Bolsonaro volta a soprar seu clarim

Desabrida ou inconfessável, mas sustentada pelos despistes do porta-voz Rêgo Braga, sinais mistos dos boletins médicos e acirramento da luta interna entre alas governistas durante a internação em curso do presidente Jair Bolsonaro na ala de Semi-UTI do hospital Albert Einstein, em São Paulo, a torcida contra está perdendo. O dono da faixa presidencial vai dando a volta por cima. Com ele, todos os seus.

Em alguns dias, a julgar pelos primeiros efeitos dos antibióticos contra pneumonia ministrados a partir do alarme da febre e da confirmação pela tomografia, o presidente terá alta. Aos poucos, come de novo. Fala. Resgatou na face a cor de gente com saúde. Voltou a exercer o poder, haja vista a nomeação do general Jesus Corrêa para a chefia do Incra, no sábado 9.
Logo depois, no papel de governante compadecido, aliviou apenados com doenças graves. Talvez tenha sido usada, nestas demonstrações de recuperação, a emblemática caneta Bic.. O fato é que, teclando pelo Twitter, Bolsonaro avisou que, de novo, é ele quem manda.

Ao mesmo tempo em que a figura central do País recupera suas faculdades administrativas, o quadro político se mexe.

Já havia não poucas contas que davam Bolsonaro como prejudicado em relação ao exercício imediato do poder. Mas a partir da aparente melhora do quadro de saúde do presidente, o que se vai ter é bem diferente do que a simples retomada por ele do cenário anterior. O quadro é outro. Os 14 dias de internação contados até esse domingo 10 mudaram a conformação de muitas nuvens.

Quando vestiu o camisolão azul de paciente do Einstein, Bolsonaro não tinha visto as minutas de reforma da Previdência escritas pela equipe do ministro Paulo Guedes. Ao sair, terá de ‘bater o martelo’ a respeito.

Na véspera de deitar-se, pela terceira vez, à mesa de operação, o presidente capitão da reserva recebeu, como todos, a notícia da barbaridade de Brumadinho, e ainda teve tempo de ver a tragédia in loco horas antes de submeter-se à intervenção de sete horas, cuja previsão era durar no máximo três. Após ser internado, no entanto, o Brasil que ele tem para governar foi outra vez traumatizado pelos efeitos de seis mortes no temporal do Rio de Janeiro e, no momento seguinte, pela carbonização de 10 jovens atletas do clube de futebol mais popular do País, o Flamengo que operava seu Ninho do Urubu no mesmo diapasão em que a Vale tocava em Brumadinho e, antes, em Mariana: com desleixo.

Houve também no período soluções políticas coma a recondução de Rodrigo Maia na Câmara e a inovação, digamos, representada por Davi Alcolumbre, ambos do DEM, no comando do Senado. No terreno vizinho, da Venezuela, Nicolás Maduro não caiu, mas firme, firme não está.

O vice-presidente Hamilton Mourão, no tempo da internação que ainda se dá, deu novas dobras às mangas de sua camisa verde-oliva, arregaçando-as mais que antes. Encheu a própria agenda, fez contatos e ocupou o vácuo de poder que se abria. Agora, há de se observar o que ele fará.

O principal, porém, é saber em que tom Bolsonaro tocará o clarim da Presidência que ele acaba de retomar, na prática, em suas mãos. A escolha sobre uma dura, duríssima ou inaceitável, do ponto de vista dos trabalhadores, reforma da Previdência será o gesto mais esperado a partir de seu reestabelcimento completo. Incontáveis outros temas, públicos e ainda secretos, também irão depender da afinação escolhida pelo presidente para seu instrumento de mando.

Um Bolsonaro ainda mais palanqueiro, pragmático, ressabiado ou raivoso é o que irá se revelar em seus próximos movimentos.

O que há de concreto, para além dos ditâmes das torcidas do contra e do a favor, é que o presidente está mesmo voltando. Para quem já vislumbrava uma reviravolta pronta, os cálculos terão de ser refeitos.

É como se com suas canetadas e tuitadas do sábado 9, à luz de um boletim médico otimista, Bolsonaro, à la Zagalo, dissesse: Vocês vão ter de me engolir!”

Marco Damiani, editor de Br2pontos