Maia ocupa Estadão e Globo que Bolsonaro despreza, firma compromisso com Previdência e ataca: “O governo é um deserto e não tem base”

BR: O presidente da Câmara, Rodrigo Maia, abre neste sábado 23 um pacote de lições sobre o presidente Jair Bolsonaro e seu governo. Escolhendo a plataforma da mídia mais tradicional do País – os jornais impressos -, ele ocupa espaço em duas entrevistas de fundo ao Estadão e ao Globo que já encerram um recado de per si: é nefasto para a democracia o desprezo e os ataques que o governo distribui e incentiva contra a grande imprensa. Ao respeitar esses veículos como polos de informação, debate e repercussão, Maia, na prática, deu seu recado a formadores de opinião, enquanto a estratégia de comunicação do presidente, seus filhos e apoiadores se, na prática, única e exclusivamente via redes sociais.

As outras lições estão no conteúdo das reflexões do presidente da Câmara, que se posiciona com responsabilidade institucional em torno dos grandes temas, especialmente a reforma da Previdência, aponta com honestidade os erros do governo “que é um deserto” e passa orientações sensatas de quem, nota-se, mesmo não sendo alinhado ao governo, quer ajudar: “Precisa sair do Twitter e ir para a vida real. Ninguém consegue emprego por causa do Twitter”. Só o ministro da Economia, Paulo Guedes, é poupado.

Confira a entrevista de Maia às jornalistas Vera Rosa, Naira Trindade e Renata Agostini, do Estadão:

Por que o sr. decidiu abandonar a articulação da reforma da Previdência?

Apenas entendo que o governo eleito não pode terceirizar sua responsabilidade. O presidente precisa assumir a liderança, ser mais proativo. O discurso dele é: sou contra a reforma, mas fui obrigado a mandá-la ou o Brasil quebra. Ele dá sinalização de insegurança ao Parlamento. Ele tem que assumir o discurso que faz o ministro Paulo Guedes. Hoje, o governo não tem base. Não sou eu que vou organizar a base. O presidente da Câmara sozinho, em uma matéria como a reforma da Previdência, não tem capacidade de conseguir 308 votos.

Mas o sr. continua à frente da articulação?

Dentro do meu quadrado, sim. Agora, acho que quanto mais eles tentam trazer para mim a responsabilidade do governo, mais está piorando a relação do governo com o Parlamento. O governo precisa vir a público de forma mais objetiva, com mais clareza, com mais energia na votação da reforma.

O que o presidente Bolsonaro precisa fazer?

Ele precisa construir um diálogo com o Parlamento, com os líderes, com os partidos. Não pode ficar a informação de que o meu diálogo é pelo toma lá, dá cá. A gente tem que parar com essa conversa. Como o presidente vê a política? O que é a nova política para ele? Ele precisa colocar em prática a nova política. Tanto é verdade que ele não colocou que tem (apenas) 50 deputados na base. Faço o alerta: se o governo não organizar sua base, se não construir o diálogo com os deputados, vai ser muito difícil aprovar a reforma da Previdência. O ciclo dos últimos 30 anos acabou e agora se abre um novo ciclo. Ele precisa saber o que colocar no lugar. O Executivo precisa ser um ator ativo nesse processo político.

E não está sendo?

De forma nenhuma. Ele está transferindo para a presidência da Câmara e do Senado uma responsabilidade que é dele. Então, ele fica só com o bônus e eu fico com o ônus de ganhar ou perder. Se ganhar, ganhei com eles. Se perder, perdi sozinho. Isso, para a reforma da Previdência, é muito grave. Não é uma votação qualquer, para você falar “leva que o filho é teu”. Não é assim. É uma matéria será um divisor de águas inclusive para o governo Bolsonaro. Então, ele precisa assumir protagonismo. Foi isso o que eu falei. Não vou deixar de defender as coisas sobre as quais tenho convicção porque brigo com A, B ou C. Meu papel institucional não é usar a presidência da Câmara para ameaçar o governo.

Mas o sr. ficou bastante contrariado com os ataques da rede bolsonarista na internet…

Não é que eu fiquei incomodado. O que acontece é que o Brasil viveu sua maior recessão no governo Dilma, melhorou um pouco no último governo, só que a vida das pessoas continua indo muito mal. Então, na hora em que a gente está trabalhando uma matéria tão importante como a Previdência, e a rede próxima ao presidente é instrumento de ataque a pessoas que estão ajudando nessa reforma, eu posso chegar à conclusão de que, por trás disso, está a vontade do governo de não votar a Previdência. Não fui só eu que fui criticado. Todo mundo que de alguma forma fez alguma crítica ao governo recebe os maiores “elogios” da rede dos Bolsonaro. Isso é ruim porque você não respeitar e não receber com reflexão uma crítica não é um sinal de espírito democrático correto.

