Lourival Sant’Anna: “Talibãs praticam prazer sexual entre homens, mas não chamam isso de homossexualismo”

Lourival Sant’Anna conhece bem o universo do Talibã. O jornalista, escritor e analista internacional da CNN Brasil foi o único repórter brasileiro, e um dos únicos ocidentais, a entrar no Afeganistão e entrevistar líderes do grupo fundamentalista islâmico – que agora volta ao poder – logo após o atentado de 11 de Setembro, nos Estados Unidos, em 2001.

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No Afeganistão, que visitou em três ocasiões, o jornalista desvendou aspectos pouco conhecidos da cultura dos talibãs. Descobriu, por exemplo, que o prazer sexual entre homens é algo disseminado entre os radicais islâmicos. Uma prática cercada de silêncio e contradições: “Como eles são casados, e têm filhos, na sua própria visão eles não são homossexuais”, diz Lourival.

Autor de quatro livros – entre eles, Viagem ao Mundo dos Taleban, sobre a arriscada cobertura no Afeganistão e Paquistão, em 2001 – Lourival é um atento observador do papel que as mulheres exercem no país, onde elas são “propriedades dos homens delas”. Para ele, a aversão dos talibãs às mulheres tem raízes culturais profundas: “A mulher tem um papel de geração e criação dos filhos. Mas não existe afinidade entre marido e mulher. Afinidade é entre os homens.”

Na entrevista a seguir à DW Brasil, o jornalista analisa os possíveis desdobramentos da recente tomada de poder pelos talibãs. Ele acredita que não se pode descartar que o país “volte a ser um porto seguro para guerrilheiros e terroristas” e que tudo vai depender da relação com países como China, Paquistão e Estados Unidos. Mas diz que os talibãs seguem uma pauta puramente local: “Eles procuram não ter inimigos externos.”

Em contato com deputados, pesquisadores e funcionários de ONGs que continuam em Cabul, Lourival relata que essas pessoas se sentem abandonadas, e estão com muito medo. “A vida delas estava totalmente dependente da presença americana, mas elas não percebiam isso.” Algumas se esconderam em casa, outra ainda tentam fugir. Mas os talibãs são “muito capilares”, e “é muito difícil fugir deles”, diz.

Para o jornalista, uma coisa é certa: apesar de a negociação para a retirada das tropas internacionais do Afeganistão ter sido feita entre o ex-presidente americano, Donald Trump, e o Talibã, o alto preço da decisão será debitado na conta do atual presidente, Joe Biden.

As mulheres são tradicionalmente oprimidas e relegadas a um papel secundário sob o domínio dos talibãs. Como explicar essa aversão e hostilidade contra elas?

As mulheres têm, tradicionalmente, um papel secundário na sociedade Pashtun, que é a etnia predominante entre os talibãs, algo cultural. Além disso, a primeira geração dos talibãs cresceu separada das mulheres. Eles eram órfãos e filhos de refugiados da guerra contra a União Soviética, entre 1979 e 1989, e cresceram do lado paquistanês da fronteira. Muitos foram viver em internatos religiosos, onde foram abrigados, acolhidos, alimentados. Ali, receberiam uma profissão – a de mulá.PUBLICIDADE

Nessas escolas – talibã significa estudante -, eles ficavam separados das meninas, num ambiente dominado pela relação homossexual entre os professores e os alunos, algo que também é tradicional, sobretudo nas regiões mais isoladas do sul do Afeganistão, em que o prazer muitas vezes acontece entre homens adultos e adolescentes, meninos.

Nesse contexto, a mulher tem um papel de geração e criação dos filhos. Mas não existe muita intimidade entre marido e mulher, não existe afinidade. Afinidade é entre os homens. E nesses internatos religiosos – eles passavam o tempo todo lá -, eles cresceram separados das mulheres e recebendo a doutrinação wuhabita, da Arábia Saudita, que financia algumas dessas escolas.

E quando eles foram para o Afeganistão, eles continuaram com essa prática homossexual?

Quando eles invadiram o Afeganistão, eles mantiveram essa prática. Só que isso não é chamado de homossexualidade – sou eu que estou chamando. Eu até evito essa palavra, eu tento falar mais “o prazer entre os homens”. Porque eles não veem dessa forma. Como eles são casados, e têm filhos, na sua própria visão eles não são homossexuais. Eles não cometem, assim, esse “pecado”. Porque eles consideram que não se casar, não ter filhos, é um pecado, e é proibido pelo islã. Mas como eles cumprem essa “obrigação religiosa”, digamos, não se veem como homossexuais. Aliás, eles punem, castigam duramente os homossexuais.

E como explicar essa perseguição contra a comunidade LGBTQ? Não seria uma contradição?

Sim, mas eles não veem dessa forma. Primeiro, porque dificilmente eles falam sobre isso. Eles apenas praticam, em silêncio. Não diria que chega a ser um tabu, porque eles flertam com os homens, são explicitamente sedutores. E não são só os talibãs. Os mujahedins, que lutaram contra os soviéticos, também tinham essa prática. Eles desfilavam com os tanques soviéticos, que tinham confiscado depois da guerra, maquiavam e desfilavam com os meninos, exibidos como troféus. Assim como os talibãs, que raptam as meninas para casar, os mujahedins raptavam os meninos também. Os talibãs, que eu saiba, nunca tiveram essa prática de raptar meninos. O que eles fazem – que é uma coisa prevista dentro de uma certa interpretação do islã -, é obrigar as famílias a entregar as meninas para eles casarem. E eles se casam formalmente. Mas é contra a vontade da menina – portanto, na nossa visão, é um estupro.

No seu livro Viagem ao Mundo dos Taleban, você relata como descobriu que o prazer sexual entre homens era algo disseminado na cultura Pashtun. O que chamou a sua atenção para isso, se não é tão visível?

Isso ficou claro na minha entrevista, em outubro de 2001, com três líderes Talibã, em Kandahar. Um deles era um comandante militar, um homem bastante amargo. Ele dizia que eu deveria ser preso – entrei no Afeganistão ilegalmente. Mas o líder civil dizia: “Não entregamos o Bin Laden para os EUA porque ele é nosso hóspede. Então, precisamos tratá-lo bem como hóspede” (falando de mim). No final, olhando e piscando várias vezes para mim, ele disse: “Você fica aqui com a gente”, e riu. Eu respondi: “Não, se eu ficar não poderei enviar a minha reportagem”. Ao sair do Afeganistão, meu intérprete, um amigo que estava nos hospedando, e o irmão dele, começaram a rir de mim, e a fazer piadas. Eu estava com a roupa de afegão, de barba, sujo. Tomei banho, fiz a barba, coloquei minhas roupas ocidentais, e fui pra sala. Aí eles deram uma gargalhada: “Ah, se o fulano visse você assim…”. Eram meus amigos, né? Aí a gente começou a conversar, e eles me contaram muita coisa sobre isso. Eles viviam ali. A fronteira é totalmente porosa, é o mundo dos Pashtun – não existe Afeganistão e Paquistão. Já foi até chamado de “Pashtunistão”. É como se fosse um país ali. Eles se conhecem muito, e tinham conversas íntimas sobre essas questões com os talibãs.