Ninho da serpente: Bolsonaro pode se arrepender em 2022 por dar sustentação a Moro agora; ministro vira intocável, empolga campo conservador e ganha força política

BR: O presidente Jair Bolsonaro pensou duas vezes antes de sustentar a posição do ministro Sergio Moro diante dos vazamentos de diálogos comprometedores à sua atuação como juiz imparcial da operação Lava-Jato. A decisão tomada de prestigiar o ex-juiz, porém, pode custar caro ao próprio Bolsonaro na busca pelo seu declarado maior sonho, a reeleição em 2022.

Ao contrário do que se projetava inicialmente, Moro está conseguindo juntar mais força política para si próprio, ao enfrentar a situação com a tripla estratégia de negar a veracidade dos diálogos, barrar uma checagem séria e, especialmente, aproveitar o episódio para propagandear as vitórias da Lava-Jato.

As manifestações a seu favor no último domingo mostraram que o prestígio do ex-juiz com a militância conservadora que tem se acostumado a sair às ruas continua intacta ou, até mesmo, crescente.

E o enfrentamento de nove horas a que ele se submeteu ontem, em audiência conjunta a três comissões da Câmara, encarando de frente o que a oposição parlamentar possui de melhor, reforçou em Moro a característica de homem frio, sem medo e, sem qualquer sombra de dúvida, antipetista. Um conjunto de qualidades admirado pelo campo conservador

À medida em que Bolsonaro já disse mais de uma vez que quer porque quer a reeleição em 2022, é mesmo positivo para ele que Moro ultrapasse com tanta superioridade uma equação tão complexa como essa dos vazamentos?

Ao avalizar a posição de seu ministro, o presidente acabou contribuindo para torná-lo ainda mais especial e intocável. O ministro virou, na prática, indemissível. Ou Bolsonaro tem mesmo condições de tratá-lo como qualquer outro de sua equipe, sem temer uma reação das ruas a qualquer atitude belicosa de sua parte contra Moro?

A resposta, claramente, é não.

Situado na Esplanada dos Ministérios ao lado direito do Palácio do Planalto, o Ministério da Justiça pode ser visto a partir de agora também como o ninho da serpente que pode picar de morte, em 2022, o autodeclarado presidente candidato à reeleição.