Live entre Marta e FHC tem forte repercussão na mídia e deixa ex-prefeita mais perto de ser vice de Bruno Covas; fato novo pode desequilibrar disputa

BR: Saiu, como se diz, melhor que a encomenda. O debate virtual ontem entre a ex-prefeita Marta Suplicy e o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso superou o ambiente das redes sociais e estampou, hoje, a primeira página e a abertura da editoria de Política do Estadão. Na Folha de S. Paulo, matéria de página inteira, publicada a partir do ‘gancho’ da live, mostrou as históricas afinidades entre Marta e um dos maiores símbolos do PSDB, o ex-governador Mario Covas (1930-2001), avô do atual prefeito Bruno Covas. Uma complementaridade que poucas vezes acontece.

De per si, o debate entre FHC e Marta já representava a anuência do ex-presidente, com sua ampla zona de influência no partido dos tucanos, à aproximação que ocorre, nos últimos meses, entre a ex-senadora e o atual prefeito. Ambos têm conversado com frequência sobre assuntos políticos, com destaque para a ideia defendida por Marta, desde meados do ano passado, a respeito da necessidade da construção do que ela tem chamado de Frente Ampla para isolar e derrotar nomes ligados ao bolsonarismo na eleição municipal de São Paulo. Ontem, FHC deu seu aval ao plano, mostrando-se entusiasta das articulações empreendidas por Marta.

Na reta final das definições partidárias às eleições municipais de novembro, a live tem todo o jeito de ter sido o elemento que faltava para o PSDB, em respaldo às conversas entre o atual prefeito e a ex-chefe de executivo municipal paulistano mais bem avaliada da história, confirmar a aliança entre o partido e a ex-estrela petista, hoje filiada ao Solidariedade. Analistas de pesquisas avaliam que a chapa Bruno-Marta teria a capacidade de vencer a disputa municipal já na primeira rodada, em 15 de novembro.

A seguir, as reportagens do Estadão e da Folha sobre a ascensão de Marta Suplicy nos bastidores da eleição municipal da maior cidade do País:

Estadão

Marta e FHC pregam frente anti-bolsonaro em São Paulo

Pedro Venceslau/Paula Reverbel_ Em live numa rede social, Marta Suplicy (SD) e Fernando Henrique Cardoso (PSDB) defenderam a criação de uma frente ampla na capital contra Jair Bolsonaro. A ex-prefeita quer que a articulação pluripartidária comece na eleição municipal e tenha como meta definir um nome ao Planalto em 2022.

A cinco dias do início das convenções partidárias, reuniões em que as legendas oficializam quem serão seus candidatos ou de que alianças vão fazer parte, a ex-prefeita de São Paulo Marta Suplicy (SD) e o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso (PSDB) defenderam ontem uma frente anti-bolsonaro nas eleições de novembro. Marta negocia ser vice do candidato tucano, o prefeito Bruno Covas, que também é procurado pelo Republicanos, do pré-candidato Celso Russomanno. As definições podem alterar o cenário eleitoral paulistano.

O Republicanos pretendia oficializar Russomanno, que lidera as pesquisas de intenção de voto, como seu candidato no próximo dia 10. Ontem, a sigla anunciou o adiamento da convenção para o último dia permitido pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE), 16 de setembro. Isso dá tempo para o andamento das negociações para que Russomanno defina qual vai ser seu papel na disputa: se vai encabeçar uma chapa, desistir de concorrer ou mesmo ser vice de Covas ou do ex-governador Márcio França (PSB), com quem também mantém conversas. Ambos não descartam recebêlo como candidato a vice.

Enquanto Covas e o PSDB tentam se afastar do bolsonarismo, França chegou a ser criticado por aliados do PDT depois que acompanhou o presidente Jair Bolsonaro em uma visita a São Vicente, sua base eleitoral, no último dia 7. Embora não diga publicamente que pretende brigar pelos eleitores que acompanham o presidente, o ex-governador elogiou ontem o governo federal, durante coletiva de imprensa para anunciar o apoio do Avante à sua pré-candidatura.

