Derrota por 70 a 16 na Alesp aponta para PSL caminho do isolamento que pode se repetir no plano nacional

O PSL sofreu ontem na Assembleia Legislativa de São Paulo sua mais fragorosa derrota política desde quando a onda bolsonarista começou a sacudir o País. Além de a sigla ter ficado de fora da mesa, a vitória de Cauê Macris (PSDB) sobre a candidata Janaina Paschoal, por 70 votos a 16, na disputa pelo comando da Casa foi marcada por recados e simbolismos. Um experiente parlamentar alerta: o resultado serve de laboratório do que pode ocorrer no plano nacional. Se continuar radical, o PSL ficará isolado dentro dos Parlamentos pelo que convencionou chamar de “velha política”.

“Não vejo como derrota, vejo como vitória. Fizemos o que a população queria, enfrentar o teatro da democracia”, disse a deputada estadual Janaína Paschoal, do PSL. A eleição de Cauê mantém uma hegemonia de praticamente 24 anos do PSDB na Casa – a exceção foi a vitória do atual vice-governador Rodrigo Garcia (DEM) em 2005. “Não vejo como derrota, vejo como vitória. Fizemos o que a população queria, enfrentar o teatro da democracia”, disse Janaína.

Em discurso após a vitória, Cauê Macris agredeceu a esposa e os filhos, o pai, deputado federal Vanderlei Macris  (PSDB), que comandou a Alesp entre 1999 e 2001, e pregou paz na Casa. “Como presidente eleito afirmo que a disputa eleitoral termina aqui neste momento”.

A votação foi marcada por um clima de tensão desde o início. O bate-boca começou quando o líder do PSL, Gil Diniz, questionou a legalidade da candidatura de Cauê à reeleição. Ele leu artigo da Constituição Estadual que diz que “é vedada a recondução (de membro da Mesa Diretora) para o mesmo cargo na eleição imediatamente subsequente”.

Na quinta-feira, 14, Diniz entrou com mandado de segurança na Justiça para tentar barrar a candidatura do presidente da Alesp, mas o pedido foi indeferido. Aliados de Cauê Macris citaram a decisão judicial e disseram que o entendimento da Casa é de a restrição só vale para a mesma legislatura.

“Essa questão está superada”, disse a tucana Analice Fernandes, que presidiu a sessão. “Qualquer reclamação é lá no Judiciário”, ironizou  Campos Machado (PTB). Já Barros Munhoz (PSB) lembrou que ele mesmo foi reeleito presidente da Casa em 2011, no início de uma nova legislatura, quando ainda era do PSDB.

A troca de farpas prosseguiu durante o processo de votação, com deputados do PSL criticando a aliança entre PT e PSDB pelo controle da Mesa Diretora. “Não tem preço ver o PT brigando pelo PSDB”, berrou Janaína ao declarar seu voto. O petista José Américo (PT) rebateu dizendo que vota no PSDB “pela democracia e contra o fascismo que você (Janaina) representa”.

Posteriormente, Carla Zambeli, deputada federal do PSL, entrou no Plenário, mas Cauê Macris, quem presidia a mesa, mandou retirá-la. Houve novo tumulto. Cauê acabou liberando a permanência dela, e disse que não sabia que se tratava de parlamentar

Antes sem representação na Casa, o PSL, partido do presidente da República Jair Bolsonaro, elegeu 15 deputados no estado de São Paulo em 2018. Partidos da esquerda, como o PT, apoiaram a candidatura de Macris com a intenção de impedir o comando do PSL na Casa. Enio Tato, do PT, recebeu 70 votos e foi eleito 1° secretário. 

Apoio a Doria

Macris, afirmou, depois de eleito, que o governador do Estado, João Doria (PSDB), vai poder contar com o legislativo como “parceiro para boas propostas”. “Este parlamento também será vigilante, cumprindo nosso papel constitucional”. Macris disse ainda que “a disputa eleitoral termina aqui”, sinalizando querer pacificar o plenário.

Protestos

Do lado de fora da Assembleia, manifestantes de esquerda inflaram um boneco inflável gigante do presidente Jair Bolsonaro com uma faixa onde se lia “laranjal”. Manifestantes de direita posicionaram três carros de som no entorno da Assembleia para exaltar Bolsonaro, xingar o PT e defender Janaína Pascoal. 

Ao anunciar no microfone seu voto no tucano Cauê Macris, o deputado petista Emídio Souza disse: “Voto Cauê Macris contra essa imbecilidade nojenta”. Na mesma linha, Enio Tato disse que votou em Macris contra “esse ódio nojento”. ffffffffffffff