“Lula hoje é mais competitivo do que em 2018”, diz cientista político da FGV à BBC; “Antibolsonarismo o favorece”, diz Cláudio Couto

Após o ministro Edson Fachin anular os processos contra o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva na Lava Jato nesta segunda-feira (8/3), ressurgiu a possibilidade do ex-presidente concorrer à presidência em 2022.

O cenário causaria o inédito embate direto entre Lula e o presidente Jair Bolsonaro, tidos como dois dos principais personagens da recente polarização política vivida no país nos últimos anos.

Para o cientista político e professor da Fundação Getúlio Vargas (FGV) Claudio Couto, o antipetismo, apontado como alavanca para a eleição de Bolsonaro, hoje está enfraquecido. No ponto de vista dele, o espaço foi ocupado pela aversão ao atual presidente.

“O Lula é hoje mais competitivo do que seria em 2018. A experiência ruim com o bolsonarismo esfriou o antipetismo. Mesmo com todas as suas mazelas, se tiver Lula e Bolsonaro as pessoas votam no Lula ou em qualquer outro partido porque lidaríamos com um governo normal. Hoje, estamos num obscurantista e negacionista. Ainda tem a demora com a vacina e quem votou no Bolsonaro em 2018 está vendo isso”, afirmou Couto.

Para ele, o Brasil está num cenário onde “comparar Bolsonaro com o PT é favorável para o PT”.

“O Lula teve um governo bem avaliado. Ele saiu do mandato com 80% de aprovação. E esse governo bem avaliado lá atrás explica por que ele continua forte até hoje”, diz o professor.

A soltura do ex-presidente e as recentes decisões a favor dele, como esta que considera que a 13ª Vara não tinha competência para julgar os casos do triplex do Guarujá, do sítio de Atibaia e do Instituto Lula favorecem o pestista. De acordo com o cientista político, a polarização que Bolsonaro ajudou a construir hoje começa a se voltar contra ele mesmo.

“O eleitor pensa: ‘Eu quero o oposto disso que está aí hoje’. E na medida em que o governo Bolsonaro se desgasta, ser anti-Bolsonaro por excelência favorece Lula. Pois nada mais anti-Bolsonaro que o PT. A diferença é que Bolsonaro é extremista e o Lula pragmático, mas são dois polos”, afirmou.

O professor da FGV lembra que uma pesquisa do Ipec, divulgada esta semana, aponta que Lula supera Bolsonaro em potencial de voto para 2022.

“Bolsonaro está numa tendência de queda na popularidade, principalmente por conta da inflação e do modo como ele lida com a pandemia. Uma coisa era o Bolsonaro em 2018 que não tinha um governo no currículo e não poderia ser avaliado. Hoje, estar no governo pesa negativamente para ele”, afirmou o professor.

Para Claudio Couto, outro motivo que favorece Lula num possível cenário para 2022 é que desta vez ele não deve ser uma hipótese como ocorreu em 2018, mas sim uma possibilidade real.

Segundo o cientista político, o antipetismo já viveu seu auge em 2018.

Ao ser questionado pela BBC News Brasil se um possível governo Lula poderia causar mais turbulências políticas e dividir o país, Couto disse que a habilidade política do petista o favorece.Conforme a decisão de Fachin, 13ª Vara de Curitiba poderia julgar apenas casos da Lava Jato ligados diretamente à Petrobras - o que não é o caso das acusações contra Lula© Gil Ferreira/SCO/STF Conforme a decisão de Fachin, 13ª Vara de Curitiba poderia julgar apenas casos da Lava Jato ligados diretamente à Petrobras – o que não é o caso das acusações contra Lula

“O Lula fez um governo tranquilo, com uma boa relação com o congresso, com outros países. Hoje o Bolsonaro bate cabeça com governadores. O PT, assim como o PSDB, são capazes de fazer governos normais. O mercado deve ficar inquieto no início, mas à medida em que as medidas políticas e econômicas forem adotadas ele melhora”, disse.

Para ele, os partidos de esquerda e centro-esquerda, como o PSOL e o PDT serão “claramente prejudicados num cenário com Lula candidato”.

Ele disse ainda que o PT teria de buscar um candidato de centro para formar a chapa na vice-presidência e conseguir mais apoio para o segundo turno. Ele, porém, acredita que seja difícil uma aliança novamente com o MDB por conta do partido ter apoiado o impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff.

O professor também disse não acreditar numa frente ampla entre os partidos de esquerda para vencer Bolsonaro.

“No primeiro turno, eu acredito que vai haver uma aliança contra o bolsonarismo até porque a popularidade dele está numa tendência de corrosão. Um terço do eleitorado ainda diz que é fiel a ele, mas a tendência é de queda”, disse.

Couto diz que se estivesse num cassino, apostaria em Lula num possível cenário contra Bolsonaro.

“Bolsonaro perdeu muito apoio. Ele tinha um apoio inflado pelo pagamento do auxílio emergencial. Sem ele, volta para o patamar normal. Agora que Lula pode ser candidato de fato vai ganhar cada vez mais apoio”.