BBC: ataques a tiros no Texas e em Ohio têm classificação de “terrorismo doméstico” por autoridades dos EUA

A cada novo ataque a tiros nos EUA a pergunta se repete: alguma coisa vai mudar depois disso?, questiona texto da BBC Brasil desta segunda-feira 5.

Entre os ativistas por um maior controle de armas nos Estados Unidos país existe uma certa resignação quando uma nova tragédia ganha as manchetes. A ideia é que, se a opinião pública não exerceu pressão suficiente em 2012, no episódio do massacre em Newtown, quando 26 pessoas, incluindo 20 crianças, foram mortas em uma escola em Connecticut, dificilmente o fará desta vez.

Algumas particularidades do momento atual, entretanto, podem fazer com que os ataques em El Paso, no Texas, e em Dayton, no Estado de Ohio, tenham desfecho diferente.

Nacionalismo branco

As causas apontadas para os ataques a tiros mais recentes nos EUA são várias, de juventude rebelde nos casos envolvendo escolas em Parkland, na Flórida, e em Santa Fe, no Texas, e distúrbios mentais, no episódio do ataque a um jornal em Annapolis, Maryland, a frustrações ligadas ao trabalho (caso do massacre em Virginia Beach) e brigas familiares, apontada como possível motivação para o massacre em uma igreja em Sutherland Springs, no Texas.

O mais mortal desses incidentes, o tiroteio em uma casa noturna em Las Vegas em 2017, que deixou 58 mortos, ainda não tem uma motivação concreta clara.

No caso deste fim de semana, entretanto, todas as evidências indicam que o massacre em El Paso foi uma ação premeditada e alimentada pela retórica do nacionalismo branco que tem ganhado cada vez mais destaque na política americana.

E, nesse sentido, ele se aproxima tanto do ataque a tiros a uma sinagoga em Pittsburgh no último mês de outubro, que provocou discussões sobre o aumento do antissemitismo nos EUA, quanto dos episódios de violência em uma marcha de supremacistas brancos em Charlottesville em 2017, uma demonstração chocante de força desse movimento.

Supremacistas brancos em marcha realizada em Charlottesville em 2017: após condenar os atos, presidente recuou e disse que culpa era 'dos dois lados'

© Getty Images Supremacistas brancos em marcha realizada em Charlottesville em 2017: após condenar os atos, presidente recuou e disse que culpa era ‘dos dois lados’

Ainda que a autoria do manifesto racista postado na internet pouco antes dos ataques e atribuída ao suspeito de ser o atirador, Patrick Crusius, ainda tenha que ser confirmada, alguns fatos importantes sobre o caso devem ser levados em consideração.

O atirador não realizou o ataque em sua cidade natal – mas dirigiu por pelo menos oito horas, do norte do Estado do Texas à cidade que está a poucos quilômetros da fronteira com o México, e abriu fogo em uma área sabidamente frequentada por hispânicos.

Por essa razão, as autoridades locais estão caracterizando o caso como um episódio de “terrorismo doméstico”.

Isso coloca o incidente no centro do atual debate nos EUA sobre imigração, segurança de fronteiras e identidade nacional. Os americanos costumavam se perguntar o que levavam jovens em outras partes do mundo a se envolverem em atos de violência política contra inocentes. Agora vêm o fenômeno acontecer no próprio país.

A natureza do ataque em El Paso pode desencadear uma reflexão sobre a ameaça doméstica representada por grupos nacionalistas brancos e sobre caminhos para frear o avanço desses movimentos – inclusive medidas de controle de venda e compra e de posse e porte de armas.

Desta vez, além de manifestações de políticos do Partido Democrata, vozes mais conservadoras também protagonizaram as críticas.

Senador pelo Texas, Ted Cruz, que concorreu contra Trump nas prévias republicanas das eleições presidenciais de 2016, condenou a “intolerância contra os hispânicos” do atirador e chamou o episódio de “um ato hediondo de terrorismo e supremacia branca”.

O comissário do Escritório Geral de Terras do Texas, George P Bush, filho do também pré-candidato repúblicado à presidência em 2016 Jeb Bush, publicou uma declaração afirmando que “terroristas brancos” são “ameaça real e atual”.

Se a ideia de que o nacionalismo branco representa uma ameaça se tornar consenso, a questão passará a ser como confrontá-lo.