Castello Branco, da Petrobras, explica por que cedeu à interferência de Bolsonaro: “Não dá para bancar ser o machão”

Em entrevista dada ao jornal O Estado de S. Paulo, o presidente da Petrobrás, Roberto Castello Branco, explicou como foi a interferência do presidente Jair Bolsonaro no reajuste do preço do diesel. Segundo ele, ficar refém novamente nas mãos dos caminhoneiros foi uma preocupação real de Bolsonaro. Para Castello Branco, a decisão de suspender o reajuste do diesel não compromete a credibilidade da companhia. “Acho que a preocupação do presidente com a greve foi legítima.”

O presidente da Petrobrás contou que estava no aeroporto do Galeão quando o Bolsonaro ligou. “Ele foi informado sobre o aumento do diesel e me alertou sobre uma possível greve dos caminhoneiros. Disse a ele que iria estudar o assunto e discutir com a diretoria para cancelar o aumento. Em seguida, liguei para a diretora de refino. Chegamos à conclusão que, diante do risco de uma greve, era melhor sustar o aumento e depois avaliar o que poderia ser feito”.


Castello Branco disse que em reunião com vários ministros na Casa Civil, no dia 15, foram discutidas várias ideias, inclusive, uma sugestão sua, sobre a indexação do contrato de frete ao preço do diesel. “Na terça-feira, várias medidas foram anunciadas. No mesmo dia, à tarde, tive reunião com o presidente Bolsonaro, Onyx Lorenzoni, Paulo Guedes, ministro almirante Bento Albuquerque (Minas e Energia) para explicar ao presidente como é a situação do diesel no Brasil”.

“Acho que a preocupação dele foi legítima”, continua o presidente da Petrobrás. “Fiquei preocupado com o risco de greve permanecer. A Petrobrás não pode subsidiar o preço do diesel, seria um problema para o Brasil e não resolveria o problema dos caminhoneiros. Sugeri que o reajuste seja feito só na alta. Temos outras ideias, que implica em gastos do governo como a compra de frota antiga, bolsa caminhoneiro e requalificação”.

Para ele a decisão de suspender o aumento não arranhou a imagem da Petrobrás para o investidor. “Se a Petrobrás tivesse mudado sua política, congelado os preços… Não perdemos um tostão porque efetuamos operação de hedge”. Porém, Castello Branco concorda que o mercado se assustou. “Sim e a queda das ações da Petrobrás repercutiu isso. Temos um passado muito ruim”. Segue ele, “a Dilma (Rousseff, ex-presidente) fez isso, (o mercado entendeu que) o Bolsonaro iria fazer, mas isso não aconteceu. Não estou aqui para defender, não sou político, mas acho que foi injusto com o presidente. A atuação dele foi no sentido de que havia um risco de greve. A comunicação, enfatizo, é muito importante. Toda a discussão foi por R$ 0,10”.

Mesmo lembrado de que as manifestações de 2013 começaram por causa de 20 centavos, o presidente da Petrobrás defende. “Sem dúvida. Mas não era por causa de 20 centavos. Era algo mais fundamental. Os nossos serviços públicos continuam sendo muito ruins”. Sobre sua interlocução com o presidente Bolsonaro e o ministro Paulo Guedes, Castello Branco explica: “Com o presidente, tive só esta reunião em que esclarecemos os pontos para ele. Com Guedes e o ministro almirante Bento, temos um diálogo muito bom, construtivo. Eles nunca fizeram menção de intervir na companhia. Sou livre para escolher todos os diretores e gerentes que quis, sem nenhuma intervenção”.

Sobre se o presidente teria uma visão menos liberal que a sua e da equipe econômica, disse que “o presidente é um político. Sou economista, assim como Guedes. Nós temos ideias convergentes. Concordamos em muita coisa, não 100% necessariamente”.

“Tenho preocupação com o fato de a Petrobrás ficar refém dos caminhoneiros, mas não quero que os eventos do ano passado se repitam. Foram ruins para a empresa”. “O presidente da Petrobrás saiu e a companhia ficou paralisada. Por isso, tenho sido ativo em fazer sugestões ao governo. Eu poderia ter dito não, que a Petrobrás é independente, o aumento está dado e vamos embora. Mas essa atitude não é construtiva. Não é porque a gente retarda o aumento por poucos dias que vai diminuir a credibilidade da companhia. Minha obrigação é defender a companhia. Não dá para bancar ser o machão. A gente tem de pensar e analisar os riscos”.