De pés juntos, Santander jura não considerar que golpe militar seria melhor que eleição de Lula; “O conteúdo é avaliação de consultoria independente, que não censuramos”, defende-se banco espanhol; pegou mal

O banco Santander informou nesta 5ª feira (12.ago.2021) não ser sua a avaliação de que melhor seria um golpe de Estado do que a eleição do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva em 2022. Por meio de nota, a instituição disse que relatório com esse conteúdo é de autoria de uma consultoria independente e foi repassado a um “grupo restrito de investidores que necessitam embasar suas decisões em diferentes visões do cenário nacional“.

Eis a íntegra:

O Santander esclarece que o texto citado não corresponde, sob qualquer hipótese, a uma visão da instituição, que restringe suas análises econômicas a variáveis que impactem a vida financeira de seus clientes, sem qualquer viés político ou partidário. O conteúdo trata-se, tão somente, de avaliação feita por uma consultoria independente – que não censuramos e por cujo teor não nos responsabilizamos -, repassada a um grupo restrito de investidores que necessitam embasar suas decisões em diferentes visões do cenário nacional.”

A suspeita de que o Santander teria enviado a seus clientes relatório com esse conteúdo foi registrada hoje em reportagem da revista “Fórum”.

Em 2014, o banco havia enviado a seus clientes de alta renda um texto no qual dizia que o eventual sucesso eleitoral da então presidente Dilma Rousseff iria piorar a economia do Brasil. A análise havia sido impressa na última página do extrato dos clientes da categoria “Select”, com renda mensal superior a R$ 10 mil.

A explicação do Santander foi reconhecida pelo deputado Paulo Pimenta (PT-RS), por meio do Twitter. Pimenta havia criticado a instituição em um post, mas redigiu outro depois de ser contatado por executivo do banco.© Fornecido por Poder360

Poder360 apurou que, desta vez, a análise foi escrita pela CAC Consultoria Política, uma das empresas que enviam suas análises ao Santander. Um dos funcionários do banco, Victor Cândido, a encaminhou a usuários do terminal da Bloomberg por meio do sistema de mensagem. Cândido não faz parte da equipe do Departamento Econômico do banco, que é responsável pelas avaliações da instituição.

No seu texto, a CAC diz que “ninguém apoiará um golpe em favor de Bolsonaro, mas é possível especular sobre um golpe para evitar o retorno de Lula. Ele era inelegível até outro dia, por exemplo, pode voltar a sê-lo“. A consultoria foi fundada pelo cientista político José Luciano de Mattos Dias, em Brasília.

Ao Poder360, Dias confirmou que o Santander é um de seus clientes e costuma repassar suas análises. Afirmou que não emitiu uma opinião pessoal em favor de um golpe de Estado para que Lula não seja eleito. Mas explicou que o país está entrando em “um processo eleitoral que não é normal” e que o mercado financeiro precisa entender isso.

Para Dias, o  desfile militar de 3ª feira (10.ago) na frente do Palácio do Planalto, quando a Câmara dos Deputados se preparava para apreciar a PEC (proposta de emenda à Constituição) do voto impresso,  é sinal de que a quebra da ordem institucional está presente nas discussões em Brasília.

“É trágico a gente discutir isso. Mas essa tese está na boca de todo mundo”, afirmou.

Eis a íntegra (143KB) da nota “Sobre vários tipos de golpe“, da CAC Consultoria Política:

Um escritor alemão advertiu que a História, quando se repete, é como farsa e, ontem, o experimento do presidente Bolsonaro para repetir 1964 terminou como farsa, com seus blindados da Guerra do Vietnã e seus generais funcionários. Não há apoio social, nem apoio do establishment, nem radicalismo de esquerda para justificar uma aventura, que terminaria de forma melancólica com algumas prisões. Por fim, não há interesse do sistema político em um regime bolsonarista. 

Dito isso, é preciso reconhecer um problema na eleição de 2022: a perspectiva de retorno ao poder da máquina de corrupção do governo Lula. Basta comparar os esquemas de corrupção do Mensalão e do Petrolão com as aventuras cômicas de reverendos e militares da reserva tentando uma comissão na compra de vacinas pelo governo Bolsonaro. Os recursos desviados pelas máquinas políticas dos governos passados ainda não apareceram. Ou seja, se o sistema político e judicial, se o establishment político brasileiro acha cômico o governo Bolsonaro, o retorno de Lula e seus aliados representa uma ameaça bem mais séria. Hoje, Lira é o presidente da Câmara, mas sob um governo do PT, seria um modesto aliado abrigado em um cargo menor.