Onde está toda aquela energia de Jair Bolsonaro quando o assunto é reforma da Previdência?

BR: Com um simples estalar de dedos, o presidente Jair Bolsonaro sabe que consegue ocupar o espaço que desejar nas maiores emissoras de televisão do país. Foi assim na campanha eleitoral. Ele falou ao vivo com o sensacionalista José Luiz Datena enquanto ainda convalescia da facada levada em Juiz de Fora, em setembro. No início do mês, após passar pela última cirurgia de recuperação, discorreu longamente à Rede Record sobre diferentes assuntos, usando o veículo para iniciar ali mesmo a derrubada do então secretário-geral da Presidência, Gustavo Bebbiano.

Bolsonaro sabe criar fatos e tem todo o espaço midiático disponível para tanto.

Por que, então, o presidente não usa os recursos ao seu dispor para defender a reforma com a mesma garra demonstrada, por exemplo, em sua cruzada pelo armamento da população, vencida por ele?

Ao levar pessoalmente o texto da PEC ao Congresso, Bolsonaro posou para fotos, sorriso estudado, mas não deu entrevistas como era de se esperar de um presidente-propaganda. Ele tem sido apenas protocolar em cada movimento de articulação do qual participa. Ontem, quando teve à sua frente os líderes das bancadas na Câmara, outra vez o presidente não fez nenhuma manifestação pública e nem mesmo ocupou suas redes sociais para dar alguma notícia a respeito de avanços a favor da tramitação.

É que Bolsonaro sabe que, apesar de ser apontado como a redenção das finanças públicas, o projeto é absolutamente impopular e tem poucas chances de, como o prometido, cortar privilégios. A bancada ruralista já deu seu veto à cobrança de tributos previdenciários sobre exportações. Os militares, que nem mesmo figuram na PEC entregue à Câmara, irão manter a paridade e integralidade na versão que está sendo fechada pela equipe econômica a fim de chegar ao Congresso até o dia 20.

A capitalização, estrela da PEC, já levou um tiro frontal do presidente da Câmara, Rodrigo Maia, para quem essa ideia deve ser apartada do projeto, de modo a ter possibilidade de ser aprovado.

Onde se ouviu a grita de Bolsonaro, como é tão fácil para ele, contra a defesa dos interesses corporativos e pela manutenção de pontos-chave da reforma? O que veio foi apenas silêncio.

A ausência do presidente na fase inicial de defesas da reforma já chama atenção dos personagens políticos mais relevantes do país. Em evento do mercado financeiro nesta quarta-feira 27, o governador de São Paulo, João Doria, mandou do púlpito um recado que muitos entenderam como dirigido a Bolsonaro.

“O que não se pode fazer em relação à Previdência é se omitir do debate”, indicou Doria.

O recado não demorou a chegar. No mesmo evento, logo a seguir, o ministro-chefe da Casa Civil, Onyx Lorenzoni, garantiu que Bolsonaro não está se omitindo e adiantou: quando o Carnaval passar, o presidente usará todas as suas forças a favor da reforma. Porque não desde já, Onyx não disse.

Não dá para não perceber que, desde o desgastante episódio da exoneração do então secretário-geral da Presidência, Gustavo Bebbiano, Bolsonaro assumiu outros ares, mais retraídos. E não era para menos. Nos bastidores em Brasília, conta-se que representantes da cúpula militar não foram nada carinhosos com ele no momento em que determinaram o fim da interferência de seus filhos na administração. A versão corrente é a de que ou presidente recolhia sua tropa familiar, ou o apoio do estamento militar a ele é que seria retirado. A descida do palanque começou ali, com entrada sem escalas para a vida real de pesos e contra-pesos no exercício do poder.

Quanto a Previdência, os sensores digitais do Palácio do Planalto detectaram uma tendência crescente de descontentamento com o projeto dentro da base popular bolsonarista. Para o presidente, comprometer-se com ele como nos velhos tempos de deputado falastrão e de candidato disposto ao vale tudo por suas ideias, poderia significar estragos de imagem bem maiores do que um simples tiro no pé. Talvez no coração.

Bolsonaro recuou da Previdência e já vai se conformando com a ideia de que a PEC que entrou na Câmara será bem outra ao sair – até mesmo com mudanças nas idades mínimas para a aposentadoria.