“Mesmo com discurso autoritário, Bolsonaro é o que temos até 2022”, dispara Maia para ferir presidente – não para derrubar

O presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), admitiu que o radicalismo das falas do presidente Jair Bolsonaro atrapalha a tramitação de projetos no Congresso. Essa foi uma das várias críticas ao presidente, feitas por Maia nesta quinta-feira. Segundo ele, Bolsonaro é “produto dos nossos erros”.

“Bolsonaro é produto dos nossos erros. Onde nós erramos? Deputado sem partido, escanteado por todos, resultado do ciclo dos últimos anos”, disse Maia, em um evento organizado pela Fundação Lemann, em São Paulo, do qual também participaram o deputado federal Alessandro Molon (PSB-RJ) e o governador do Maranhão, Flávio Dino (PCdoB). “Bolsonaro era de um p artido nanico. Se ele chegou onde chegou a culpa é nossa”, acrescentou o presidente da Câmara durante o evento.

Maia disparou ainda contra o ministro da Justiça, Sergio Moro. Para ele o projeto anticrime de Moro, acaba abordando vários temas, mas sem tratar de assuntos que são mais urgentes no momento. “Precisava ser um projeto mais forte. Uma reforma geral no sistema prisional. Isso seria uma resposta mais forte à sociedade. O projeto do Moro é um projeto que abrange várias áreas e mistura crime do colarinho branco com crime organizado”, avaliou.

Para Maia, a forma radical de Bolsonaro de abordar temas polêmicos acaba por atrapalhar a tramitação dos projetos que ele próprio defende, uma vez que afasta o apoio de parlamentares indecisos. “A vocalização dos temas (da agenda de valores) de forma muito dura acaba atrapalhando a própria tramitação dos projetos.  O radicalismo do discurso, essa vocalização mais dura, assusta alguns deputados que poderiam estar dispostos a olhar o tema”, continuou o parlamentar durante a participação no 2º Macro Day BTG.

Maia afirmou ainda que, embora o governo federal tenha apoio para a sua agenda de reformas econômica, na pauta de valores essa maioria não existe. “Me dá a impressão que ele não tem maioria nessa agenda de valores. E claro que qualquer presidente gostaria de ter maioria em todos os temas”, disse, afirmando que sua relação com Bolsonaro melhorou nas últimas semanas, e que as conversas entre os dois estão mais frequentes.

Segundo Maia, nem todas as pautas propostas pelo governo federal vão avançar na Câmara. Como exemplo, citou as mudanças para o porte de armas, que deve encontrar resistência no parlamento, e as inciativas para retirar a obrigatoriedade do uso de cadeira de segurança para crianças.

O presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), afirmou nesta quinta-feira, 8, que, “mesmo com discurso autoritário”, o presidente Jair Bolsonaro foi eleito de forma democrática e “é o que temos até 2022”. “Como defendemos a democracia, Bolsonaro é o que temos até 2022. Mesmo com discurso autoritário, ele sempre foi eleito pelas urnas, desde os tempos de parlamentar até a presidente”, disse Maia, em debate promovido em São Paulo pela Fundação Lemann, financiada pela família do empresário Jorge Paulo Lemann.

Segundo o presidente da Câmara, “cabe ao Legislativo e ao Judiciário, naquilo que entender que ele passou do limite, gerar o limite”.

Maia – que tem feito críticas recorrentes ao projeto político defendido por Bolsonaro – acrescentou que, na agenda de costumes, não há por parte do Parlamento o apoio que o presidente tem na agenda econômica. “Nosso papel é construir o caminho do fortalecimento, de reafirmação da democracia. Do meu ponto de vista, muitas coisas que ele fala no seu discurso, eu discordo, mas não falo porque pessoalmente para mim é muito forte, como a questão do Felipe Santa Cruz”, disse ele, em referência ao presidente da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), Felipe Santa Cruz.

Em entrevista, Bolsonaro contrariou dados oficiais e colocou em dúvida a versão para o morte do pai de Felipe, o militante de esquerda Fernando Santa Cruz. Para o presidente, ele teria sido assassinado por integrantes do próprio grupo político que integrava. Relatório da Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos, porém, atesta que Fernando foi morto por militares durante o regime militar.

‘Erros’. Durante o debate, o presidente da Câmara afirmou que a eleição de Bolsonaro foi “um produto dos erros” da classe política nos últimos 30 anos, ao tratar sobre como um deputado federal do chamado baixo clero da Casa venceu uma eleição presidencial.

Maia fez essa afirmação após o governador do Maranhão, Flávio Dino (PCdoB), que também participou do debate, ter feito críticas à postura de Bolsonaro como presidente. “Bolsonaro é produto dos nossos erros. Um deputado que estava sem partido, escanteado até pelas elites militares, vai e pega um movimento de rua, pega questões de valores, muito conservadores, e se elege”, disse. “Se ele chegou onde chegou, a culpa é nossa”, acrescentou.

Para Maia, o ex-juiz Sérgio Moro, escolhido por Bolsonaro para a Justiça, não apoiou o então candidato do PSL no primeiro turno das eleições. Ele disse que a Lava Jato foi decisiva para a vitória de Bolsonaro, “mas o nome da Lava Jato não era Bolsonaro”. “Não deu tempo para que o candidato deles criasse condições para disputar a eleição. Como a Lava Jato não teve candidato, Bolsonaro foi beneficiado por esse movimento.”