‘Live’. Durante uma transmissão ao vivo realizada ontem pelo Facebook, Marta e FHC, que já estiveram em campos opostos em eleições passadas, defenderam a criação de uma frente ampla com vários partidos para barrar eventuais candidatos que tenham ligação com o presidente Jair Bolsonaro. Marta defendeu que essa articulação pluripartidária comece já na eleição municipal em São Paulo e tenha como meta definir um nome de oposição para o Palácio do Planalto em 2022.

“Devemos começar em São Paulo um movimento de frente ampla com forças políticas que são contra o desmonte autoritário e aponte para 2022. Temos que começar agora essa conversa. Não será na véspera de 2022 que vamos ter um programa de governo que nos una”, disse a ex-prefeita. Fernando Henrique respondeu que ainda é cedo

para “fulanizar” na Presidência, mas concordou que é preciso união. “Sou favorável a somar forças”, afirmou o tucano.

A possibilidade de Marta integrar a campanha do prefeito Bruno Covas daria um perfil de centro-esquerda à candidatura tucana. A união, no entanto, não é consenso no PSDB.

Marta citou também uma reportagem do jornal O Globo sobre Bolsonaro sinalizar que pode fazer campanha no segundo turno para Márcio França. “Acho um erro dele (França)”, disse FHC. Depois de ter mais votos que o governador João Doria (PSDB) na capital paulis

ta na disputa pelo governo em 2018, França tem usado as redes sociais para tentar colar o governador tucano em Bruno Covas. A estratégia visa atrair o voto útil dos eleitores bolsonaristas anti-doria. Apesar de ser do PSB, o ex-governador tem feito gestos de aproximação com o bolsonarismo. “O pessoal reclama do governo federal, mas os R$ 600 saíram de lá. A substituição trabalhista saiu do governo federal. Cadê a parte do (governo do) Estado? Não dá para complementar uns R$ 200, R$ 100?”, questionou França, ontem, ao anunciar o apoio do Avante à sua candidatura. Ao longo do discurso, o ex-governador teceu diversas críticas a Doria e poupou a gestão federal. Questionado sobre a possibilidade de alinhamento com Bolsonaro, o ex-governador afirmou que seus opositores tentam criar circunstâncias constrangedoras. “O Bolsonaro não vota para prefeito de São Paulo e já disse que não se envolverá na campanha”, disse França ao Estadão. “Agora, é natural que as pessoas que gostam do Bolsonaro escolham os seus candidatos. Por exemplo, os policiais militares e civis em São Paulo. É difícil você fazer eles votarem no 45 (número de urna do PSDB), porque eles associam isso ao Doria, que passou a ser adversário”, acrescentou.

Além do Avante, França tem o apoio do PDT. Mas a proximidade com o bolsonarismo tem causado reclamações dentro da aliança. Após a participação de França em um evento presidencial no início do mês, o presidente do PDT, Carlos Lupi, escreveu, nas redes sociais: “O PDT não irá tolerar pré-candidato vinculado ao bolsonarismo. Se houver algum caso, terá sua précandidatura suspensa. Estaremos atentos se houver qualquer denúncia”, escreveu o dirigente.

Pesquisa. Sobre a possibilidade de ter Russomanno como vice, França disse ter boa relação com ele. Na última pesquisa Ibope para a Prefeitura de São Paulo, encomendada pela Associação Comercial de São Paulo, em parceria com o Estadão, divulgada em 22 de março, antes do agravamento da pandemia do novo coronavírus, Russomanno tinha 24% das intenções de voto. Covas aparecia em segundo, com 18%, seguido por Guilherme Boulos (PSOL), com 9%, e França, com 6%. Covas conta tem a maior aliança, com o apoio de PP, DEM, PL, PSC, Podemos e PROS, por enquanto. Apesar de estar na liderança, Russomanno ainda não montou estrutura de pré-campanha e está recolhido, ao contrário de seus adversários.

