BR: Os sinais estão por toda parte. A cada vez que o presidente Jair Bolsonaro desperdiça suas energias à volta de temas polêmicos ou ideológicos no Twitter ou em discursos de corpo presente, mais ele consegue frustrar e, também, irritar líderes de partidos políticos na Câmara dos Deputados. A  partir da quarta-feira 13, quando a Comissão de Constituição e Justiça se reunir para iniciar a análise da PEC da Previdência, serão esses líderes, e não Bolsonaro e seus seguidores nas redes sociais, que terão de superar obstáculos regimentais que a oposição certamente irá utilizar e, especialmente, convencer atuais indecisos para formar os necessários 308 votos para a aprovação da reforma em plenário. A impressão generalizada é a de que os desvios de foco do presidente não somam para essa missão.

A cada vez que, em lugar de reforçar sua preocupação com a Previdência, Bolsonaro liga sua metralhadora verbal giratória para outros alvos, ele também passa a impressão de que são favas contadas a vitória do governo. Só que não. Nas contas do ministro Paulo Guedes, por exemplo, ainda faltam 48 votos – e sua declaração com esta matemática foi considerada otimista. Para a líder do governo no Congresso, Joice Hasselmann, já se somam 340 votos, mas a esse cálculo ela ressalvou que se trata de uma maioria “ainda em construção”.

O certo é que a batalha ainda não começou e, portanto, nada está ganho. Se a reforma receber muitas emendas, e não fechar a contra do R$ 1 trilhão de economia que Guedes requer, o governo colherá um derrota. Não basta aprovar a reforma, em sua, é preciso aprovar um reforma útil e bem recebida pelos agentes econômicos.

O consenso entre analistas, hoje, é o de que Bolsonaro bem mais perde do que ganha a cada vez que sai atirando alucinadamente, postura que deu certo nos palanques, mas que pode ser muito perigosa no exercício do poder. Ou não é verdadeiro que, antes mesmo de completar dois meses da atual gestão, já se ouviu uma voz de peso como a do jurista Miguel Reale Júnior falar em motivos para impeachment, com base na tuitada presidencial com o vídeo obsceno da segunda-feira de Carnaval?

Na mídia tradicional, onde obteve apoio maciço durante toda a sua campanha, especialmente depois do atentado sofrido em Juiz de Fora, igualmente Bolsonaro muito mais tem perdido do que obtido ganhos. Com a Rede Globo, expôs desnecessariamente toda a sua desconfiança no episódio da desgastante exoneração do então secretário-geral da Presidência, Gustavo Bebbiano. Com o Estadão, jornal que dedicou-lhe editoriais inteiros qualificando-o como a grande esperança democrática diante do esquerdismo do PT, o presidente já até conseguiu romper, não menos que isso.

Ontem, Bolsonaro e seu dedo ligeiro, mas desastrado, reproduziram ‘fake news’ com acusações contra uma jornalista do Estadão a partir de publicação original em uma página eletrônica bolsonarista. Com seu time de excelentes repórteres, o jornal paulista não tardou a descobrir que uma das alimentadoras do ‘Terça Livre’ tem remuneração em gabinete de parlamentar do PSL, ampliando o arco da mentira.

Por falar em PSL, Bolsonaro faria melhor, acreditam políticos experientes no Congresso, se desse mais atenção ao seu próprio partido do que simplesmente ciscar sobre temas espinhosos no momento em que a serenidade seria um ótimo elemento para a aprovação da reforma. Ocorre que, por mais que o presidente a desdenhe, a crise dos candidatos laranjas segue rendendo notícias todos os dias para a mídia, configurando uma demolição de imagem que já foi experimentada, pelos casos de corrupção que todos sabem, pelo PT. Mais um pouco e o presidente, se puder, terá de mudar de legenda para não se molhar com o suco que sai das denúncias de desvios de verbas públicas a favor das candidaturas de chefes partidários.

Há, ainda, o caso Queiroz. A leniência nas investigações no âmbito da Justiça não evita o sangramento na imagem da família Bolsonaro em seu principal reduto, segundo maior eleitorado do País, o Rio de Janeiro. Pós-Queiroz, o discurso moralista que incendiou a campanha eleitoral já não poderá mais ser repetido nos mesmos termos. E quando se começa a perder o discurso, em política também se perde o chão. Com seu típico triunfalismo, Bolsonaro não acredita que isso possa acontecer com ele, mas já dá sinais de extremo nervosismo, numa insinuação de que sua propalada fortaleza pessoal não é inabalável.