Miriam Leitão: “Presença do vice dos EUA na Colômbia aumenta tensão”, diz Rubens Ricúpero

BR: A colunista Miriam Leitão, do jornal O Globo, ouviu um dos mais experientes embaixadores do Itamaraty, o ex-ministro Rubens Ricúpero, sobre a crise da Venezula.

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A difícil crise da Venezuela

A visão do Brasil é que a tensão está na divisa entre Colômbia e Venezuela. E a decisão tomada é de, em hipótese alguma, o Brasil cruzar a fronteira, segundo disse um integrante do governo. O anúncio da Venezuela de fechar a fronteira com o Brasil coloca o país numa situação rara na história das relações com os vizinhos. De um lado, o presidente Nicolás Maduro, cercado de militares, anunciou o fechamento da fronteira, de outro, o porta-voz da Presidência brasileira, Otávio Rêgo Barros, confirmou que os alimentos e remédios serão enviados o mais próximo da Venezuela, à espera de que caminhoneiros venham buscar. Mesmo que eles consigam atravessar, certamente enfrentarão violência do lado de lá. O nosso ponto fraco, como se sabe, é a dependência de Roraima da energia da hidrelétrica de Guri.

Das várias coisas estranhas desta crise, uma é o reconhecimento de Juan Guaidó como presidente da Venezuela, que de fato ele não é.

— O ato de reconhecimento pressupõe controle do território, controle do poder real. Esse é o primeiro requisito do reconhecimento. E Guaidó não tem isso. O que se esperava nessa ação de vários países era criar uma situação que favorecesse a queda de Maduro, mas isso foi há quase um mês, ele permanece controlando o país, e tudo o que se espera é uma cisão nas Forças Armadas — diz o embaixador Rubens Ricupero.

Em 2018, houve um impedimento por decisão judicial de entrada de venezuelanos, mas o bloqueio logo foi suspenso. Fechamento com tropas da divisa do Brasil não ocorre há muito tempo.

— Fui chefe da divisão de fronteiras, e nos últimos 50 anos não me lembro de um fechamento como esse. O temor de Maduro é de que haja uma invasão militar do país, não pelo lado brasileiro, mas pelo lado da Colômbia, que tem uma fronteira muito mais povoada e muito mais porosa. A presença do vice-presidente americano na Colômbia neste fim de semana aumenta essa tensão — afirmou Ricupero.

Maduro convocou as milícias bolivarianas e os coletivos, grupos armados, sem disciplina militar, e instalados em áreas de alta criminalidade, a ficarem de prontidão. A suspeita é de que eles estejam se preparando para atacar e saquear os caminhões caso eles entrem em solo venezuelano. Já que Guaidó tem voluntários, mas não o poder da força.

A Venezuela sangra há tanto tempo que desafia qualquer previsão sobre a evolução dos acontecimentos. O governo provocou o encolhimento do PIB em 50% em cinco anos — a última vez que o país cresceu foi em 2013 — e a explosão de uma hiperinflação de um milhão e 700 mil por cento. Em qualquer país, esse governo já teria caído. É intolerável o sofrimento continuado que o chavismo tem imposto aos venezuelanos, como resultado dos seus erros na economia e seu sistemático ataque às instituições democráticas.

A dificuldade é saber qual é a melhor forma de influenciar positivamente a evolução política do país. No meio desse esforço internacional, no qual o Brasil se envolveu, há uma disputa entre Estados Unidos e Rússia, com a China acompanhando a uma certa distância. A Venezuela por sua vez tem Forças Armadas muito bem equipadas.

As relações comerciais entre Brasil e Venezuela já encolheram muito desde o fim do governo petista, que estimulava o comércio e as relações econômicas, concedendo empréstimos através do BNDES. Apesar disso o Brasil ainda depende da energia de Guri para manter o suprimento em Roraima. Em 2017, a Eletronorte gastou R$ 134 milhões comprando energia para atender dois terços da demanda do estado.

A Venezuela não é um governo de esquerda, como supõe uma parte da esquerda brasileira. É uma ditadura, que persegue qualquer líder que surja na oposição, que promoveu um ataque sistemático à imprensa independente, que saqueou os recursos do país para se manter no poder e comprar o apoio dos militares. Com a crise econômica, o governo chavista empobreceu os pobres que havia prometido empoderar no começo desses 20 anos em que está no poder. No governo de direita no Brasil há outro perigo. Se deixado apenas com o Itamaraty de Ernesto Araújo, de ideologia delirante, podem ser tomadas decisões que ponham o Brasil em risco. Faz bem o governo de mandar o vice-presidente, Hamilton Mourão, junto com o chanceler para Bogotá. Todo o cuidado é pouco neste momento de tensão extrema.

