Bolsonaro convidou generais Silva e Ramos para ato por golpe militar no domingo; ministro da Defesa e secretário de Governo recusaram; estratégia remete à de Frota contra Geisel em 1977

BR: Para dar um golpe dentro do golpe, em 12 de outubro de 1977, o então ministro do Exército, general Silvio Frota, convidou os generais do Alto Comando do Exército para uma reunião com ele, em Brasília, ao mesmo tempo que o presidente Ernesto Geisel fazia a mesma convocação para um encontro no Palácio do Planalto. Geisel foi atendido e Frota se viu sozinho, sendo exonerado no mesmo dia por tentativa de derrubar o presidente da República. Ele tinha como chefe de Gabinete o atual chefe do Gabinete de Segurança Institucional, general Augusto Heleno.

Quarenta e três anos depois, no último domingo, a mesma estratégia de convite a generais para participar de um evento simbólico de adesão ao início de um processo de golpe militar aconteceu. Segundo o colunista Merval Pereira, do Globo, o presidente Jair Bolsonaro convidou o ministro da Defesa, general Fernando Azedo e Silva, e o ministro-chefe da Secretaria de Governo, general Luiz Eduardo Ramos, para acompanhá-lo até a porta do QG do Exército, em Brasília, em adesão a uma manifestação que pedia a volta do AI-5, o fechamento do Congresso e do STF e uma completa intervenção militar no País. Silva e Ramos recusaram o convite, assim como o Alto Comando fizera com Frota em 1975, garantindo com a ausência a estabilidade do regime militar presidido por Geisel. Agora, a recusa dos dois generais ao convite de Bolsonaro representou o passo atrás do Exército em relação a um presidente que procurava golpear a democracia.

É difícil não enxergar as digitais do general Augusto Heleno nas duas convocações frustradas, tanto a do antigo ministro do Exército como a do atual presidente. O certo é que, em ambas as iniciativas, os movimentos se deram claramente na direção de um golpe militar. Tanto o de Frota como o de Bolsonaro.

Acompanhe a coluna de Merval Pereira, publicada na edição de hoje do Globo:

Golpe frustrado

O ministro da Defesa, general Fernando Azevedo e Silva, e o ministro-chefe da Secretaria de Governo, general Luiz Eduardo Ramos, recusaram o convite de Bolsonaro para acompanhá-lo à manifestação antidemocrática de domingo em Brasília, frustrando a tentativa do presidente de dar ares de apoio dos militares à sua presença. Eles avaliaram que Bolsonaro deu um passo em falso.

O presidente Bolsonaro tentou dar ares de apoio dos militares à sua presença na manifestação antidemocrática que avalizou no domingo em Brasília, mas soube, antecipadamente, que a área militar se incomodava com a escolha como moldura de uma ação política o Forte Apache, como é conhecido o Quartel-General do Exército.

Ele convidou para acompanhá-lo o ministro da Defesa, general Fernando Azevedo e Silva, e o ministro-chefe da Secretaria de Governo, general Luiz Eduardo Ramos, que recusaram, por considerarem que a presença deles sugeriria que o Exército avalizava a manifestação.

Por ser político, os generais consideram que Bolsonaro tem o direito de participar de manifestações políticas, mas, diante da repercussão negativa, avaliaram que o presidente deu um passo em falso ao convalidar as reivindicações antidemocráticas.

Por isso tiveram uma reunião com ele na noite do mesmo domingo, onde ficou combinado que Bolsonaro falaria no dia seguinte para desfazer o clima político tenso, e à noite o Ministério da Defesa deu uma nota oficial garantindo que as Forças Armadas obedecem à Constituição.

A frase proferida por Bolsonaro na manhã de segunda feira — “Já estou no poder, por que daria um golpe?” —foi dita a ele na reunião de domingo.

A investigação já em curso no Supremo Tribunal Federal (STF) sobre as fake news cruzará inevitavelmente com o novo inquérito aberto sobre as manifestações antidemocráticas, pois tudo indica que os mesmos que orquestram as notícias falsas contra os que consideram adversários políticos são os que organizam e financiam essas manifestações que pedem a intervenção militar e o fechamento do Supremo e do Congresso.

A piada do dia entre os parlamentares é que os sorteios no Supremo Tribunal Federal (STF) estão sendo feitos pela mão de Deus, como o gol do Maradona. O inquérito sobre as manifestações antidemocráticas caiu, no sorteio eletrônico, para o ministro Alexandre de Moraes, o mesmo que já preside o inquérito sobre as fake news contra o STF. E o pedido do deputado Eduardo Bolsonaro para impedir a prorrogação da CPI das Fake News no Congresso foi para o ministro Gilmar Mendes, um dos mais ferrenhos combatentes das fake news, e que tem assumido publicamente posições vigorosas contra as reivindicações ilegais de intervenção militar. A tal ponto que retuitou uma declaração de outro ministro do STF, Luís Roberto Barroso, não exatamente seu amigo, repudiando os que pedem a volta do AI-5 e da ditadura militar.

O inquérito das fake news já existe há um ano no Supremo, e recebeu muitas críticas pela maneira como foi criado, em regime de sigilo como o de agora, e sem a participação da Procuradoria-Geral da República. Está mais avançado do que o procurador-geral atual, Augusto Aras, gostaria.

Ele pediu a abertura de um inquérito para investigar os atos antidemocráticos, mas excluiu o presidente Bolsonaro do rol de suspeitos de os incentivarem, provavelmente para cacifar-se à vaga do Supremo que se abre em novembro com a aposentadoria do ministro Celso de Mello.

Mas bastará um parlamentar, ou associação da sociedade civil, requisitar ao ministro Alexandre de Moraes que inclua Bolsonaro no inquérito que o pedido será encaminhado pelo Supremo à PGR, criando um constrangimento que possivelmente impedirá a não aceitação.

O inquérito do ministro Alexandre de Moraes já tem uma relação de 10 a 12 deputados bolsonaristas, mais empresários, que tiveram o sigilo quebrado, e a Polícia Federal estava a ponto de fazer busca e apreensão em seus endereços quando veio a quarentena.

Com o novo inquérito, dificilmente vai dar para parar a investigação, que já teria identificado o chamado “gabinete do ódio” que funciona no Palácio do Planalto como a origem das fake news, e poderão surgir dados que liguem esse grupo palaciano, coordenado pelo vereador Carlos Bolsonaro, à organização dessas manifestações ilegais.

O procurador-geral da República, Augusto Aras, conversou ontem com o ministro Alexandre de Moraes e deverá receber um relatório sobre as investigações das fake news no início da próxima semana.

A investigação original é sobre o STF, mas há indícios de que está tudo ligado. A Polícia Federal deve manter os mesmos policiais que já estão trabalhando no inquérito das fake news, para dar mais agilidade às investigações.