Bebbiano deu nó tático em Bolsonaro

Br2Pontos_ O presidente Jair Bolsonaro não deve esquecer tão cedo as lições encerradas no verdadeiro nó tático que lhe foi aplicado pelo ministro Gustavo Bebbiano – pacífico faixa preta de jui-jitsu que sabe, portanto, usar a afobação do adversário a seu favor.

Ao decidir seguir o filho Carlos primeiro na declaração e, ato contínuo, no movimento de guerra, Bolsonaro o fez em seu pior momento. Quem já tomou sabe – e desse universo fazem parte, todos os dias, milhões de pessoas no Brasil – que os antibióticos matam vírus e bactérias, mas como efeito colateral tiram força e disposição do usuário. Para não deixar o 02 à própria sorte, o presidente desceu de seu posto bem acima das questões menores e decidiu proteger-lhe. Empolgado, julgando estar em vantagem absoluta sobre a mentira de igual quilate, na entrevista à Rede Record, na noite da quarta-feira 13, quando faria melhor se estivesse dormindo, tomou a frente de seu soldado familiar com o disparo da “volta às origens” sobre o inimigo. Fez esse avanço impensado num momento de natural debilidade física, praticando seu contumaz voluntarismo em lugar de estar acumulando forças, e não gastando as poucas que reunia.

Como sabem os generais, ir à guerra implica em preparação. Medir as próprias qualidades, o ânimo da tropa, as condições do terreno, as chances de contar com reforços. E também procurar entender o inimigo, estudar suas potencialidades e debilidades, julgar-lhe a capacidade de somar alianças. Mas Bolsonaro é capitão, e seguiu seu instinto de levar a primeira decisão de ataque adiante, sem considerar os fatores que iriam balizar e, por fim, decidir a luta. Não é general.

Sem nenhum motivo para hastear a bandeira branca, entregar-se e sair vivo, mas sem cargo e poder, da cena de batalha, Bebbiano, acertadamente, posicionou-se na defesa, em seu hotel, e foi dissipando, uma a uma, as cargas adversárias. Proporcionando, primeiro, uma chance de trégua ao inimigo, quando se dispôs a dar detalhadamente a jornalistas sua versão sobre os casos dos laranjais do PSL, eximindo-se de responsabilidade. Sem eco no outro campo, que avisava que não aceitaria menos que sua rendição, Bebbiano elegantemente subiu o tom. Deixou vazar, por amigos, que sua aniquilação não seria do interesse do próprio Bolsonaro porque, afinal, “não se dá um tiro na nuca do seu próprio soldado”.

Não adiantou. Do campo estridente e belicoso dos Bolsonaro chegaram novas mensagens que incluíam até prazos para a rendição, sob pena de marcha sem freios para não menos que massacrar, a exoneração com requintes de crueldade. O empresário Diogo Mainardi, do sítio O Antagonista, transmitiu, às vésperas da previsível derrota dos agressores de Bebbiano, que o ministro teria até a segunda-feira 18 para entregar suas armas. Isso ou morte.

Com o recado registrado, finalmente o potentado agredido foi ao arsenal e de lá trouxe uma de suas armas. “Se eu cair, Bolsonaro cai junto”, detonou Bebbiano, mostrando que sabia usar a bomba atômica que o presidente, pelo jeito, esqueceu que o oponente aninhava. Como explicou a jornalista Helena Chagas, do portal Os Divergentes, o ministro é detentor de to-dos os segredos da campanha presidencial de 2019, entre eles o modo como, aliado ao inimigo de agora, ambos tomaram para si a cidadela do PSL, com uma infantaria calculada em 12 milhões de soldados, para deste monte estratégico dizimar as desorganizadas tropas do PT – que não tinham seu general Lula, preso – e assaltar o País via voto de 33% do eleitorado.

Não faltaram avisos para que o presidente recuasse a tempo de fazer o gesto de modo honroso. O chefe da Casa Civil, Onyx Lorenzoni, avisou. A deputada Joice Hasselmann, ela própria com pendores a incendiária, fez as vezes de bombeira. O vice-presidente Mourão não poderia ter sido mais claro ao mostrar os benefícios de uma trégua.

Pergunta-se: como Bolsonaro foi se esquecer que o inimigo tinha essa bomba atômica para seu uso pessoal em caso de necessidade?

Talvez em razão do efeito colateral dos antibióticos. Ou por ser um capitão que só sabe comandar o ‘em frente, marche!’.

O certo é que Bebbiano, protegido por grande número de aliados qualificados, que não negaram fogo para blindá-lo – do general, aí sim, Mourão, ao presidente da Câmara Rodrigo Maia – apenas ameaçou tirar a capa de sua arma mais poderosa – o bastante para o exército de dois se dividir. O chefe mantendo-se ocupado no Palácio da Alvorada, o ajudante de ordens, que quis dar uma de artilheiro, recuando para o Rio de Janeiro distante dos acontecimentos.

Bolsonaro sai dessa batalha bem mais fraco e exposto do que entrou. Bebbiano vira um intocável dentro Palácio do Palácio do Planalto.

Carlos, apelidado pitbull, vai lamber suas feridas e parar de latir por um bom tempo.

Por Marco Damiani, editor de Br2Pontos