“Isso é balela!” Bolsonaro acirra radicalização, renega documento da Comissão da verdade e volta a insultar memória de desaparecido na ditadura

O presidente Jair Bolsonaro questionou nesta terça-feira as descobertas da Comissão Nacional da Verdade (CNV), que apontou crime contra a humanidade na ação do regime militar no Brasil, e disse ser “balela” a discussão sobre documentos que registram assassinatos cometidos por agentes do regime.

“A questão de 64 não existem documentos se matou ou não matou, isso aí é balela, está certo?”, disse Bolsonaro a repórteres quando saía do Palácio da Alvorada, ao ser questionado sobre declaração dada na véspera a respeito do pai do presidente da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), Felipe Santa Cruz, que foi apontado pela CNV como desaparecido durante o regime militar após ser preso pelas forças do Estado.

De acordo com a Comissão Nacional da Verdade, Fernando Augusto Santa Cruz Oliveira, pai do presidente da OAB, foi visto pela última vez em fevereiro de 1974, quando foi preso no Rio de Janeiro por agentes do DOI-Codi.

“Nós queremos desvendar crimes. A questão de 64, não existem documentos de matou, não matou, isso aí é balela”, disse Bolsonaro, dizendo que o que ele sabe “não tem nada escrito”. “Meu sentimento era esse”, afirmou.

Bolsonaro ainda atacou o trabalho da Comissão de Anistia, relacionando o órgão à ex-presidente Dilma Rousseff (PT), que foi torturada pelo coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, ídolo do presidente.

“Você acredita em comissão da verdade? Qual foi a composição da comissão da verdade? Foram sete pessoas indicadas por quem? Pela Dilma”, afirmou.

DOCUMENTO 

O documento secreto RPB 655, elaborado pelo Comando Costeiro da Aeronáutica, mostra que Jair Bolsonaro mentiu, ao dizer, nesta segunda-feira (29), que Fernando Santa Cruz foi morto por militantes de esquerda. O relatório militar comprova que o pai do presidente da OAB, Felipe Santa Cruz, foi preso pelo regime em 22 de fevereiro de 1974, no Rio de Janeiro.

Há outros relatos que desmentem a versão de Bolsonaro para o fato. No livro “Memórias de uma Guerra Suja”, o escritor Marcelo Netto, ex-marido da jornalista Miriam Leitão, é descrito que Fernando foi morto, em 1974, pelos militares, em um local que ficou conhecido como “Casa da Morte”. O imóvel ficava na cidade de Petrópolis, no Rio de Janeiro.