Folha: após euforia com Bolsonaro, economia pode não deslanchar em 2019 como se previa

BR: Pode não ser um feliz passeio no parque o desenvolvimento da economia brasileira em 2019. É o que aponta na edição deste domingo 17 o jornal Folha de S. Paulo, em reportagem assinada pela jornalista Flavia Lima. Após a euforia dos agentes econômicas com a derrota do PT e a vitória de Jair Bolsonaro nas eleições presidenciais de 2019, os ânimos exaltados começam a dar lugar a projeções que já apontam para um crescimento do PIB inferior a 2% este ano.

Acompanhe:

Folha: Mesmo que a reforma da Previdência seja aprovada neste ano, é pouco provável que a economia brasileira encontre fôlego para deslanchar em 2019.

Passada a euforia com a eleição de Jair Bolsonaro (PSL), já há no mercado quem espere crescimento abaixo de 2%, com a retomada mais forte, uma vez mais, sendo empurrada para o próximo ano.

Até meados de 2018, economistas previam alta perto de 3% para o PIB (Produto Interno Bruto) neste ano.

​Aos poucos, no entanto, toma corpo a percepção de que os efeitos positivos da reforma da Previdência sobre a confiança dos agentes são incertos e não terão repercussão imediata sobre a capacidade de o governo voltar a investir.

Além disso, uma velha combinação de travas ao crescimento ainda não se desfez.

Analisando os componentes do PIB, especialistas ouvidos pela Folha explicam por que os canais de aceleração da retomada seguem obstruídos.

No front externo, uma expansão mais forte está descartada, dado que as exportações serão afetadas tanto pela desaceleração mundial quanto pela queda dos preços de commodities.

O impulso poderia vir dos investimentos, já que o setor teve um dos piores desempenhos durante a recessão, caindo cerca de 30% entre 2014 e 2016. Mas aqui o prognóstico também não é bom.

Ainda que saiam do papel, as concessões em infraestrutura prontas para serem oferecidas ao mercado só devem produzir algum efeito sobre a economia nos próximos anos.

Os setores que iam bem, como o automotivo, também dão sinais de acomodação.

Por fim, o desempenho frustrante da economia em 2018 deixa uma herança menos pujante para o ano seguinte.

Os dados fechados do PIB de 2018 serão divulgados no fim de fevereiro, mas analistas esperam que o ano deve repetir 2017, com alta de 1,1%.

Diante das evidências, o Itaú foi o primeiro a reconhecer que a economia segue em ritmo lento. O banco reajustou a alta esperada para o PIB de 2019 de 2,5% para 2%.

O movimento incorpora menor crescimento global, decepção com a safra estimada para a soja e uso maior das térmicas ao longo do ano diante das chuvas fracas de janeiro —o que encarece o preço da energia para a já enfraquecida indústria, diz Artur Passos, economista do Itaú.

O lance mais intenso, porém, foi dado pela consultoria 4E. Juan Jensen, sócio da empresa, diz que rebaixou a expectativa para o PIB deste ano de 2,3% para 1,9%, levando em consideração a herança a ser deixada por 2018.

“Parte do crescimento de um ano começa antes mesmo de ele começar, e isso não ocorreu”, diz Fernando Montero, economista-chefe da corretora Tullett Prebon.

Mesmo em relação aos efeitos da reforma da Previdência sobre a economia, especialistas se mostram cautelosos.

Eles reconhecem a necessidade de mudanças nas regras para reequilibrar as contas do governo, mas dizem que se aposentar mais tarde não tem necessariamente impacto imediato sobre o PIB.

Marcelo Gazzano, economista da consultoria AC Pastore, vai mais longe. Aprovada, diz ele, a elevação da contribuição previdenciária de servidores públicos e militares deve retirar renda da economia. 

“São medidas necessárias, mas de efeito, a princípio, contracionistas. Além disso, quanto a confiança dos agentes vai subir só por aprovar a reforma? Não dá para saber.”

As revisões das expectativas para a atividade econômica em 2019 devem se intensificar, pois alguns analistas aguardam o número fechado de 2018 para refazer as contas.

José Francisco de Lima Gonçalves, economista-chefe do banco Fator, ainda tem em seu cenário alta de 2,4% para o PIB de 2019, mas isso deve cair para perto de 2%.

Um dos pontos de preocupação é o mercado de trabalho. O rendimento do trabalhador, diz Gonçalves, subiu nos últimos dois anos basicamente porque a inflação caiu.