Guedes importa crise cambial da Argentina: “Ficamos nervosos juntos e vamos acalmar juntos”

BR: No começo era a distância e a rispidez. Nas semanas entre a eleição e a posse do presidente Jair Bolsonaro, o economista Paulo Guedes, que já falava como futuro ministro da Economia, especializou-se em fazer declarações de afastamento do Brasil de seu principal vizinho, a Argentina. Para atingir o país, espicaçou o Mercosul, classificando-o como ideológico e sem serventia para o Brasil, e até ralhou com uma jornalista do diário El Clarín, de Buenos Aires, elevando o tom do voz e insistindo em questioná-la sobre se havia compreendido suas palavras de desdém:

“Era isso aí que você queria ouvir? Conheço esse estilo. A gente não está preocupado em te agradar!”, demarcou, na porta da residência do então futuro presidente Bolsonaro, no Rio de Janeiro.

Agora, quatro meses e uma disparada do dólar depois, Guedes mudou radicalmente o discurso belicoso. Nesta sexta-feira 26, após receber o ministro da Economia da Argentina, Nicolás Dujovne, em seu gabinete, em Brasília, o outrora agressivo futuro ministro se mostrou um solidário anfitrião. Tão solidário, que até atingiu o perigoso ponto de associar a alta do dólar no Brasil, considerada natural para as circunstâncias de aprovação da reforma da Previdência no Congresso, à verdadeira crise cambial estrutural que a Argentina desde muito, agravada nas últimas semanas.

Em tempo: no Brasil, o dólar oscila em torno de R$ 4; na Argentina, está valendo 48 pesos.

“Então ficamos nervosos juntos e vamos acalmar juntos”, comparou Guedes. “O Brasil está conduzindo bem as reformas e a Argentina também seus esforços de estabilização”, insistiu ele na associação com o país vizinho: “Vamos sonhar juntos para fazer com que nossa região e nosso países sejam do tamanho dos nossos sonhos e não dos nossos pesadelos”.

Até aqui, nenhum analista de destaque havia comparado a crise cambial argentina com a subida do dólar no Brasil. Agora, diante das palavras do ministro, a ligação se materializa, dado o peso da palavra do titular da Economia. Não há consenso de que a repentina aproximação de Guedes com a Argentina seja lucrativa para o Brasil neste momento, bem ao contrário. Com o ministro brasileiro praticamente importando a crise do vizinho, o risco de contágio só aumenta.

Para coroar sua nova visão sobre a Argentina – que, de resto, o presidente Jair Bolsonaro desprestigiou ao pousar em Santiago, no Chile, e não em Buenos Aires, como era a tradição, em sua primeira viagem internacional -, Guedes e Dujovne anunciaram um novo acordo comercial bilateral a ser anunciado em 30 dias.

“Minha afinidade é total com Nicolás”, derreteu-se Guedes. “Parece que somos amigos há 20 anos. O Bolsonaro também tem enorme afinidade com Macri e o nosso apoio é total às iniciativas da Argentina. Olhamos para a OCDE como futuro da integração global”, completou.

Só faltou pedir um tango e sair dançando!