Baixa repercussão mostra que Lula desperdiçou entrevista em que poderia ter feito chamado à pacificação

BR: Uma chance inicial à pacificação do País poderia ter sido a mensagem central da entrevista concedida pelo ex-presidente Lula aos jornais Folha de S. Paulo e El País, na semana passada, sob os olhares da opinião pública em geral. Deu-se o contrário. É a falta de conteúdo inovador que explica a baixa repercussão das palavras do líder petista.

Lula é o único ator político com credibilidade, justamente por ser o mais perseguido, para iniciar um processo de (re)união nacional. A partir de sua parcela de simpatizantes, que não raros estimam ser superior à do presidente Jair Bolsonaro, o ex-presidente poderia ter lançado pontes em direção aos setores que, mesmo beneficiados em seus dois governos, o associam ao radicalismo e ao confronto.

Não se pediria dele qualquer palavra de apoio ao atual governo, mas seria plausível esperar que Lula assumisse uma postura de maior humildade frente à Justiça, mais crítica sobre seus próprios erros e mais atraente aos segmentos que foram se afastando de sua liderança ao longo do caminho desde o impeachment de Dilma Rousseff.

O PT já teve a classe média ao seu lado, e só com ela chegou ao poder. Depois de perdê-la para a direita, cada vez mais dela se distanciou, como se fosse impossível o resgate da compreensão de que as políticas de fortalecimento do mercado interno, da mitigação da pobreza extrema e do acesso de novas camadas sociais ao bem estar são essencialmente favoráveis à própria classe média. Não é uma missão impossível, tanto que já foi bem executada nas vitórias em quatro eleições consecutivas, mas está ficando.

Com seu discurso contra tudo e todos, de tecla única no ‘Lula livre’, o PT volta às suas origens de partido sectário, isolado e ranzinza. A presidente da legenda, Gleisi Hoffmann, é o retrato pronto e acabado desse velho perfil. Lula, infelizmente, entrou e não consegue sair dessa barca.

Fora de circulação há um ano, manifestando-se por recados a terceiros, ele poderia na entrevista, em que teve ampla liberdade para falar diretamente ao público, iniciar uma correção dessa rota em direção ao gueto.

A palavra seria a de que o Brasil tem de reconstruir pontes entre os democratas, e não apenas para os de esquerda.

De evitar a ruptura institucional, e não agravá-la com ataques à Justiça que até aqui o condenou e ao ministério público, nas figuras do ministro Sergio Moro e do procurador Deltan Dallagnol.

Da crítica séria à estagnação econômica da qual o governo Bolsonaro não tem projeto para superar, em lugar de simplesmente chamar a administração de ‘um bando de maluco’.

De se dirigir ao empresariado que ele fortaleceu e, paradoxalmente, o abandonou.

De falar aos trabalhadores, às vésperas do 1º de Maio, para convocá-los, e sobre a reforma da Previdência, para orientá-los.

De lamentar a divisão no chamado campo progressista ocorrida na campanha presidencial, ao contrário de manter o sonho distante de uma candidatura própria que inviabiliza o crescimento de alternativas fora do quadrado do PT.

De nominar líderes nos quais se pode confiar a missão de quebra do separatismo da esquerda, em lugar de não enxergar esses outros.

Ao PT, em particular, poderia ter incitado seu partido a fazer melhor seu papel de opositor ao governo, com marcação mais forte aos sucessivos erros da gestão Bolsonaro, libertando-o do imobilismo causado por ter-se tornado o partido de uma bandeira só, esta do Lula Livre. Neste ponto, o ex-presidente deveria ter-se dirigido de maneira humilde e respeitosa ao Supremo, sua única chance, em lugar de atritar ainda mais os estamentos da Justiça, tática de seus advogados que tem lhe custado sucessivas derrotas.

Era a chance da falar diferente, de abrir novas pautas, começar a escrever uma outra agenda.

Lula, ao avesso da necessária ampliação que o momento político requer, e mais ainda o seu momento pessoal, em particular, apenas repetiu suas mágoas, reafirmou seu voluntarismo e renovou seu personalismo. Fez mais do mesmo de sempre, quando poderia ter lançado diretrizes alternativas para o debate. Foi menor onde teve a chance de mostrar grandeza.

Como pessoa, pelo que tem sofrido, Lula merece ser perdoado pela oportunidade desperdiçada.

Na qualidade de dirigente político, tem de ser criticado. Sendo apenas adulado, como o PT quer, não contribui para a necessária reunificação nacional, apenas a acentua.