, a gente está vendo o que está acontecendo com a variante delta – estamos vendo o que está acontecendo com países que têm percentual de vacinados maior do que o nosso, e a gente não acredita”, alerta.https://ba0ec3c733da90c6f6ee8e32e6d0da9f.safeframe.googlesyndication.com/safeframe/1-0-38/html/container.html

Para o pesquisador Paulo Nadanovsky, do Instituto de Medicina Social (IMS) da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), prever o cenário dos próximos meses é complexo. Segundo uma projeção dele, o Brasil teria pouco mais de 64 mil mortes no segundo semestre – se tivesse 100% da população vacinada.

O próprio professor reconhece, entretanto, que isso “dificilmente” vai ocorrer. Mas faz ressalvas: o número de mortes em idosos deve continuar a cair, por exemplo, porque a cobertura vacinal vem aumentando.

Além disso, ainda são necessários dados como a efetividade das diferentes vacinas em evitar mortes pela Covid – e também informações conforme a faixa etária.

“Entre os idosos, 100% estão vacinados. Para a gente refinar essa estimativa, tem que ver a distribuição de vacinados e de não vacinados na população em diferentes faixas etárias – e a efetividade da vacina, principalmente a CoronaVac. Agora tem a AstraZeneca, muito usada também, e as outras – o quadro ficou mais complexo para se fazer uma estimativa”, diz.

Lucia Pellanda, da UFCSPA, concorda com a avaliação do pesquisador da Uerj.

“Acho que, se a vacinação continuar nesse ritmo, a gente vai ter queda sim [de mortes]. Mas tem dois cenários possíveis: ou a gente descuida total, começa a aglomerar, começa a ter os eventos com mais gente, e aí espalha mais [o vírus] e desenvolve uma nova variante, ou a gente – no cenário mais otimista – mantém os cuidados mais a vacinação e consegue controlar a doença. Eu não sei como prever, porque depende diretamente do nosso comportamento”, aponta.

Nadanovsky acrescenta que o percentual de vacinados na população como um todo está aumentando.

“Se continuar nesse ritmo, é possível que, em pouco tempo, a gente tenha um percentual altíssimo, mesmo não idosos, vacinados”, diz.