Na edição deste sábado 23 do jornal O Globo, a colunista Miriam Leitão publica as opiniões do presidente do Banco Central, Ilan Goldfajn, sobre o projeto de reforma da Previdência do governo.

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Reforma trata as injustiças

O presidente do Banco Central, Ilan Goldfajn, define a reforma da Previdência como “abrangente” e tem ainda o mérito de “tratar as injustiças”. Segundo ele, quanto mais eficiente for a reforma, melhor para o Banco Central, porque mais fácil fica coordenar as expectativas e manter os juros baixos. Ele está encerrando o tempo de dois anos e nove meses à frente do BC, período em que a inflação e os juros caíram, apesar das dificuldades políticas e econômicas do país.

Ele me recebeu para a entrevista na sala do Copom, que tem na parede um enorme Portinari, de 1954/1955, “Independência do Brasil”. O acervo do BC é impressionante e foi formado na época em que a instituição ficava com quadros e bens de bancos que faliam. Muitos deles estão em exposição no próprio BC, mas agora está sendo feito também acordo de comodato com o Masp para que em torno de 20 a 25 dessas obras sejam expostas no museu.

Quando Ilan assumiu o BC, nem se sabia quanto ia durar o governo Temer, porque foi exatamente no período em que a ex-presidente Dilma tinha sido afastada, mas estava correndo o processo de impeachment. A inflação tinha batido em 11% e estava entre 9% e 10%. Os juros, em 14,25%, com o país no seu segundo ano de recessão severa. Ele conseguiu reduzir a inflação fortemente. Houve um tempo que estava abaixo do piso da meta. E os juros caíram para o nível mais baixo da história. Assim, foi possível passar por uma eleição extremamente polarizada, sem qualquer problema na política monetária. Ele divide os créditos da queda dos juros e da inflação com a área econômica do governo Temer.

— Acho que teve uma combinação de política econômica, enquanto se perseguia a reforma da Previdência que agora está de novo no Congresso. Foi aprovada a PEC do teto dos gastos, a reforma trabalhista, mudou-se a taxa do BNDES. No BC, foi importante não abandonar o objetivo. Quando eu assumi, a pressão era para que a meta fosse elevada. Nós reforçamos a comunicação do que iríamos fazer, do compromisso com a meta, aumentamos a transparência, não cedemos e isso elevou a credibilidade. A queda forte da inflação ajudou num outro momento de tensão política, na eleição do ano passado, em que houve crise externa.

Ilan lembrou que o Brasil não precisou subir os juros, como outros emergentes:

— Quando juntou a incerteza eleitoral com a incerteza externa — houve crise na Argentina, na Turquia, nos emergentes — houve bastante pressão dos mercados para que os bancos centrais subissem os juros. Alguns subiram 30%, como na Turquia. Mas como nós estávamos com folga na inflação e a gente tinha a credibilidade adquirida, não precisamos subir quando o consenso era que os BCs subiriam. No Brasil, a curva de juros, que é o que o mercado imagina que vai acontecer, estimava uma subida de dois pontos. E acabou não sendo feito. Nestes dois eventos, o que se vê é a importância de um Banco Central independente.

No Brasil, o BC tem tido autonomia de fato. Mas ainda falta ter na lei:

— Sabe por que é importante? No meio da eleição chegavam para mim perguntas sobre o que mudaria no Banco Central. Na Turquia, na crise, o presidente atacou o BC e isso gerou uma desvalorização de 15%. Na Argentina, mudou-se o presidente do BC. A independência dá tranquilidade para se fazer outras coisas.

Ilan Goldfajn elogiou a reforma da Previdência:

—Os sinais são ótimos, a reforma é ampla, abrangente. E quando digo que é abrangente é porque trata as injustiças. A questão será a implementação. Para o Banco Central, quanto mais profunda for e mais economia trouxer, melhor em termos de inflação e juros. Agora tem o passo importante que é passar pelo Congresso.

Ilan diz que o Brasil tem um “desafio fiscal relevante” pela frente e esse é o maior ponto de preocupação da economia brasileira. Acha que o país tem agora que trabalhar a capacidade de crescer de forma sustentável, com medidas que aumentem a produtividade. Ele acha que o Banco Central tem trabalhado com esse olhar mais longo na Agenda BC+, que tem uma lista de medidas para aumentar a competição no sistema bancário para acelerar a queda dos juros. Quando a inflação está baixa, lembra, o país pode trabalhar pelo crescimento.