Estudo sobre uso de cloroquina em brasileiros é interrompido por complicações cardíacas em pacientes

Um pequeno estudo brasileiro foi interrompido precocemente por questões de segurança depois que pacientes com coronavírus submetidos ao tratamento com altas doses de cloroquina desenvolverem ritmo cardíaco irregular, o que aumentava o risco de uma arritmia cardíaca potencialmente fatal.

Remédios à base de cloroquina e hidroxicloroquina
Remédios à base de cloroquina e hidroxicloroquina Foto: Roberto Costa/Código19 / Estadão Conteúdo

A cloroquina está intimamente relacionada a outro medicamento bastante utilizado, a hidroxicloroquina. O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, promoveu ambos com entusiasmo como um potencial tratamento para o novo coronavírus, apesar das poucas evidências de que eles funcionem e das preocupações de algumas das principais autoridades de saúde americanas.

No mês passado, a agência que regulamenta medicamentos e alimentos nos Estados Unidos (FDA, na sigla em inglês) concedeu aprovação de emergência para permitir que os hospitais usassem cloroquina e hidroxicloroquina do estoque nacional, se os ensaios clínicos não fossem viáveis. As empresas que fabricam os dois medicamentos estão aumentando a produção.

O estudo brasileiro envolveu 81 pacientes hospitalizados na cidade de Manaus e foi financiado pelo governo estadual do Amazonas. No sábado, 11, ele foi publicado no medRxiv, um servidor online que armazena artigos da área da saúde antes deles serem revisados por outros pesquisadores. Como as diretrizes brasileiras recomendam o uso de cloroquina em pacientes com coronavírus, os pesquisadores disseram que incluir um placebo no estudo – considerada a melhor maneira de avaliar um medicamento – era uma “impossibilidade”.

Apesar das limitações, infectologistas e especialistas em segurança de medicamentos disseram que o estudo forneceu mais evidências de que a cloroquina e a hidroxicloroquina podem causar danos significativos a alguns pacientes, especificamente o risco de arritmia cardíaca fatal.

Os pacientes do estudo também receberam o antibiótico azitromicina, que apresenta o mesmo risco cardíaco. Hospitais nos Estados Unidos também estão usando azitromicina para tratar pacientes com coronavírus, geralmente em combinação com a hidroxicloroquina.

“Para mim, esse estudo informa algo útil: a cloroquina causa um aumento dependente da dose de uma anormalidade no eletrocardiograma que poderia predispor as pessoas à morte cardíaca súbita”, disse David Juurlink, internista e chefe do departamento de farmacologia clínica da Universidade de Toronto, referindo-se ao exame que lê a atividade elétrica do coração.

Aproximadamente metade dos participantes do estudo recebeu uma dose de 450 miligramas de cloroquina duas vezes ao dia por cinco dias, enquanto o restante recebeu uma dose maior de 600 miligramas por dez dias. Em três dias, os pesquisadores começaram a perceber arritmias cardíacas em pacientes que tomavam a dose mais alta. No sexto dia de tratamento, 11 pacientes haviam morrido, levando ao fim imediato do segmento de altas doses do estudo.