Em nota, Itamaraty diz apoiar “luta contra o flagelo do terrorismo”; ex-chanceler Amorim vê “aceitação de pré-julgamento de Trump” sobre Irã

O ex-ministro das Relações Exteriores Celso Amorim (PT) classificou como “lamentável” neste domingo (5) o posicionamento da atual gestão do ministério, comandado por Ernesto Araújo, sobre o conflito entre Estados Unidos e Irã.

A íntegra da nota do Itamaraty é a seguinte:

Ao tomar conhecimento das ações conduzidas pelos EUA nos últimos dias no Iraque, o Governo brasileiro manifesta seu apoio à luta contra o flagelo do terrorismo e reitera que essa luta requer a cooperação de toda a comunidade internacional sem que se busque qualquer justificativa ou relativização para o terrorismo.

O Brasil está igualmente pronto a participar de esforços internacionais que contribuam para evitar uma escalada de conflitos neste momento.

O terrorismo não pode ser considerado um problema restrito ao Oriente Médio e aos países desenvolvidos, e o Brasil não pode permanecer indiferente a essa ameaça, que afeta inclusive a América do Sul.

Diante dessa realidade, em 2019 o Brasil passou a participar em capacidade plena, e não mais apenas como observador, da Conferência Ministerial Hemisférica de Luta contra o Terrorismo, que terá nova sessão em 20 de janeiro em Bogotá.

O Brasil acompanha com atenção os desdobramentos da ação no Iraque, inclusive seu impacto sobre os preços do petróleo, e apela uma vez mais para a unidade de todas as nações contra o terrorismo em todas as suas formas.

O Brasil condena igualmente os ataques à Embaixada dos EUA em Bagdá, ocorridos nos últimos dias, e apela ao respeito da Convenção de Viena e à integridade dos agentes diplomáticos norte-americanos reconhecidos pelo governo do Iraque presentes naquele país.

De acordo com Amorim, o Itamaraty abandona a tradição de solução pacífica de conflitos e aceita a julgamento do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, de que o chefe da Guarda Revolucionária do Irã, Qassem Soleman,  militar assassinado pelo governo americano, era terrorista.

“Sob a ótica dos valores, abandona a tradição e o dispositivo constitucional sobre solução pacífica de conflitos; aceita o prejulgamento feito por Trump de que o general era terrorista, ignora que o assassinato de um alto dirigente de outro Estado é um ato de guerra sem declaração de guerra que viola o Direito Internacional e enfraquece as Nações Unidas”, disse ao Congresso em Foco.

O ex-ministro também disse que o alinhamento com os Estados Unidos nesse conflito vai afetar o mercado brasileiro de produtos agropecuários e vai prejudicar a segurança dos brasileiros no Oriente Médio

“Li. Lamentável. Sob a ótica dos valores, abandona a tradição e o dispositivo constitucional sobre solução pacífica de conflitos; aceita o prejulgamento feito por Trump de que o general era terrorista, iignora que o assassinato de um alto dirigente de outro Estado é um ato de guerra sem declaração de guerra que viola o Direito Internacional e enfraquece as Nações Unidas. Do ponto de vista do nosso interesse, o alinhamento com Trump afetará o acesso de produtos agropecuários a um grande mercado. Mais grave, põe em risco a segurança de brasileiros no Oriente Medio e atrai para o Brasil um conflito que sempre passou ao largo do nosso país. Em outros tempos, talvez o Brasil poderia talvez contribuir para a paz, juntando-se a outros países, ao Papa e ao Secretário-geral da ONU. Em vista da baixa credibilidade do país nos dias que correm, tendo a concordar com o general Etchegoyen: o melhor é ficar de fora e fingir que não é conosco. A vergonha e o risco seriam menores.

Além disso, se chama a si a guerra ao terrorismo, você comete o que os anglo-saxões chamam de self-fulfilling prophecy [profecia autorrealizável]”.

Entenda o conflito

Os Estados Unidos confirmaram  na sexta-feira (3) a autoria do ataque que matou o chefe da Guarda Revolucionária do Irã, Qassem Solemani, na última quinta-feira (2), o preço do petróleo subiu, manifestações tomaram conta das ruas do Irã e a tensão mundial cresceu.

O presidente iraniano, Hassan Rouhani, afirmou que irá resistir aos Estados Unidos e prometeu vingança.

Em nota, o Ministério das Relações Exteriores não comentou a morte do líder iraniano, mas declarou apoiar os Estados Unidos “na luta contra o flagelo do terrorismo”.

A pasta comandada por Ernesto Araújo também afirmou ser necessário evitar confrontos internacionais: “o Brasil está igualmente pronto a participar de esforços internacionais que contribuam para evitar uma escalada de conflitos neste momento”.