Traições para eleições de 2022 começam por Paulo Marinho: de fiel escudeiro de Bolsonaro a propagandista de Doria para presidente

BR: Ao jornal O Estado de S. Paulo, edição de hoje, a primeira grande traição para as eleições presidenciais de 2022 mostra seu rosto e sua voz. O empresário Paulo Marinho deixou a condição de fiel escudeiro do então candidato Jair Bolsonaro, no ano passado, para já se tornar um dos principais propagandistas da campanha do governador João Doria, de São Paulo, para as próximas eleições presidenciais.

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Paulo Marinho ainda chama Jair Bolsonaro de “capitão”. Cacoete da enorme proximidade adquirida pelo empresário com o presidente ainda durante a campanha, em que mergulhou de cabeça, a ponto de ceder sua casa como QG de gravações e reuniões políticas e ser alçado a suplente na chapa do “filho 01”, Flávio, ao Senado pelo PSL do Rio. Mas a proximidade durou pouco, e Marinho acaba de assumir a presidência do PSDB no Rio e um papel de igual destaque na caminhada de outro postulante ao Planalto, o governador João Doria.

Em entrevista ao Estado, Marinho diz que Doria é mais preparado que o “capitão”, e que vai se credenciar para vencê-lo graças à capacidade gerencial. Faz críticas à forma como Bolsonaro administra, à família presidencial e à falta de habilidade para lidar com o Congresso. A respeito do engajamento do passado, diz que viu em Bolsonaro um atalho para derrotar o PT, mas que nunca foi “um bolsominion”. A seguir, os principais trechos da entrevista.

• Já na transição e logo após a posse começaram as cotoveladas entre vocês e o núcleo mais próximo ao presidente, notadamente a família. Quando o ciúme começou a minar as relações?

A semente do ciúme começa na campanha ainda. Como o Gustavo (Bebianno, ex-ministro da Secretaria-Geral) teve um protagonismo muito grande, e como o capitão tinha por ele, além da relação profissional, uma relação de afeto, isso foi o motivo principal pelo qual ele não permaneceu no governo.

Isso (o protagonismo) gerou um descontentamento muito grande no grupo familiar e nos amigos, aquele grupo que convivia há quase 30 anos em torno do capitão, nos gabinetes deles, porque ali são todos gabinetes interligados. Não imaginei que esse ciúme pudesse acabar com o desfecho da demissão do Gustavo em tão pouco tempo. O 02 deu o primeiro tiro.

• 02 é o Carlos Bolsonaro? 02 é o Carlos.

• Como essa relação com os filhos tem impacto político e administrativo no governo?

Os episódios mais polêmicos têm sempre a participação do núcleo familiar ou dos assessores mais próximos deles. É sempre o grupo mais próximo.

• O problema é ideológico ou familiar?

Tem um pouco de tudo. Um pouco ideológico, e nesse campo eles são muito radicais no modo de pensar: só é bom quem pensa absolutamente como eles.

• Com a saída do Bebianno você também se desligou do projeto. Eu me afastei do projeto desde logo depois da campanha. Ele (Bolsonaro) venceu no domingo, me pediu para ceder a casa para a primeira reunião, na segunda-feira. Foi o último dia que tive contato com ele. Mas não tem nada de estranho nisso. Como eu não estava no governo, não tinha intenção de participar, a minha participação se encerra ali.

• Essa forma de lidar com aliados, fritando e depois cortando a cabeça, atrapalha o governo? Sinceramente, esperava que o governo fosse trabalhar de maneira mais coordenada, sobretudo na relação com o Congresso. O que vimos até agora foram muitos desencontros. Se ele não encontrar uma maneira de lidar com o Congresso, vai ter problemas até o final. Ele tem sido muito generoso com a imprensa, o capitão: gera notícias todo dia, e notícias que não são exatamente positivas.

• O que o levou tão rapidamente ase filiara oPSDBea voltara construir uma candidatura Doria? Tenho uma relação de mais de 30 anos com o João Doria. Na campanha para prefeito, eu estava ajudando o (Carlos Roberto) Osório no Rio de Janeiro. Tive uma reunião com o Doria. Tenho uma relação pessoal, de amizade, com o governador, ques e transformou numa relação política. Achoque ele era eé a melhor alternativa. Tomara que o Brasil consiga enxergara oportunidade de eleger o Doria presidente, e espero que isso aconteça nas próximas eleições.

• Por que ele é melhor do que Bolsonaro?

Primeiro em termos de preparo. O Doria tem mais preparo para essa missão que o capitão. A candidatura do capitão foi uma atalho para derrotar o PT. Feito isso, voltei para a origem do meu projeto político, que é ajudar o João Doria no projeto dele hoje. Principalmente fazer um governo bem sucedido em São Paulo, que é o que vai credenciá-lo a chegar a 2022 como uma candidatura natural. Ele sabe disso, e tem dito que não é oportuno discutir a sucessão agora.

• Mas as questões se antecipam. Essa discussão sobre a Fórmula 1, por exemplo, mostra que 2022 já começou.

O Brasil tem a tradição de começar a discutir a eleição seguinte no dia seguinte da eleição. Mas essa questão de 2022 está sendo trazida à baila muito mais pelo próprio Bolsonaro. Ele pregou durante toda a campanha que era absolutamente contra o instituto da reeleição, mas de repente se coloca como candidato à reeleição.

• Qual seu projeto para fazer o PSDB ser relevante no Rio, algo que nunca foi?

No Rio de Janeiro, o PSDB está na mesma situação da cidade: completamente abandonado, a ponto de não ter sido capaz de eleger sequer um deputado federal. A primeira coisa que precisa acontecer no PSDB do Rio é abri-lo a novas filiações. Isso é muito difícil, fazer os jovens se engajarem na vida partidária, fora das redes sociais. Mas a gente precisa mostrar que só há espaço para mudança por meio da política, dos partidos.

• Mas o sr. acaba de deixar um projeto que investiu na demonização da política e na polarização. Como caminhar agora ao centro? Não tenho nenhuma dificuldade de fazer isso. Até porque apoiei a candidatura do Bolsonaro sem concordar com muita coisa que ele pensa. Nunca fui um bolsominion, por exemplo. O futuro do Rio não passa nem pela extrema direita nem pela extrema esquerda.

• E no plano nacional, o centro tem espaço? Acho que o (apresentador) Luciano Huck vai acabar pensando na possibilidade de representar esse grupo, porque hoje ocupa uma parte do seu tempo a pensar um projeto de país. Mas o que vai credenciar o governador João Doria será o trabalho que está fazendo no governo de São Paulo. Não acredito nem que alguém vá se colocar como alternativa no mesmo eixo dele. Se continuar fazendo o governo bem sucedido que vem fazendo, será o candidato natural.