Delfim joga suas luzes: “Com a satanização da política, o Congresso sentiu o gostinho de sangue e viu que o poder está dentro da Casa”

BR: Reconhecido como um dos economistas mais bem preparados e inteligentes do País, o ex-ministro Delfim Netto é igualmente um analista político de mão cheia. Ele foi ministro da Fazenda e da Agricultura nos tempos do regime militar, e deputado federal por três mandatos já na período democrático. Conheceu por dentro, assim, Executivo e Legislativo. Para ele, é na relação entre os dois poderes que está a melhor contribuição do governo do presidente Jair Bolsonaro para o País, ainda que tenha sido sem querer.

Delfim falou à revista Exame, em entrevista ping-pong:

“O que estamos assistindo agora é tudo o que Bolsonaro disse durante a campanha”, afirmou o ex-ministro. “Toda a ação dele foi para provocar uma satanização da política”. A consequência, porém, não foi exatamente a que o candidato, agora presidente, esperava. “Essa questão da satanização da ‘velha política’ forçou o Congresso a pensar na própria posição. E os congressistas acabaram descobrindo que o poder está dentro da Casa. O poder não está no Executivo”, completa Delfim.

Iniciativas como elaborar a própria reforma tributária, para só depois aceitar contribuições do governo, são um exemplo destacado pelo ex-ministro de empoderamento dos parlamentares.

“O  Congresso, de repente, sentiu o gostinho de sangue”, compara. “Com o fim da política do ‘toma lá dá cá’, que foi uma desgraça, estamos tendo um aperfeiçoamento da administração, mas que não que não foi algo projetado. Foi um acidente derivado da satanização dos políticos. O Executivo está dando sua trombadas, mas está voltando para a caixinha”.

Ele insistiu nessa tesa:

“Estamos em um momento novo da história. A má política ficou visível e nos levou para o desastre. Hoje, o Congresso é o poder”, apontou.

Para ele, o governo Bolsonaro tem “muitas facetas, algumas excelentes e algumas tenebrosas”. Deixando estas últimas de lado, o ex-ministro disse que a área econômica é o melhor da atual administração. “A equipe colocou que sem o equilíbrio fiscal, que é a mãe de todos os equilíbrios, o país não voltará a crescer. E só vai crescer quando transferir o investimento público, especialmente em infraestrutura, para o setor privado por meio de concessões e privatizações”.

Um dos principais personagens civis da ditadura militar no Brasil, Delfim não demonstrou dúvida sobre o que aconteceu em 1964 e qual foi o tipo de regime político ali instalado:

“Evidentemente houve um golpe. É evidente que houve ditadura. Sobre isso, não pode haver nenhuma dúvida”, sentenciou.

Ele deixou um conselho a Bolsonaro:

“Ninguém resolve conflitos por meio de tuítes. O presidente tem de, na verdade, reexaminar a forma como está administrando. E compreender que existem áreas brilhantes e áreas escuras. É melhor para ele e para o Brasil continuar focando essas áreas brilhantes e jogar o resto no escuro”, recomendou.

Às vésperas de completar 91 anos, Delfim, como se vê, continua com seu poder de síntese em dia.