Folha

Marta ignora rusgas e usa histórico de alianças em flerte com Bruno Covas

Joelmir Tavares_Marta Suplicy parece querer deixar no passado as ocasiões em que criticou o prefeito Bruno Covas por fechar piscinas de CEUs, responsabilizou o tucano por uma “medida perversa” contra os pobres da capital paulista e o acusou de “distorcer a realidade”.

Filiada ao Solidariedade, a ex-prefeita mudou o tom sobre o candidato à reeleição pelo PSDB e se aproximou dele no intuito de ser sua vice na eleição de novembro. A hipótese, hoje tida como remota, fez ataques serem substituídos por elogios de parte a parte.

Em sua estratégia, Marta recorre ainda à memória de alianças feitas por ela no passado com Mário Covas, o avô de Bruno que ajudou a fundar o PSDB e foi prefeito, senador e governador até 2001, ano em que morreu.

Em 1998, quando ainda era do PT, a então candidata derrotada ao Governo de São Paulo apoiou Covas no segundo turno contra Paulo Maluf (à época no PPB). Em 2000, Covas retribuiu o gesto e declarou voto em Marta na corrida pela prefeitura, novamente tendo Maluf como rival.

A dobradinha foi bem-sucedida em ambos os casos, com Maluf saindo derrotado.

No flerte político de agora, Marta evoca a relação com o clã para tentar estar ao lado de Bruno no próximo pleito, depois que foram frustradas suas tentativas de se aliar à coligação PSB-PDT e ao PT, partido que ela deixou em 2015 rumo ao MDB de Michel Temer.

ex-senadora e ex-ministra dos governos Lula e Dilma (PT) louvou a coalizão com Mário Covas, por exemplo, em um vídeo postado no mês passado em suas redes sociais.

“Éramos adversários, mas nos unimos contra um mal maior. Nos aliamos para preservar São Paulo e a democracia”, afirmou ela na gravação, pregando a necessidade de deixar diferenças de lado.

Um repeteco agora, no entanto, dependeria da superação de obstáculos como a pouca intimidade entre Marta e Bruno e os ataques dela à gestão do prefeito, iniciada em 2018, quando João Doria (PSDB) entregou a prefeitura ao vice para disputar o governo do estado.

“Bem que avisei!”, escreveu a ex-prefeita no Twitter em janeiro de 2019, culpando Covas pelo fechamento, em pleno período de férias, de piscinas dos CEUs. Os Centros Educacionais Unificados são considerados uma das principais heranças da passagem dela pela prefeitura (2001-2004).

Fazendo sinal negativo com o polegar, ela afirmou em vídeo que “a parte cultural [em] muitos deles” estava deixando a desejar. Contou ainda ter relatado o problema ao prefeito. “E ele disse que não era prioridade.”

Pouco depois, em março de 2019, o portal R7 noticiou que Marta classificou como “perversa contra o cidadão mais pobre” uma medida da gestão Covas que prejudicaria usuários do Bilhete Único, outra vitrine do governo dela.

Em janeiro deste ano, a ex-petista voltou a disparar contra o tucano. “Covas distorce a realidade e, lamentavelmente, induz o leitor ao equívoco”, escreveu no Facebook ao comentar um artigo do prefeito publicado na Folha.

Ela reivindicou a autoria de políticas públicas de assistência à maternidade e acusou as gestões do PSDB de se apropriarem indevidamente de “várias outras ações concluídas, e inauguradas, no governo do PT na cidade de São Paulo”.

O discurso contrasta com o da homenagem que ela rendeu em maio a Doria e Covas pelo enfrentamento ao novo coronavírus. “Ainda bem que SP tem governador e prefeito que não politizam o vírus, que aceitam e dialogam com a ciência e propõem um plano racional e compreensível para todos”, tuitou.

