“Eu mandaria que meu filho saísse da região o mais rápido possível”

Os engenheiros André Jun Yassuda e Makoto Namba, que trabalham para a empresa alemã TÜV SÜD, complicaram ainda mais a situação da cúpula da Vale perante a Justiça e a sociedade. Presos, ouvidos pela Polícia Federal e soltos no início da semana, eles afirmaram em depoimento tomado pelo delegado Luiz Augusto Nogueira que a direção da companhia foi informada com antecedência sobre infiltrações de água na barragem Córrego do Feijão.

No depoimento à PF, Namba afirma que sabia da existência de uma nascente a montante – ou seja, acima do reservatório da barragem -, e que a água excedente desta nascente corria para dentro da barragem. Disse também que, em julho de 2018, foi construída uma barreira e colocada tubulação na nascente para desviar a água do reservatório.

Ele contou que em setembro passado, quando fez a inspeção na barragem, solicitou para a Vale construir um ‘sump’ (bacia de contenção), para que o excedente que extravasasse a barreira e a tubulação colocada na nascente ficasse represado nesse local para posterior bombeamento.

Também disse que, no início do projeto de descomissionamento – a retirada dos rejeitos da barragem – a TÜV SÜV apresentou uma solicitação à Vale para a realização de levantamento geofísico a fim de verificar se a água dessas nascentes localizadas a montante poderia estar contribuindo para o lençol freático. Este levantamento, segundo ele, ainda estava em fase de contratação pela Vale.

Durante o depoimento, o delegado leu e-mails trocados entre funcionários da Vale responsáveis pela barragem, da TÜV SÜV e de uma terceira empresa. As mensagens começaram a ser trocadas no dia 23 de janeiro, às 14h38, e se prolongaram até às 15h05 do dia seguinte. A barragem se rompeu no dia 25 de janeiro, dois dias após a primeira mensagem.

O delegado disse que o assunto das mensagens diz respeito a dados discrepantes obtidos através da leitura dos instrumentos automatizados (piezômetros), no dia 10 de janeiro de 2019, instalados na barragem que se rompeu. A Vale também teve ciência antecipada do não funcionamento de 5 piezômetros, os sensores que medem a pressão da água.

No depoimento, não constam detalhes sobre as mensagens. O engenheiro disse que só ficou sabendo das alterações dos dados fornecidos pelos sensores após o rompimento da barragem.

Perguntado sobre qual seria sua providência caso seu filho estivesse trabalhando no local da barragem, o engenheiro da TÜV SÜV respondeu que, após a confirmação das leituras, ligaria imediatamente para seu filho para que evacuasse do local.

“Eu mandaria que meu filho saísse da região o mais rápido possível”, disse Namba.

O engenheiro também falou de uma reunião com funcionários da Vale sobre o laudo de estabilidade assinado por ele e disse que um funcionário da Vale chamado Alexandre Campanha perguntou a ele: “A TÜV SÜV vai assinar ou não a declaração de estabilidade?”.

Makoto Namba disse ter respondido que a empresa assinaria o laudo se a Vale adotasse as recomendações indicadas na revisão de junho de 2018, mas assinou o documento. Segundo ele, apesar de ter dado esta resposta para Alexandre Campanha, sentiu a frase proferida como uma maneira de pressionar ele, engenheiro, e a TÜV SÜV a assinar a declaração de condição de estabilidade sob o risco de perderem o contrato.

O outro engenheiro da TÜV SÜV, André Jum Yassuda, também falou no depoimento sobre os sensores citados nos e-mails. Disse que na inspeção periódica realizada pela TÜV SÜV, em junho de 2018, foram feitas algumas recomendações à Vale, dentre elas, a intensificação do monitoramento e da leitura dos instrumentos e aumento do número de piezômetros. Na terça-feira 5, o Superior Tribunal de Justiça decidiu, por unanimidade, mandar soltar os dois engenheiros da TÜV SÜV e três funcionários da Vale responsáveis por atestar e monitorar a segurança da barragem. Eles tinham sido presos quatro dias após a tragédia.