O posicionamento do vereador Carlos Bolsonaro nas redes sociais atrapalha o governo?

O Brasil precisa sair do Twitter e ir para a vida real. Ninguém consegue emprego, vaga na escola, creche, hospital por causa do Twitter. Precisamos que o País volte a ter projeto. Qual é o projeto do governo Bolsonaro, fora a Previdência? Fora o projeto do ministro (Sérgio) Moro? Não se sabe. Qual é o projeto de um partido de direita para acabar com a extrema pobreza? Criticaram tanto o Bolsa Família e não propuseram nada até agora no lugar. Criticaram tanto a evasão escolar de jovens e agora a gente não sabe o que o governo pensa para os jovens e para as crianças de zero a três anos. O governo é um deserto de ideias.

O sr. está dizendo que o governo não tem proposta?

Se tem propostas, eu não as conheço.

Há uma nova versão do ‘nós contra eles’?

Eles construíram nos últimos anos o ‘nós contra eles’. Nós, liberais, contra os comunistas. O discurso de Bolsonaro foi esse. Para eles, essa disputa do mal contra o bem, do sim contra o não, do quente contra o frio é o que alimenta a relação com parte da sociedade. Só que agora eles venceram as eleições. E, em um país democrático, não é essa ruptura proposta que vai resolver o problema. O Brasil não ganha nada trabalhando nos extremos.

Temos um desgoverno?

As pessoas precisam da reforma da Previdência e, também, que o governo volte a funcionar. Nós temos uma ilha de governo com o Paulo Guedes. Tirando ali, você tem pouca coisa. Ou pouca coisa pública. Nós sabemos onde estão os problemas. Um governo de direita deveria estar fazendo não apenas o enfrentamento nas redes sociais sobre se o comunismo acabou ou não, mas deveria dizer: “No lugar do Minha Casa, Minha Vida, para habitação popular nós estamos pensando isso; para saneamento, nós estamos pensando aquilo”.

O presidente minimizou a crise dizendo que vai conversar com o sr e que tudo é como uma briga no namoro. O que achou?

Se o presidente não falar comigo até o fim do mandato, não tem problema. Sou a favor da reforma da Previdência. O problema é que ele precisa conseguir várias namoradas no Congresso, são os outros 307 votos que ele precisa conseguir. Ele pode me deixar para o fim da fila.

E por que o sr. entrou em um embate com o ministro da Justiça, Sérgio Moro, por causa do pacote anticrime? Certamente, conheço a Câmara muito melhor do que o ministro Moro. E sei como eu posso ajudar o projeto sem atrapalhar a Previdência. O que me incomodou? O ministro passou da fronteira. Até acho que em uma palavra ou outra me excedi, mas, na média, coloquei a posição da Câmara. O governo quer fazer a nova política. Nós queremos participar da nova política.

A prisão do ex-presidente Michel Temer e do ex-ministro Moreira Franco serviu para tumultuar esse ambiente político?

Eu não acho. As instituições precisam funcionar. Uns gostam da decisão, outros não. Mas ela precisa ser respeitada e aquele que se sentir prejudicado por uma decisão da Justiça tem o poder de recorrer.

Aos jornalistas Paulo Cesar Pereira e Bela Megale, do Globo, Maia deu novos recados.

Confira:

Por que o senhor diz que, agora, o governo será responsável pelos votos da reforma da Previdência?

Nas últimas semanas foi se construindo uma imagem de que o Parlamento estava atrás de cargos, que ia pressionar o governo. Isso é muito ruim para a relação entre Legislativo e Executivo. É importante que as coisas fiquem muito claras: se o governo vai tratar de cargos, que seja direto com os partidos—e cada um vai dizer se esta é sua agenda. A Presidência da Câmara não pode estar envolvida nesse tipo de articulação. O Executivo fica no seu campo, o Legislativo, no seu, e eu comando a votação.

Existe risco para a votação?

A responsabilidade pela relação com a Câmara é do presidente Bolsonaro. Ele não pode delegar a ninguém. Se ele não comandar, não teremos os 308 votos. Se não chamar deputado por deputado, não olhar no olho e não falar da importância da reforma, será difícil. Ou ele patrocina, lidera e passa a ser o garoto-propaganda dela, ou será muito difícil. Vou continuar trabalhando, tenho influência sobre boa parte dos parlamentares, mas não chego aos 308 votos.

