Aguardando cartas – o jogo eleitoral em São Paulo; artigo

Por Dolores Gasperini para o Br2pontos

Resolução da Executiva Nacional do PT determinou que os nomes dos candidatos do partido às prefeituras serão definidos no âmbito de seus diretórios municipais. Recursos à decisão, de pré candidatos e um conturbado processo de prévias interrompidas, indicam que, no caso de São Paulo, poderá haver uma cisão do partido apontando para possíveis dissidências no futuro processo eleitoral municipal.
O Diretório municipal do PT paulistano é atualmente controlado por Jilmar Tatto. Este detém 70% de seus delegados e já vinha sendo apresentado por Gleisi Hoffman e Luis Marinho (presidentes nacional e estadual do partido ), como o nome petista que irá às urnas eletrônicas de outubro. Ou de dezembro. Ou do ano que vem. Explica-se. Em razão do grosso nevoeiro baixado com o coronavírus, ninguém é capaz de enxergar se o pleito municipal vai mesmo ter seu primeiro turno em ‪4 de outubro‬.
Futuro presidente do TSE, o ministro Luiz Roberto Barroso já falou em “talvez dezembro” para a ida às urnas, enquanto chefes do centrão levaram ao presidente da Câmara, Rodrigo Maia, a ideia de marcar a data da disputa para fevereiro de 2021.
A intenção seria garantir no Orçamento do próximo ano a bilionária verba do fundo eleitoral que o juiz Catta Preta, de Brasília, dirigiu este ano para o combate à Covid-19. Maia, em videoconferência  com seu grupo ampliado, deplorou a iniciativa de não haver eleições em 2020, chegando a engrossar a voz para lembrar que adiamentos recairiam à perfeição para o presidente Jair Bolsonaro que poderia também querer requerer uma ‘esticadinha’ em seu próprio mandato. Assim como Barroso, Maia aceita que as municipais sejam, no máximo, adiadas para dezembro.
No xadrez das composições o PT seria o  maior perdedor. Pesquisas indicam que a polarização direita e esquerda está tendendo a ser deixada para trás, o que, em se confirmando, deixará  a legenda de Lula ainda mais enfraquecida na Capital. 
O futuro candidato Jilmar Tatto representaria a sinalização de um PT voltado para dentro de suas próprias entranhas, mais preocupado em explicitar e resolver disputas internas do que realmente focar a possibilidade de concorrer, em alianças, com chances de vitória. Mostrou-se, neste processo, avesso ao diálogo e não mostrou nenhum esforço em somar forças em torno de sua candidatura.
Quando perguntado sobre as razões que teriam levado Lula a ser conivente com a condução do sectarismo e auto isolamento, declarou um petista experimentado : “ O Lula sempre teve muita dificuldade ao tratar de escolhas que pudessem interferir em outros processos de sucessão”. No caso de São Paulo, deixar caminhar para uma candidatura, digamos, estreita e menos robusta, qual seria o sentido ou razão ? Arrematou o interlocutor : “são razões que a própria razão desconhece”.
Para agravar o conjunto dos problemas do PT, tem-se que o ex-prefeito Fernando Haddad trocou a chance, ou foi trocado,  de disputar e despontar no cenário nacional para manter-se em posição praticamente anulada. A verdade, ao contrário do que se pensa, a realidade é que Haddad foi rifado. Registre-se que, recentemente, aquele que representou Lula e o PT nas eleições presidenciais, obtendo 45% dos votos dos brasileiros, foi hostilizado por Gleisi e Marinho ( dirigentes da total confiança de Lula ) ao ser deixado de fora até mesmo na montagem do Diretório Nacional do PT.
A par das agruras da opção petista, decisão que deverá ser consolidada no próximo dia 30/04, segmentos internos do partido relutam em aceitar a candidatura de Jilmar Tatto.