Marta ainda se solidarizou com o prefeito por, segundo ela, dedicar a mesma força ao combate à pandemia e ao tratamento de câncer. “Bruno Covas mostrou-se um guerreiro na luta contra o câncer. Não é fácil, mas coragem não lhe falta pra superar também esse obstáculo da Covid”, disse, em junho.

Covas também já emitiu sinais pouco amigáveis na direção da agora aspirante a aliada. Em 2016, o tucano foi questionado pelo jornal O Estado de S. Paulo sobre um eventual segundo turno entre Marta, que disputava a prefeitura pelo MDB, e Fernando Haddad (PT), que buscava a reeleição.

“Pavoroso” foi o termo escolhido pelo tucano para descrever o hipotético cenário. “Ficaria muito difícil decidir em quem votar. Eu teria muita dificuldade”, sentenciou.

Recentemente, já em meio aos acenos de Marta, o prefeito direcionou afagos a ela, algo improvável em outros tempos. Ao inaugurar um CEU na vila Alpina (zona leste) neste mês, Covas ressaltou: “O CEU é uma marca da gestão Marta Suplicy”.

Embora Marta prefira destacar o lado positivo de sua convivência com Mário Covas, a história entre os dois também registra rusgas.

Em 1998, Marta se enfureceu por ter sido chamada pelo então governador de “menininha do PT”. Em artigo na Folha, ela (que àquela altura tinha 53 anos) respondeu que seu adversário na briga pelo Palácio dos Bandeirantes desqualificava não só sua candidatura, mas todas as mulheres.

Semanas mais tarde, a então deputada questionou a coerência do tucano, indo a público falar que ele antes se dizia contrário à reeleição de governantes “alegando questões éticas, mas acabou cedendo em suas ditas convicções”.

Depois do primeiro turno, que consagrou Covas e Maluf nas primeiras posições, Marta foi criticada por ter demorado a manifestar apoio ao primeiro. Ela estava ressentida porque atribuía a forças do PSDB uma manobra que, na visão dos petistas, tirou do partido a chance de ir ao segundo turno.

“Ele ganhou por 0,4%. Foi uma derrota, para mim, muito difícil, sofrida, naquele momento”, relembrou ela em 2008, em depoimento gravado para a Fundação Mário Covas, que preserva a história do político. “A eleição foi muito conturbada, muito manipulada. Mexeram na pesquisa, né?”

A pesquisa Datafolha mostrava Maluf no topo e os demais candidatos tecnicamente empatados dentro da margem de erro, com Francisco Rossi (PDT) à frente, seguido por Covas e Marta. A margem, porém, foi ignorada por parte dos veículos que divulgaram os números.

O PT sustentou na época que isso prejudicou sua postulante, já que eleitores fiéis ao partido teriam optado por dar um voto útil para colocar Covas, e não Rossi, no segundo turno.

Em 2000, Marta enfrentou na briga pela prefeitura outro nome do PSDB, o então vice-governador Geraldo Alckmin (que terminou em terceiro lugar). Na campanha, ela chegou a acusar Covas de usar a máquina para beneficiar indiretamente o tucano veiculando propagandas da gestão estadual.

Em outro momento, mereceu o apoio do governador depois que um grupo de manifestantes atirou ovos na direção dela durante um encontro em Guaianases (zona leste). “Quem joga um ovo pode jogar uma pedra. Acho isso deplorável e que prejudica a democracia”, reagiu ele.

Com o quadro mais pacificado, em outubro, uma cena histórica: Marta chorou e beijou o rosto do cacique do PSDB após ele declarar que votaria nela. Ele disse querer “impedir que alguém desqualificado” como Maluf fosse prefeito. E, para conseguir comparecer à urna, adiou uma internação para operar um tumor. Quando Mário Covas morreu de câncer, em 2001, a ex-rival e ex-aliada afirmou que ele faria “muita falta no quadro político nacional e mais ainda no partido dele”. Em 2016, por ocasião de uma homenagem no Senado, ela, como congressista, exaltou a “capacidade de diálogo” do tucano.