Como vê as críticas à “velha política”?

O presidente vem falando há muito tempo que vem sendo pressionado pela “velha política”. Acho que não tem velha nem nova—tem apolítica, e ela é feita de diálogo. Se o presidente prefere um diálogo mais distante do Parlamento, não vejo problema. A reforma é decisiva para o Brasil. Vamos trabalhar para pautá-la e aprová-la. Mas o presidente precisa compreender que ele foi eleito para comandar sua pauta. O sistema é presidencialista, não é parlamentarista.

As críticas das redes sociais bolsonaristas levaram o senhor a mudar o tom?

Não. Apenas acho que precisamos deixar as coisas claras.

O governo trabalhou contra a minha eleição, através do seu ministro da Casa Civil, até dois dias antes da votação. Tentaram primeiro viabilizar o senador Davi Alcolumbre para me inviabilizar. Depois, tentaram fortalecer um candidato no meu campo. No final, tentaram fortalecer o candidato com mais chances que sobrou. Então, não tenho nenhum compromisso com o governo, tenho compromisso com o Brasil e com a pauta que acho decisiva, que é a reforma da Previdência. Estou dialogando e estou convencido de que o relator da reforma precisa ser do PSL. Porque, a partir do partido do presidente, ele vai ter capacidade maior de diálogo. Não há pressão parlamentar? Não tem ninguém boicotando votação, nenhum ti pode pressão. Ele (Bolsonaro) está criando uma falsa informação. Mas sem seu protagonismo, nada vai andar. Como é que o presidente não constrói sua base? Isso é impossível dar certo. É importante que ele assuma esse papel para que não fique esse jogo de que o Parlamento está pressionando, ameaçando, fazendo e acontecendo. Queremos votara Previdência, precisamos que o governo garanta os votos.

O senhor vai ajudar?

Vou ajudar, vou continuar defendendo, não vou sair disso nunca. Aliás, é muito interessante porque ficam dizendo nas redes sociais que estou contra a matéria. Me desculpe. Quem foi contra a matéria a vida inteira foi o Bolsonaro, não fui eu. Sempre estive neste campo: o da reforma do Estado, da reforma da Previdência e da economia de mercado. Estou no mesmo lugar, por isso, não tenho constrangimento de defender a reforma. É o constrangimento do presidente de defendê-la, sempre dizendo que não gostaria de votá-la, que gera insegurança entre os parlamentares.

A estratégia de comunicação feita pelo filho dele atrapalha? Estamos vivendo um momento em que as redes sociais do Bolsonaro agridem quando um deputado ou jornal critica o governo. Tem algo errado nessa relação. Não é porque critiquei as mudanças no Benefício de Prestação Continuada (pago a idosos de baixa renda) ena aposentadoria rural que estou contra a reforma. E fui ataca dopo risso. Vivemos numa democracia ou numa ditadura? Quando você não aceita crítica, passa anão viver numa democracia e começa a viver numa ditadura.

Qual peso as falas do ministro Sergio Moro tiveram para a piora na sua relação com o Planalto? Sempre tive uma relação de muito diálogo com o ministro Moro, sei das boas intenções dele. Agora, quem conhece a Câmara sou eu e sei que ela não tem capacidade de mobilização em dois temas tão relevantes ao mesmo tempo. Para mim, ficou uma sinalização muito clara quando o presidente levou o projeto da Previdência e não levou o projeto do Moro: que aprioridade do governo era a Previdência. Já estou discutindo a melhoria da legislação de enfrentamento ao crime organizado desde o fim de 2017. Esse tema não é novidade. A decisão de como vai tramitar é da Câmara, não do Executivo. Eles têm que tomar cuidado porque essa fronteira leva à ditadura. Agente precisa respeitar os Poderes.

O presidente comparou a situação a um acrise coma namorada. É possível reatar? Falta compreensão às vezes ao presidente. Ele não precisa conversar comigo, tomar café da manhã, perder tempo comigo. Defendo a reforma com muito mais convicção que ele. O que ele precisa é da mesma convicção que eu e o ministro Paulo Guedes (Economia) temos na defesa da matéria. Quando ele assumir com convicção a defesa da reforma e começara convidar os deputados, que tê mas mesmas dúvidas que ele, para conversar e mostrara importância do tema, vamos deslanchar.