Com 62,3 milhões na inadimplência, País vê crescer categoria dos “novos reincidentes” em dívidas

Entre janeiro e maio, “os novos reincidentes”, que são as pessoas que conseguiram zerar suas dívidas em atraso mas voltaram à condições de inadimplentes pelo período de 30 dias, eram, em média, 27% do total de inadimplentes. No mesmo período de 2018, essa fatia estava menor, representava 24,9% do total de pessoas com dívidas vencidas e não pagas, segundo dados da Confederação Nacional de Dirigentes Lojistas e do SPC Brasil. Ou seja, os novos reincidentes estão crescendo e aumentando o contingente de 62,3 milhões de brasileiras com dívidas em atraso hoje.

Já o “reincidente velho”, aquele inadimplente que continuou na lista de devedores, deixou de pagar mais uma dívida no período e que responde pela maior parte do calote, reduziu sua participação. Entre janeiro e maio deste ano, esse grupo era 52,2% dos inadimplentes, em comparação a 54,4% no mesmo período de 2018. Enquanto isso, a participação dos inadimplentes que pela primeira vez ingressaram nessa lista ficou estável em 20,6%.

“Sentimos neste começo de ano um aumento mais acentuado desse movimento de pessoas que tinham conseguido sair da lista de inadimplentes e voltaram a não pagar em dia as dívidas”, diz Mariane Schettert, presidente do Igeoc, associação que reúne as 16 maiores empresas de telecobrança, que respondem por 20% do mercado.

Zigue-zague

Além de todo início de ano ser um período de aperto no orçamento por causa do acúmulo de contas a pagar, o que leva normalmente mais pessoas a se tornarem inadimplentes, neste ano esse movimento está mais forte por causa da estagnação da economia. O zigue-zague de quem conseguiu sair do sufoco em 2018 mas voltou a ficar inadimplente neste ano reflete também os altos e baixos da economia. Após crescer 1,1% em 2018, o Produto Interno Bruto caiu 0,2% no primeiro trimestre e frustrou as expectativas de empresários e consumidores.

A falta de reação da economia neste início de ano é nítida no desemprego, que se mantém em níveis elevados. São 13,2 milhões de trabalhadores fora do mercado. “A inadimplência anda de mãos dadas com o desemprego”, diz Mariane.

Genaro Silva Pimentel, 47 anos, ex-caixa de supermercado, é um exemplo dessa relação. Após um ano no emprego, ele foi demitido no mês passado. Pimentel estava há algum tempo no cadastro de inadimplentes. “Ia até acertar as contas, mas não deu tempo.” Agora, novamente desempregado e com uma rescisão de R$ 2,7 mil no bolso, ele acredita que vai conseguir bancar as suas despesas por mais dois meses, se não conseguir trabalho. “Devo ficar inadimplente mais ainda, não tem como.”

A renda estagnada, a perda de confiança da população e o aumento da inflação, especialmente de alimentos, que atingiu a maior marca em três anos no início de 2019, também contribuíram para o avanço do calote.

“O que mais afetou a inadimplência no início deste ano foi a inflação”, avalia o economista Luiz Rabi, da Serasa Experian, empresa especializada em informações financeiras. “A inflação dos alimentos, que atingiu 3,7% de janeiro a abril, bateu na baixa renda, que é mais vulnerável quando se fala de inadimplência.” Entre janeiro e maio deste ano, 238 mil famílias engrossaram o grupo dos 3,8 milhões de domicílios que estavam com contas atrasadas ao final de maio, destaca o economista-chefe da Confederação Nacional do Comércio, Fabio Bentes. No ano inteiro de 2018, 291 mil famílias se tornaram se tornaram inadimplentes.