Estagnação, recessão e, agora, depressão também entra no cenário econômico do Brasil

Os economistas passaram os últimos dias avaliando os riscos de o País voltar à recessão ou estar vivendo um período de estagnação. Na sexta-feira (17), a consultoria AC Pastore, do ex-presidente do BC Affonso Celso Pastore, acrescentou novo item à discussão: o Brasil não apenas está vivendo a mais lenta retomada da história como caminha para a depressão.

Em relatório intitulado “A Depressão Depois da Recessão”, a equipe da AC Pastore considera como principal critério para caracterizar o estado depressivo da economia brasileira a estagnação da renda per capita.

O relatório destaca que, nos casos de crises econômicas, é importante acompanhar não apenas a profundidade da recessão e a força de uma retomada mas também “saber quanto cada um dos cidadãos perdeu de renda per capita, e nesse campo estamos vivendo um ciclo sem precedentes”, diz o texto, citado em reportagem deste domingo 19 pelo jornal Folha de S. Paulo.

Como o PIB avançou apenas 1,1% em 2017 e também em 2018 e a população cresce 0,8% ao ano, o ganho de renda para cada brasileiro foi de “magnitude insignificante” no período, aponta o relatório. No fim de 2018, a renda per capita estava 8% abaixo do trimestre imediatamente anterior ao início da recessão.

Para Pastore, se o PIB de 2019 crescer de fato em torno de 1% ou até menos, a renda per capita ao fim deste ano estará no mesmo nível de 2018. “Com a renda per capita mantendo-se por três anos 8% abaixo do pico prévio, só nos resta definir a situação como característica de uma depressão”, diz o relatório.

“O país está parado. Depois da recessão, ainda não tivemos recuperação. A população empobreceu e não recupera a sua renda”, afirma Pastore. “Se isso não é sinal de depressão, não sei o que é.” A análise ainda não é consensual. Para Fernando Montero, economista-chefe da Tullett Prebon, o atual quadro da atividade ainda está mais próximo do conceito de estagnação.

Outra possibilidade que voltou ao radar dos analistas é que o País mergulhe — ou até já esteja — em uma recessão. Considera-se, então, a definição mais popular desse termo que seria a de dois trimestres consecutivos de queda do PIB.

A maioria dos especialistas espera que a economia tenha contraído 0,2% entre janeiro e março deste ano com relação a outubro a dezembro de 2018, quando havia crescido apenas 0,1%.

Silvia Matos, pesquisadora sênior da área de economia aplicada do Ibre/FGV, também vê os números mais perto de uma estagnação. 

“Esses ajustes ocorrem, para baixo e para cima”, diz a respeito da possibilidade de o PIB do último período de 2018 ser revisto. “Passar por uma perda de vigor no segundo trimestre pode significar que o choque de perda de confiança se tornou mais permanente”.

Alessandra Ribeiro, sócia da área de macroeconomia da Tendências Consultoria, também diz não ser possível mais ignorar os riscos de um novo ciclo recessivo, embora a casa trabalhe, por enquanto, com um crescimento de 1,6% para o PIB de 2019.

“Existem fatores externos pesando, como a desaceleração da economia global e a crise na Argentina. Mas há também a conjuntura doméstica, de frustração muito grande com o atual governo, o que limita decisões de investimentos e consumo”, afirma.

Para Montero, da Tullett Prebon, independentemente do conceito que melhor defina a atividade econômica brasileira e o resultado do PIB um pouco positivo ou negativo, a situação inspira preocupação. “A economia está em coma e, por isso, monitoramos se mexe um dedo.”

Para a economia brasileira sair do atoleiro, Affonso Celso Pastore diz que não basta o governo mirar apenas a reforma da Previdência; é preciso dar expectativas à sociedade.

Segundo ele, isso inclui, por exemplo, apressar o programa de infraestrutura e ao menos lançar o de privatizações —ainda que necessite de um planejamento cuidadoso.

“O governo precisa reconhecer o diagnóstico: a economia está deprimida, precisa de remédios e eles têm limites. Mas ponha os remédios para funcionar”, diz.