1.000 dias sem solução; morte de Marielle Franco completa data que envergonha País; crime sem mandante identificado

O assassinato da vereadora Marielle Franco completa nesta terça-feira, 8, mil dias. Uma das vereadoras mais votadas do Rio de Janeiro nas eleições de 2016, com mais de 45 mil votos, Marielle foi morta a tiros na noite de 14 de março de 2018, quando saía de um debate na Casa das Pretas, no centro do Rio. O carro em que ela e o motorista Anderson Gomes estavam foi emboscado no bairro do Estácio, quando seguia para a casa de Marielle.

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Mural em homenagem a Marielle Franco, em São Paulo
14/03/2020
REUTERS/Amanda Perobelli
Mural em homenagem a Marielle Franco, em São Paulo 14/03/2020 REUTERS/Amanda PerobelliFoto: Reuters

Nascida e criada na Favela da Maré, ativista de direitos humanos, engajada na luta antirracista, nas pautas feministas e nas causas LBBTQIA+, Marielle era muito atuante na Câmara dos Vereadores em seu primeiro mandato. O crime rapidamente ganhou as manchetes em todo o mundo, não apenas por ser um ataque à democracia e às bandeiras defendidas pela parlamentar, mas também por marcar um novo patamar de atuação do crime organizado no País.

Mobilizada pela repercussão, a opinião pública passou a cobrar das autoridades a resposta para duas perguntas essenciais: quem matou Marielle e Anderson? Quem mandou matar?

A investigação conseguiu responder à primeira pergunta. O policial militar reformado Ronnie Lessa e o ex-PM Élcio Queiróz estão presos, acusados, respectivamente, de disparar a arma e de dirigir o carro que emboscou a vereadora e seu motorista. No entanto, não há resposta para a segunda pergunta. Os mandantes não foram ainda descobertos, tampouco o motivo do crime.

Atualmente, a principal linha de investigação da Polícia Civil e do Ministério Público do Rio é que o crime teria sido contratado por políticos ligados à milícia – que já domina um terço da cidade – em uma vingança contra o atual deputado federal Marcelo Freixo, um dos principais nomes do PSOL. Marielle trabalhou durante uma década no gabinete de Freixo e era sua amiga pessoal. Há 12 anos, Freixo coordenou a CPI das Milícias, na Assembleia Legislativa do Rio, que expôs a facção criminosa e resultou em várias prisões.

Nesta entrevista, a irmã de Marielle, Anielle Franco, fala sobre a demora das investigações e sobre o trabalho no instituto que criou para dar continuidade ao legado da irmã.

Mil dias depois do crime seguimos sem muitas respostas. Como você avalia as investigações?

O que a gente sabe é o que sai na mídia. A gente segue com esperança, claro. Mas são mil dias de um crime muito bruto e muito bem arquitetado. Mil dias de muita saudade. Esperamos que os presos (Ronnie Lessa e Élcio Queiróz) deem alguma pista sobre o mandante. Estivemos ontem (sexta-feira, 04) com as promotoras que estão à frente do caso. Elas não revelaram nenhuma novidade, mas queriam dizer que seguem trabalhando.

Toda a investigação corre em sigilo de Justiça. Mas ao longo desses mil dias, eventualmente, a imprensa revelou diversas descobertas importantes da polícia e do MP. Recentemente, foi lançado o livro “Mataram Marielle”, dos jornalistas Chico Otávio e Vera Araujo, sobre os bastidores da investigação. Toda essa exposição do caso ajuda ou atrapalha?

Olha, por um lado ajuda muito, porque o caso não cai no esquecimento. Mas acho que se algumas coisas não tivessem sido divulgadas, tivessem realmente ficado em sigilo, talvez não tivesse atrapalhado uma parte da investigação, alertado determinadas pessoas. Acho que atrapalha um pouco sim.

A desembargadora Marília Castro Neves se tornou conhecida em todo o País por publicar ofensas à Marielle Franco, dias depois do assassinato. Embora tenha sido condenada a pagar uma indenização por danos morais à família, ela acaba de ser eleita integrante do Órgão Especial do TJ. Como vocês viram essa promoção?

Não nos surpreendeu muito. Vivemos em um país que, neste momento, quanto mais sem escrúpulos você for, mais alto é o cargo que você ocupa. Nem comentei nada, nem postei nada sobre esse assunto porque eu não quero dar palanque. Uma mulher que fala o que ela falou (logo depois do crime, a desembargadora postou que Marielle tinha sido eleita pelo tráfico), que esteve cara a cara com a minha mãe, e nem pediu desculpas. Prefiro ignorar essa pessoa, não quero perder tempo com isso.