Em apresentação com gráfico errado e dados incompletos, ministro diz que vermífugo trata Covid-19; comprovação zero

O ministro de Ciência, Tecnologia e Inovação, Marcos Pontes, disse nesta segunda-feira (19) que o vermífugo nitazoxanida apresentou resultados positivos no tratamento precoce de pacientes com Covid-19 dentro de uma pesquisa coordenada pela pasta.

Sem dar detalhes dos resultados ou apresentar a íntegra do estudo, o governo informou que os testes clínicos com voluntários mostraram que o medicamento reduziu a carga viral quando foi tomado em até 3 dias depois do início dos sintomas.

A pesquisa ainda não foi publicada em nenhum periódico. Segundo o governo, o trabalho foi submetido para a análise de uma revista científica e, por isso, o ministério não pode dar detalhes dos resultados.

Gráfico sem dados reais

Durante a cerimônia, o governo apresentou um vídeo que mostra a trajetória da pesquisa. Nele, os organizadores exibiram um gráfico sem dados reais, idêntico ao disponível no serviço de banco de imagens ShutterStock.

As imagens são exibidas quando o narrador afirma que “a missão dada ao Ministério da Ciência, Tecnologia e Informação foi cumprida” e “o resultado comprovou de forma científica a eficácia do medicamente na carga viral.”

Tela de vídeo apresentado na cerimônia do Ministério da Ciência e Tecnologia. Base e dados são idênticos ao disponível na agência ShutterStock. — Foto: Reprodução/TV Brasil

Tela de vídeo apresentado na cerimônia do Ministério da Ciência e Tecnologia. Base e dados são idênticos ao disponível na agência ShutterStock. — Foto: Reprodução/TV Brasil

Abaixo, a imagem disponível no banco de imagens:

Gráfico comercializado pela ShtterStock e que é idêntico ao usado em cerimônia do Ministério da Ciência e Tecnologia para mostrar eficácia de vermífugo contra a Covid.. — Foto: Reprodução

Gráfico comercializado pela ShtterStock e que é idêntico ao usado em cerimônia do Ministério da Ciência e Tecnologia para mostrar eficácia de vermífugo contra a Covid.. — Foto: Reprodução

Procurado pelo G1,a assessoria de imprensa do MCTIC informou que “o gráfico usado no vídeo apresentado no evento de anúncio dos resultados dos ensaios clínicos com a nitazoxanida não faz parte dos dados do estudo e aparece apenas de forma ilustrativa”.

Medicamento com receita

A nitazoxanida é um medicamento utilizado no país pelos nomes comerciais Azox e Annita e faz parte do grupo dos antiparasitários e vermífugos. O remédio também tem ação antiviral e é receitado em casos de rotavírus.

Para evitar automedicação, a droga passou a ser vendida apenas com prescrição médica em abril deste ano. Entretanto, uma decisão da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) de 1º de setembro retirou a exigência de retenção da receita. O medicamento contendo nitazoxanida, disponibilizado comercialmente, não tem a indicação para o coronavírus, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS).

1,5 mil voluntários

Segundo o ministro, mais de 1.500 voluntários de sete cidades do Distrito Federal, São Paulo e Rio de Janeiro participaram do estudo clínico. Eles foram divididos em dois grupos: um tomou a nitazoxanida e o outro tomou um placebo. Segundo o governo, o grupo que recebeu o medicamento, um vermífugo, apresentou diminuição da carga viral.

“Ele [nitazoxanida] é de baixo custo, não tem efeitos colaterais importantes” afirmou Pontes. “A nitazoxanida não pode ser usada para fazer prevenção [da Covid-19]”, complementou o ministro.

O presidente Jair Bolsonaro e a primeira-dama, Michele Bolsonaro, participaram da cerimônia de apresentação das primeiras conclusões da pesquisa.

“Houve uma redução significativa da carga viral neste grupo”, afirmou a coordenadora geral do estudo, Patrícia Rieken Macedo Rocco, chefe do Laboratório de Investigação Pulmonar do Instituto de Biofísica Carlos Chagas Filho (IBCCF) da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).