Mandato salva diretor do Inpe no cargo, que segue no alvo de Bolsonaro: “Não é justo fazer campanha contra o Brasil”

O presidente Jair Bolsonaro voltou a atacar ontem os dados sobre desmatamento da Amazônia coletados e divulgados pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), afirmando que eles prejudicam a imagem do Brasil no exterior.

Bolsonaro disse ainda que os ministros Marcos Pontes, da Ciência e Tecnologia (ao qual o Inpe é ligado), e Ricardo Salles, do Meio Ambiente, vão conversar com o diretor do instituto, Ricardo Galvão, sobre os dados e sua estratégia de divulgação. Na última sexta-feira, em reunião com correspondentes internacionais em Brasília, o presidente havia dito que Galvão “parecia até que está a serviço de alguma ONG”, e que ele seria chamado para explicar as informações.

—Ele tem mandato, eu não vou falar com ele. Quem vai falar vai ser o Marcos Pontes e talvez também o Ricardo Salles. O que nós não queremos é uma propaganda negativa do Brasil. Agente não quer fugir da verdade, mas aqueles dados pareceram muito com os do ano passado, e deu um salto, então eu fiquei preocupado com aqueles números, obviamente, e fiquei achando que eles poderiam não estar condizentes coma verdade—afirmou o presidente ontem, quando chegava para almoçar em uma galeteria em Brasília.

Em entrevista à TV Globo no sábado, Ricardo Galvão afirmou que o presidente o está acusando em público esperando que ele se demita, como fez com o ex-presidente do BNDES Joaquim Levy, que pediu demissão do cargo em junho após críticas de Bolsonaro.

— Eu não vou me demitir — disse Galvão. — A partir de 1988, nós temos a maior série histórica de dados de desmatamento de florestas tropicais, respeitada mundialmente. Ele já disse que os dados do Inpe não estavam corretos segundo a avaliação dele, como se ele tivesse qualificação para fazer análise de dados.

‘PSICOSE AMBIENTAL’

Bolsonaro também voltou a dizer ontem que está sendo feita uma campanha contra o Brasil a partir dos dados do desmatamento.

— Não é o meu nome que tá mal na foto, é o do Brasil. O Brasil não pode fazer propaganda contra ele mesmo. A questão ambiental aí fora é uma verdadeira psicose. Você tem que combater se tiver desmatamento, divulga-se, agora, não é justo você aqui dentro ter brasileiro fazendo campanha contra o Brasil —disse o presidente.

Ele defendeu que, caso os dados de desmatamento fossem alarmantes —em junho passado, a perda de vegetação da Amazônia aumentou quase 60% em relação ao mesmo mês em 2018 —, deveriam ser informados ao governo primeiro, “por questão de responsabilidade, respeito, patriotismo”.

—“Olha, ministro, os dados aqui, a gente vai divulgar, o senhor se prepare, tá tendo uma crise”, e não de forma rasa como ele faz. Simplesmente coloca o Brasil numa situação complicada —disse Bolsonaro.

O presidente afirmou ainda que a divulgação desse tipo de dado, da forma como tem sido feita, pode prejudicar a assinatura de acordos internacionais de comércio:

—Se você faz acordo aí fora, mesmo nas franjas do acordo, entra a questão ambiental. Nós estamos conversando com os Estados Unidos, Coreia do Sul, Japão, quer dizer, um dado desse aí, que pode… Até a maneira de você divulgar prejudica a gente.

O discurso do presidente ecoa o da ministra da Agricultura, Tereza Cristina, que, no início deste mês, se queixou da imagem negativa que o Brasil passou a ter no exterior por causa do meio ambiente e afirmou que o governo mudaria sua forma de comunicação.

— O Brasil vai ter que mudar sua comunicação lá fora e mostrar o que temos de fato, qual a verdade sobre o meio ambiente. Vamos tirar o ideologismo que denigre a imagem do Brasil como transgressor do meio ambiente, que ele não é.

CIENTISTAS DEFENDEM

Assim como já haviam feito há uma semana, associações científicas saíram em defesa do Inpe após os novos ataques de Bolsonaro.

A Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC) emitiu ontem uma manifestação de “apoio integral ao Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais, dirigido pelo dr. Ricardo Galvão”.

“A ciência produzida pelo Inpe está entre as melhores do mundo em suas áreas de atuação, graças a uma equipe de cientistas e técnicos de excelente qualificação, e presta inestimáveis serviços ao país”, diz o texto da SBPC, assinado por seu presidente, Ildeu de Castro Moreira.

O órgão afirmou ainda que Galvão“é um cientista reconhecido internacionalmente, que há décadas contribui para a ciência, tecnologia e inovação do Brasil”.

A Academia Brasileira de Ciências (ABC) também defendeu o Inpe e seu diretor, em nota enviada ontem e assinada por seu presidente, Luiz Davidovich.

“A excelência do seu trabalho é reconhecida por outros governos, em especial Estados Unidos e França. Esse trabalho é exemplo mundial de competência nesta área, sendo reconhecido como referência por organismos internacionais como a Organização da ONU para Alimentação e Agricultura, Organização Meteorológica Mundial, etc.”, diz o texto.