BOG500- BOGOT¡ (COLOMBIA), 11/11/2014.- FotografÌa de archivo del 9 de septiembre de 2014, en Sao Paulo (Brasil), de la ministra de cultura de Brasil, Marta Suplicy, quien anunciÛ hoy, martes 11 de noviembre de 2014, su renuncia al cargo para volver a ocupar su escaÒo en el Senado y facilitar a la reelegida presidenta Dilma Rousseff la formaciÛn de un nuevo gabinete, informaron fuentes oficiales. EFE/ARCHIVO/AARON CADENA OVALLE ORG XMIT: SAO01

Fio desencapado: “O rei está nu, transtornado e acuado”; artigo de Marta Suplicy

Por Marta Suplicy

A frase mais completa para revelar quem é Jair Bolsonaro foi dita pelo próprio: “Alguns vão morrer? Lamento… Essa é a vida, é a realidade. Não podemos parar a fábrica de carros porque tem 60 mil mortes no trânsito no ano”.

Além da forma chocante, evidenciando o desprezo e a insensibilidade pelas mortes que poderiam ser evitadas, há o absurdo da comparação. Como Bolsonaro não obedece e muda leis que o desagradam —haja vista pescar em local proibido, retirar radares das estradas, incentivar mineração em área indígena etc.—, é regido pelo autoritarismo ignorante.

Existe a ciência e a informação que ele manipula: “O cara sai pulando em esgoto e não pega nada”. Credo. Como não pega nada? Só para quem acha que saneamento básico não faz diferença.

Jair demitir Mandetta é como o capitão dispensar o marechal no momento mais difícil da batalha. As crises de manifesto ciúme frente ao seu competente e tranquilo ministro da Saúde geram insegurança entre a população. Conversando com um homem simples, ficou clara a confusão. “Senadora, o que a senhora está achando das medidas do governo?” Comecei a responder que estavam devagar. Foi quando ele me interrompeu, aflito: “E o isolamento? É pra valer?”. Fiquei consternada. Droga de presidente.

O tsunami completo chegará com os problemas econômicos. O número de favelas, trabalhadores informais e pessoas que ficaram sem emprego e condição de sobrevivência já é enorme. Em pouco tempo o desespero as levará às ruas.

E com este governo que tem como chefe um sujeito que só pensa em reeleição —e outro, em agradar o andar de cima—, o povo pobre vai sofrer e morrer quando muito poderia ter sido feito.

Não são apenas as leis para mitigar o desespero do informal, o assalariado demitido, o povo das favelas, a demorada e tímida elaboração de linhas de crédito para pequenas e médias empresas, mas espantam as brechas que tentam encontrar para economizar no Bolsa Família, no benefício continuado. Acrescente-se o desinteresse em criar formas seguras de levar recurso e comida para os que vão perecer sem este auxílio. E tentar com medida provisória encobrir o que o governo faz e deixa de fazer, quebrando a Lei de Acesso à Informação.

A sociedade civil faz tudo que pode, mas, além de a responsabilidade de organização ser da maior autoridade do país, o presidente, de forma irresponsável, conflagra e confunde a nação com o slogan “O Brasil não pode parar”. Que sandice.

Em vez de fazer como outros líderes que se equivocaram e voltaram atrás na questão do isolamento, e gastar em recursos tudo o que puder e o que não puder para salvar vidas, este presidente não atina que serão estas vidas e mãos que reerguerão o Brasil.

Este aparente fio desencapado sabe muito bem onde quer chegar, pois já explicitou, ao longo de sua vida e com clareza, por qual cartilha se guia. Não será tranquilo, presidente. A queda nas pesquisas, os panelaços e a indignação de antigos apoiadores já mostram que a resistência será forte.

Perigo à vista: o rei está nu, transtornado e acuado.