Campeão do anticomunismo e insistindo na pauta de costumes, Bolsonaro ideológico anda para trás e destrói chances de mudar Previdência

BR: Em praticamente todos os dias do seu governo até aqui, fica claro que o presidente Jair Bolsonaro é anticomunista. Qualquer dúvida sobre ele ser contra a ideologia do politicamente correto também é sanada: ele é o primeiro a trombar com esse conceito. E ninguém pode alegar que não sabe que Bolsonaro é um ultraconversador, adversário da agenda identitária e da pauta de costumes.

Em suas redes sociais, nas mensagens que dá pela mídia e também na viagem aos Estados Unidos, o presidente tem afirmado, reafirmado e confirmado toda a sua agenda ideológica de direita. Ok! Não haveria nenhum problema nisso, desde que estivesse funcionando para ele ou para o País.

Ocorre, porém, que o discurso ideológico de Bolsonaro não está fazendo o efeito desejado nem para os interesses dele nem para a necessidade mais urgente do País, que atende pelo nome de reforma da Previdência.

Com seu discurso de beligerância, sem conceder o menor espaço de respeito para o contraditório, Bolsonaro o que colheu foi uma curva acentuada para baixo no levantamento do principal instituo de pesquisas de opinião do Brasil, o Ibope. Ele perdeu 15 ponto de ótimo/bom e ganhou 13 em ruim/péssimo. O presidente deu de ombros e comentou que não liga para pesquisas, mas o Congresso, ele deve saber, está atento ao enfraquecimento de Bolsonaro ‘na massa’. Afinal, o projeto de reforma da Previdência, que está para ser votado, é impopular – e acompanhar um presidente que vai perdendo popularidade para coadunar com uma iniciativa mal assimilada pela população nunca foi tradição entre os políticos.

A agenda ideológica de Bolsonaro não lhe deu até agora um apoiamento a mais do que os que ele amealhou em sua vitoriosa campanha eleitoral. Está claro que está agenda não amplia. O necessário movimento da direita, onde ele se posiciona, para o centro, na tentativa de reunir em torno de si a maioria do País, está sendo feito, na prática, pelo presidente, da direita para a extrema direita. E, até onde se vê, a opinião pública determinante não está no gueto da ultradireita, como também não entra no buraco da extrema esquerda.

As insistentes marcações de posição de Bolsonaro em relação à sua ideologia pessoal, como, por exemplo, ter elogiado o falecido ditador paraguaio Alfredo Strossner ou ter ido muito além do protocolo na exaltação do presidente Donald Trump, deixando confundir uma compreesível admiração com uma inaceitável subserviência, já cobram seu preço.

A articulação em torno do projeto que pode viabilizar ou enterrar seu governo – a reforma da Previdência, insista-se – está, para usar o português claro, uma bagunça completa. Uma esculhambação. Prova está no fato de o maior aliado dele neste tema, o presidente da Câmara, Rodrigo Maia, ser alvo de chacotas por parte de seus filhos. E de muita pouca atenção oferecida pelo próprio presidente, que chamou Maia para uma conversa apenas uma vez depois da posse. Contam-se, desde então, quase três meses.

Há dúvidas sobre se Bolsonaro saberá guardar, ao menos por um momento, sua bílis ideológica. Ela que o diferenciou dos demais candidatos em campanha, está cheirando mal agora. O presidente deveria se afastar. Deixar de ser propagandista do anticomunismo – que, de resto, morreu de velho e não assusta mais ninguém como fantasma de plantão – e, também, manter-se renitentemente contra a agenda social mais liberal. O ideal seria deixar isso para depois, ao menos.

Agora, Bolsonaro deveria trabalhar ‘full time’ pelo que interessa, a nova Previdência. Sem ela, o presidente será um pato manco antes de o primeiro ano de governo se completar.