“O PT encontra-se totalmente perdido”, diz outro dirigente, entre aqueles que também foram  tratorados por Gleisi, entenda-se Lula. Agrupamentos que historicamente se opõem a Tatto  defendem o apoio à ex prefeita Marta Suplicy como candidata fora do PT, agora no Solidariedade. Outros ainda nutrem a esperança de que Tatto, depois de escolhido candidato, possa vir a abrir mão de sua pré candidatura para se compor como vice da ex Senadora. Difícil de acontecer, improvável, sobretudo em função da cultura hegemônica do PT e dos interesses de Lula por Jilmar não aparentes e ainda não revelados.
No lado oposto do processo eleitoral, articulações que nascem na Fiesp, têm o sinal verde do Palácio do Planalto e, nominalmente, envolvem Gilberto Kassab e o ex-tucano Andrea Matarazzo. Coordenado pelo titular da nababesca estrutura piramidal da avenida Paulista, Paulo Skaf, hoje no MDB, e pela atilada raposa política Gilberto Kassab, presidente do PSD, Matarazzo desponta como a opção das forças bolsonaristas para disputar contra Covas/Doria e PT.
Andrea ainda um ilustre desconhecido, assim indicam as pesquisas, não tem  conseguido pontuar nada alem de 3% nos levantamentos.
Para reforçar a possibilidade de um aliado no segundo turno, fontes ligadas ao “capitão das indústrias” e ao “capitão do Planalto”, revelam uma aproximação deles a Márcio França. O plano seria fazer uma composição com o ex Governador com o foco central na sua especialidade : incorporar o anti-Doria nesta eleição. Afinal, Marcio teria sido quem melhor encarnou o enfrentamento à Doria e, portanto, aquele que, em tese, teria as melhores condições de novamente cumprir essa tarefa.
Tendo em vista o maior peso político e eleitoral de França em relação à Matarazzo, não são poucos os que vêm com simpatia e até defendem a chapa com Márcio na cabeça da chapa com Matarazzo na vice.
Diante do chove não molha do apresentador José Luiz Datena, cristão novo no MDB mas que faz que vai, não vai, retorna e depois dá meia volta, Skaf e Kassab passaram a avaliar que uma aliança de centro-direita com chances de ir para o segundo turno poderia ser concentrada na dupla em questão. Recursos não seriam problema. Ao contrário, são vistos como solução de continuidade para as conversas.
Márcio França, por outro lado, reluta e ainda tem dúvidas sobre esse caminho, por isso selou uma aliança com o PDT de Lupi e CIro, como também tem conversado com outras forças. Quando questionado sobre essa hipótese, minimizou  declarando acreditar que Bolsonaro não deverá envolver-se no processo eleitoral paulistano e que ele, Márcio, seguirá trabalhando por uma chapa de centro esquerda que ocupe parte do espaço deixado pelo estreitamento da candidatura petista, e ao mesmo tempo, indicando sinais claros de oposição às atuais gestões municipal e estadual do PSDB.
O outro nó da intrincada sucessão paulistana encontra-se na definição do futuro candidato a vice de Bruno Covas. Inicialmente, a sugestão de Doria sugerindo o nome de Joyce Hasselman fracassou. Foi vista como oportunista pelas hostes Covistas e classificada como uma proposta  “sem escrúpulos” por familiares do prefeito. Depois chegou a ser aventada a formula de Celso Russomano como vice de Bruno, mas também não prosperou em função de tratarem-se de perfis “muito distintos”. Mais recentemente, com Datena ( MDB ), sempre tido como um candidato “instável”, inicialmente posicionado nas hostes pró Bolsonaro, acabou de declarar-se praticamente fora do jogo. Outras alternativas aventadas seriam um filho de Milton Leite ou Claudio Lotemberg, recém filiado ao DEM, também cogitado para a recente sucessão do Ministro Mandetta na saúde, prontamente vetado por sua ligação estreita com o Governador Dória. 
Bruno continua à procura de um vice e encontra-se aberto para outras opções. Tende por um perfil mais à esquerda, progressista, preparando-se para um  provável  enfrentamento à direita e à esquerda. Alguém que possa reforçar a passagem para o segundo turno, que some e agregue forças depois. Sobretudo se tiver que enfrentar outra força que não seja o PT que poderá estar com as chances diminuídas de estar no segundo turno em função de seu enfraquecimento. Ao mesmo tempo a necessidade de não perder espaço para Marta Suplicy e  Marcio França, sobretudo em relação aos votos populares na periferia da cidade.
