Divergência entre Magnoli e Chacra mostra decadência estética e jornalística do império global

Guga Chacra e Demétrio Magnoli: a decadência do império

por Gustavo Conde

O tema Guga Chacra/Demétrio Magnoli é bem indigesto. Trata-se de dois estandartes da prepotência e do analfabetismo político.

Um comentário estrutural, no entanto, vale: esses “barracos” na Globo News demonstram como o Grupo Globo está em decadência. Não há mais voz de comando. A CNN fumegou no cangote da obsolescência jornalística da emissora do Jardim Botânico.PUBLICIDADE

Eu não gosto da CNN (Leandro Karnal está lá, imaginem vocês), mas basta ver 30 segundos de Sidney Rezende (ex-Globo News) em frente às câmeras para saber o fosso profundo entre o velho e o novo.

Na Globo News, Rezende era um papagaio de pirata. Frívolo, burocrático, robotizado. Na CNN, ele praticamente nasceu como jornalista. Tem personalidade, vibra, olha no olho do telespectador.

Noutra ponta técnica (e trágica), aqueles programinhas “videoconferência” da Globo News já viraram folclore. Eliane Cantanhêde, Demétrio Magnoli, Guga Chacra, Ariel Palacios e Jorge Pontual juntos parecem mais um museu de cera do Tim Burton. Zero repercussão política (apenas os micos que viralizam no Twitter).

A decadência estética da Globo é irreversível. O “padrão Globo de qualidade” (conceito discutível) fez a curva e virou um pastiche.

A Globo representa o “protobolsonarismo” – com o perdão do neologismo kitsch. Ela escravizou a capacidade de julgamento do brasileiro durante 57 anos. Homogeneizou a língua, os costumes, os padrões, os hábitos, o consumo.

A conta chegou: a criatura, agora, vai destruindo o criador. O monstro conceitual criado pela emissora do Jardim Botânico – encarnado no resíduo humano mais desprezível, dejeto putrefato da ditadura – virou presidente da República e, pasmem, se voltou contra a própria mãe.Leia também:  Réquiem para uma república em estado terminal, por Fábio de Oliveira Ribeiro

Como já dito em outras aglomerações lexicais por aí, se o legado de Bolsonaro for levar a Globo com ele para o cemitério da história, talvez não tenha sido de todo ruim esse trauma eleitoral – que ganharia ares de trauma (re)fundador.

Ver Guga Chacra e Demétrio Magnoli se engalfinhando na tela da Globo, enfim, é como ver o general Heleno polemizando com Carluxo no governo Bolsonaro. O efeito prático é o mesmo: Twitter, memes e vazio profundo.

Para não perder a viagem, deixo um alerta à CNN: se vocês pretenderam mudar radicalmente o tom funéreo dos ex-jornalistas da Globo, é bom alguém avisar o William Waack. Ele prossegue inoculando a linguagem ultrapassada de sempre. Admito: não sei se, na CNN, ele é uma atração circense, um troféu ou apenas uma troca de favor.

Em tempo: William Waack é o Silvio Santos do jornalismo brasileiro: precisa sempre de uma assistente jovem e bonita para que seus gracejos não caiam no vazio absoluto – e tome a função de “cuidadora-editorial”.

A rigor, todos se merecem, Globo, Bolsonaro, CNN, Waack, Chacra, Magnoli. É o seminovo devorando o velho, aguardando o verdadeiro novo que pode aparecer se nossas elites não o impedirem a fórceps.

Daqui a algumas décadas, talvez, lembremos deste momento com requintes de crueldade: Bolsonaro destruiu o país, mas sem ele a Globo estaria aqui até hoje.

Menos mal.