Notre-dame: ‘espinha dorsal’ e obras de arte são salvas; doações para reconstrução são feitas em todo o mundo

O incêndio que devastou a secular catedral em plena Semana Santa, apesar de ter destruído dois terços dos telhados, preservou a estrutura principal e as duas grandes torres de sua fachada, um alento na perspectiva de sua reconstrução. A torre em forma de flecha, uma marca da Notre-Dame, desabou, em uma imagem que percorreu o mundo.

Deflagrado por volta das 18h50m (13h50m de Brasília), o fogo se propagou rapidamente por causa da ampla e inflamável estrutura superior formada por antigas vigas de madeira, em um “incêndio difícil”, na definição das autoridades, por causa da complexidade de intervenção no histórico prédio, cuja construção iniciou em 1163 e levou 180 anos para ser concluída. Recorrer ao despejo de água por meio de helicópteros ou aviões Canadair — como foi sugerido pelo presidente americano, Donald Trump, via Twitter —não era uma opção viável segundo a segurança civil, por causa do alto risco de efeitos colaterais na estrutura da edificação.

A Justiça francesa abriu um inquérito para determinar as causas do incêndio. Uma das hipóteses é que o fogo tenha começado no canteiro de obras de restauração do telhado. Por ora, a tese de incêndio criminoso não foi considerada pelas autoridades. Apesar da gravidade do incêndio, ninguém ficou ferido.

Para facilitar o combate às chamas, os cerca de mil moradores da Île de la Cité, a ilha no Sena onde fica a catedral, foram evacuados, assim como os hóspedes de cinco hotéis.

Uma parte das obras de arte conservadas no interior da catedral pôde ser extraída. Dezesseis estátuas já haviam sido retiradas no último dia 11, para restauração.

“Creio que salvamos a coroa de espinhos, a túnica de São Luís, alguns cálices, e penso que o tesouro também não foi atingido. No interior, foram salvos também alguns quadros — declarou o reitor da catedral, monsenhor Patrick Chauvet.

À medida que a noite adentrava, uma multidão incrédula e entristecida se aglomerava no entorno do incêndio, em um silêncio somente interrompido por um canto espontâneo da oração “Ave Maria”. Franceses e turistas se mostravam ao mesmo tempo solidários e impotentes face ao esforço dos cerca de 400 bombeiros mobilizados para conter o fogo, segundo os números do Ministério do Interior. Por volta das 0h30m, quando finalmente as chamas começavam ser controladas, uma salva de palmas agradeceu aos bombeiros.

Diante da tragédia, o presidente Emmanuel Macron adiou, em cima da hora, a alocução televisiva em que deveria anunciar medidas para atender às reivindicações do movimento dos “coletes amarelos”, e prometeu todos os esforços para a reedificação do emblemático monumento:

“Notre-Dame de Paris é nossa História, nossa literatura. É o epicentro de nossa vida. É tantos livros e pinturas. É a catedral de todos os franceses, mesmo daqueles que nunca a visitaram. Nós faremos apelo aos maiores talentos e reconstruiremos Notre-Dame, pois é o que esperam os franceses, é o que nossa História merece, é nosso profundo destino”, disse Macron, ao lado do premier Édouard Philippe e da prefeita de Paris, Anne Hidalgo.

A Fundação do Patrimônio francesa lançou uma coleta internacional de fundos para financiar a futura reconstrução da catedral, monumento histórico mais visitado da Europa, com mais de 13 milhões de visitantes anuais. Ao longo da noite, dezenas de internautas providenciaram, via plataformas online, iniciativas semelhantes de arrecadação de recursos. A família Pinault, do grupo de luxo Kering, anunciou uma doação de € 100 milhões. Na opinião de Eric Fischer, diretor da Fundação da Obra Notre- ame, devido aos estragos “consideráveis”, serão necessárias “décadas” para a reconstrução.