Diante da uma possível mudança conceitual e prática nas relações sociais e políticas, sobretudo em função do pós crise do Coronavírus, e as implicações que isso poderá trazer a nível do sentimento na população da necessidade de somar forças para a reconstrução econômica e moral da cidade, abriu-se, muito recentemente, a discussão sobre a possibilidade e perspectiva de Bruno, e o PSDB, passarem a trabalhar a construção de uma Frente política mais ampliada ao centro e à esquerda, fato que poderia deixarem mais espremidos e isolados o PT, de um lado, e Bolsonaristas, de outro. A oportunidade de apostar numa frente democrática e progressista, que além de forte e competitiva eleitoralmente, pudesse também expressar simbologia e significado do que será necessária para, a partir de agora, enfrentar as dificuldades para a reconstrução do Brasil.
Como costuma dizer Bruno Covas, a definição de seu vice terá que ser amadurecida e quem definirá será o próprio processo. “Nada de precipitação neste momento”., palavras dele. Trata-se de priorizar perfis e não nomes. O desafio de delinear-se a moldura do quadro à qual futuramente serão avaliados os melhores figurinos que se encaixem. Partiu de profissionais experimentados  do marketing  e pesquisas, a possibilidade de serem iniciados levantamentos testando o nome de Bruno Covas ao lado de Marta Suplicy nesta eleição. Especulação ? Sonho ? Fantasia ? Ainda distante da cogitação daqueles que costumam percorrer os corredores do Palácio Matarazzo, o nome de Marta Suplicy não poderia ser descartado, segundo esses especialistas. Poderia vir a ser uma cartada surpreendente e arrojada por parte do atual prefeito. Precederia, sem dúvida, o aval do DEM ( Milton Leite e Rodrigo Garcia ), bem como do apoio do Governador Dória, a quem poderia ser colocada a oportunidade de mostrar ao Brasil uma capacidade inusitada de agregação política, apontando, assim, para a construção de uma inédita Unidade Democrática e progressista em torno de Bruno Covas, seu candidato, o que fortaleceria seu nome para o desafio de unir o Brasil em 2022.
Entre as análises e conjecturas feitas sobre as  composições desta eleição, existem algumas unanimidades. Uma delas a existência de três grandes players sentados à mesa do jogo eleitoral de São Paulo : Lula, Dória e Bolsonaro.
Analistas também encontram convergência na constatação da possibilidade do surgimento de uma nova força que poderá alterar essa correlação de forças. A ampliação do leque para um quarto lugar à mesa. Marta Suplicy ao lado de Marcio França. Ela tendo rompido com o PT, ainda com influência em parte de seu eleitorado, presença eleitoral e representatividade nas franjas e fundões periféricos de São Paulo. Ele por ter sido o baluarte do anti Doria nas últimas eleições. Enfrentou com galhardia, e de igual para igual, o adversário, só não se saindo vencedor em função da onda Bolsodoria. Ambos, juntos, podendo atrair outras forças do centro democrático com o envolvimento de Ciro Gomes e Flavio Dino. Estes os players que viriam à mesa do jogo eleitoral paulista ocupando, ao lado dos candidatos, o quarto lugar da mesa onde já se encontram Lula, Doria e Bolsonaro.
Essa composição de Marcio com Marta, através do PSB, Solidariedade, PDT e PCdoB, com eventuais possíveis apoios do PMN, PROS, AVANTE e PP,  poderá vir a ser o fato novo neste processo eleitoral.
O momento politico mostra que ainda temos um quadro muito indefinido, de todos os lados. Além da incerteza do calendário eleitoral. Como se vê, tudo poderá acontecer. Os principais players já estão posicionados, outros poderão conquistarem seus lugares. Independente dos formatos que assumirão as alianças e coligações que serão formadas, elas deverão ter uma forte influência dos possíveis  cenários e destinos da política brasileira.
No contexto do jogo eleitoral paulistano, só uma certeza: a hora é de aguardar cartas.

Dolores Gasperini é cientista política e socióloga