Dono de 49,9% da XP, Itaú tem recomendação de compra de ação rebaixada pela própria corretora pela qual pagou R$ 6,3 bilhões

BR: Dono de 49,9% da XP Investimentos, o banco Itaú sofreu de uma fonte insuspeita uma das críticas mais pesadas dos últimos tempos à sua atuação no mercado de crédito. A fonte é a própria XP Investimentos. A corretora rebaixou ontem da categoria ‘recomendação de compra’ para ‘neutra’ sua avaliação sobre as ações do Itaú na Bolsa de Valores de São Paulo. O preço-alvo dos papéis do banco no final do ano foi reduzido de R$ 45 para R$ 40, rebaixando o potencial de valorização para 15,5%.

Numa agravante da constrangedora situação, a XP apontou os papeis de Bradesco, Banrisul e Banco do Brasil como mais adequados para o investidor obter ganhos. Dentre essas três instituições, o analista André Martins frisou ser o Bradesco, maior concorrente do Itaú, como o banco mais bem posicionado para se beneficiar do cenário macroeconômico de 2019, de expansão de crédito, crescimento do PIB em torno de 2% e inflação de 4,25%.

“Agora que o país está à beira de um virtuoso ciclo de crédito e de uma recuperação da economia, bancos mais cíclicos como o Bradesco oferecem melhores perspectivas de crescimento”, afirmou o analista no comentário enviado a clientes da XP Investimentos.

O motivo para o rebaixamento da recomendação ao Itaú é a não adequação da política de crédito do banco para o atual momento. Em lugar de conceder, o banco segue aferrado à antiga política de entesouramento, perdendo espaço no mercado de empréstimos ao público.

Por todos os ângulos, a crítica é especialmente dura, uma vez que suscita novas dúvidas sobre se a própria aquisição da XP foi um bom negócio para os acionistas do Itaú. Do ponto de vista dos ainda controladores da corretora, ao contrário, é certo que foi. O fundador da XP, Guilherme Benchimol, e seus sócios, ficaram bilionários. Eles fundaram a empresa, em 2001, em Porto Alegre, com um capital de R$ 15 mil e quatro computadores usados. Em maio de 2017, o Itaú anunciou a compra de 49,9% da XP por R$ 6,3 bilhões. Além disso, firmou compromisso de adquirir 74,9% do capita social da empresa até 2022. A partir de 2024, a XP estaria liberada para vender todas as suas ações ao banco das famílias Setubal e Moreira Salles.

Demonstrando uma independência positiva para o mercado, mas certamente surpreendente para os donos do Itaú, a XP não apenas atua de maneira crítica ao banco que será seu controlador como comete ousadias de grande repercussão no mundo do marketing. No ano passado, por uma quantia não revelada, a XP ‘roubou’ o garoto-propaganda do Itaú, Luciano Huck, para fazer seus próprios comerciais. Nos textos iniciais, não faltaram críticas veladas ao banco e elogios rasgados à XP.

Também é certo que a aquisição bilionária foi questionada desde o início. Mesmo a compra inicial dos 49,9% da XP despertou no Cade suspeitas de concentração de mercado, já que o banco e a corretora atuam em áreas similares. Em 2018, após debates que agitaram o mercado, o Cade, por 4 votos a 2, aprovou o negócio, mas com uma série de restrições. “Quanto maior a concentração de mercado, pior para o consumidor”, comentou o professor Fabio Gallo, professor de Finanças da FGV e da PUC.

O Cade temia que a entrada do Itaú na XP poderia provocar um “arrefecimento” da concorrência entre os modelos de investimentos de um e de outro.

Empresas como a XP permitem que seus clientes tenham acesso a investimentos oferecidos por diferentes fornecedores. Já a maioria dos bancos oferece apenas seus próprios produtos aos clientes – o Itaú informou que tem plataforma aberta.

A Superintendência-Geral do Cade, órgão responsável por fazer a análise inicial dos processos no conselho e que faz recomendações ao seu Tribunal, apontou que o eventual fim da concorrência entre os dois modelos “poderia ser bastante prejudicial aos mercados de produtos de investimentos e de crédito no Brasil”.

Já o conselheiro relator do processo, Paulo Burnier, afirmou em seu voto que os risco concorrenciais associados à operação seriam resolvidos um mecanismos que impeçam tanto a XP quanto o Itaú de discriminarem seus concorrentes a partir de agora.

O acordo que permitiu a aprovação da operação pelo Cade prevê que, caso o Itaú passe a oferecer seus produtos financeiros também em plataformas independentes, não poderá fazer isso apenas na XP, ou seja, não poderá discriminar outras plataformas.

A XP, por sua vez, não poderá aceitar produtos apenas do Itaú, ou seja, não poderá discriminar concorrentes do banco. Além disso, a XP se comprometeu a manter a política de tarifa zero em alguns investimentos, como do Tesouro Direto.

O acordo também limita a participação do Itaú no conselho de administração da XP Investimentos, que deve continuar com autonomia para deliberar independentemente da posição do Itaú.

E essa autonomia que, como se vê agora, incomoda o Itaú. ���RQ���|